Maior estudo sobre sequelas do Zika traça retrato dos efeitos em crianças
Reprodução/TV Brasil
07/01/2026 | 16h33
São Paulo, 07/01/2026 - Uma pesquisa publicada no final de 2025 revelou o panorama mais completo já produzido sobre as consequências do vírus Zika em crianças brasileiras. Conduzido pelo Consórcio de Coortes Brasileiras do Zika (Consórcio ZBC), o estudo se destaca por sua magnitude: foram analisados dados individuais de 843 crianças nascidas entre 2015 e 2018, período crítico da epidemia no País.
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Até então, a compreensão da Síndrome Congênita do Zika (SCZ) baseava-se majoritariamente em estudos menores, com poucos participantes, o que limitava a capacidade dos cientistas de entenderem a real dimensão do problema.
Ao reunir informações de 12 centros de pesquisa diferentes, que abrangem as regiões Norte, Nordeste e Sudeste, os pesquisadores conseguiram criar uma base de dados sólida para traçar o espectro da microcefalia causada por esse vírus no País.
O professor da Universidade de Pernambuco e cientista que participou do estudo, Demócrito Miranda explica que a pesquisa é a maior com dados primários, ou seja, aqueles obtidos diretamente pelos pesquisadores através de entrevista com familiares ou exames em crianças.
"O estudo descreve características dessas crianças nos primeiros três anos de vida e mostra que há um espectro de gravidade em crianças com microcefalia, ou seja, casos mais leves-moderados e casos muito graves, especialmente aqueles com desproporção crânio facial", aponta o professor.
Ele acrescenta que um dos principais diferenciais do estudo vem da frequência dos encontros. Isso porque os grupos de pesquisa vêm se reunindo periodicamente desde 2016 quando foi criado o Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika. "Esse é mais um produto desse trabalho coletivo", observa.
Epicentro
O estudo reafirma o peso desproporcional da epidemia sobre a região Nordeste. Isso porque, dos 843 participantes analisados, 73,5% (620 crianças) são dessa região, com grande concentração de casos em cidades como Recife, Salvador, São Luís e Aracaju. O Sudeste representou cerca de 24% da amostra, incluindo crianças do Rio de Janeiro e Jundiaí (SP), enquanto o Norte contribuiu com casos de Manaus e Belém.
Essa abrangência permitiu aos pesquisadores observar que, embora os sintomas sejam semelhantes, a gravidade da microcefalia variou muito entre os locais estudados, oscilando de 11% a 87,5% de casos graves dependendo do grupo de pessoas analisadas.
Microcefalia
A pesquisa atesta que a microcefalia não é apenas uma condição de nascença estática, visto que, subtraindo o dado de que 71,3% das crianças já nasceram com a dimensão cefálica reduzida, ainda há cerca de 20% (172 crianças) que desenvolveram a microcefalia após o nascimento. Ou seja, nasceram com cabeças de tamanho normal, mas o crescimento do crânio desacelerou nos meses seguintes devido aos danos cerebrais causados pela infecção pelo vírus Zika.
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O estudo detalha que o vírus deixa marcas profundas que vão muito além da medida da cabeça, exigindo cuidados médicos complexos:
- Problemas neurológicos: a epilepsia foi identificada em uma faixa de 30% a 80% das crianças, dependendo do grupo estudado. Além disso, mais da metade das crianças em grandes centros apresentaram déficits de atenção social (como não fixar o olhar ou não sorrir em resposta a estímulos);
- Visão: calcificações cerebrais, que ocorrem quando depósitos de cálcio se acumulam em diferentes áreas do cérebro ou em seus vasos sanguíneos, assim como problemas de visão foram as anormalidades mais consistentes;
- Malformações físicas: muitas crianças apresentam excesso de pele no pescoço e na parte de trás da cabeça (devido ao não crescimento da caixa craniana), além de contraturas articulares que ocorre quando tecidos moles que envolvem uma articulação — como músculos, tendões, ligamentos e a própria pele — se tornam curtos, rígidos e perdem a elasticidade, há também a apresentação de pé torto congênito.
Miranda detalha que, para crianças gravemente afetadas há a necessidade de assistência em fisioterapia, fonoterapia, terapia ocupacional e um acompanhamento contínuo com essas e diversas outras especialidades médicas, visando identificar e abordar eventuais complicações que podem comprometer diversos órgãos e sistemas.
"Epilepsia de difícil controle e disfagia (dificuldades de engolir alimentos e até saliva) são complicações frequentes, potencialmente graves e que precisam de cuidado especializado", elenca.
Cobate às arboviroses
O Zika Vírus é uma arbovirose causada pelo vírus Zika (ZIKV). As arboviroses são doenças transmitidas por meio da picada de mosquitos, principalmente fêmeas.
Sobre o controle dessas doenças virais no Brasil, Demócrito elenca dois avanços importantes. O primeiro é uma tecnologia de controle biológico de vetores que o Ministério da Saúde está implantando pelo uso da Wolbachia, bactéria injetada no Aedes aegypti que impede que os vírus dessas doenças se desenvolvam dentro do mosquito, reduzindo sua capacidade de transmissão.
O segundo avanço listado pelo pesquisador da UPE são os investimentos em vacinas contra dengue e Chikungunya que estão em fases mais avançadas e contra Zika, análises ainda em fase inicial.
Desafio para a vida toda
O estudo destaca que a alta frequência de danos graves ao sistema nervoso central nessas 843 crianças confirma a necessidade urgente e contínua de assistência multidisciplinar. Sendo assim, não se trata apenas de acompanhamento pediátrico, mas de uma rede que envolva neurologistas, oftalmologistas e fisioterapeutas.
"Os resultados reforçam a necessidade de que as autoridades de saúde pública planejem ações multidisciplinares permanentes para o cuidado dessas crianças", conclui Demócrito Miranda.
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