Negros e LGBT+ enfrentam preconceitos também na velhice, apontam gerontólogos
Paula Bulka Durães/VIVA
São Paulo - Cuidadoras negras são excluídas do ambiente de trabalho doméstico e de cuidados devido a preconceitos raciais. Essa afirmação marcou a palestra "Vulnerabilidades e as Diferentes Velhices", na mesa que encerrou o 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP.26), neste sábado, 11.
A assistente social e gerontóloga Marília Berzins Berzins denuncia o impacto do racismo estrutural sobre essas trabalhadoras, citando anúncios de emprego que exigem expressamente que as candidatas não sejam "negras e gordas" ou utilizem o banheiro dos patrões, remetendo a uma visão de herança escravagista.
O painel desconstruiu a visão de uma única velhice, sem considerar as multiplicidades das pessoas idosas no País, além de evidenciar as falhas estruturais no acolhimento de grupos historicamente marginalizados.
Berzins trouxe ainda uma provocação para os profissionais de saúde presentes na sala:
A medicina brasileira, em sua maioria branca, não está preparada para atender às especificidades das pessoas idosas negras, e muito menos a sociedade está pronta para acolhê-las.
A palestrante observou que a geriatria e a gerontologia também refletem a desigualdade acadêmica. A medicina, segundo dados apresentados por ela, é uma das áreas de ensino superior com maior proporção branca: cerca de 75% dos formados em medicina são brancos, enquanto os profissionais pretos representam apenas 2,8%.
Sem representatividade e letramento racial nos consultórios e hospitais, a saúde falha em compreender as trajetórias de vulnerabilidade, de acordo com a gerontóloga.
A velhice dos negros no Brasil é o somatório das desigualdades impostas pelo racismo ao longo da vida."
Idadismo e exclusão LGBT+
Na linha de evidenciar um sistema de saúde excludente, o pesquisador Diego Felix Miguel apontou como o idadismo, somado à LGBTfobia, distancia a população LGBTQIAPN+ idosa de clínicas e Instituições de Longa Permanência (ILPIs).
Pessoas idosas LGBT deixam de acessar o serviço de saúde com medo por alguma experiência que ela tenha tido ao longo da vida e que não foi nada satisfatório, que foi traumático."
Nos espaços de cuidado contínuo, a exclusão é, muitas vezes, ditada pela cultura e por valores baseados em práticas religiosas da própria instituição, perpetuando o que o palestrante chama de "LGBTfobia cordial" — um preconceito velado que obriga pessoas idosas a esconderem sua orientação e identidade por medo de discriminação de profissionais e de outros residentes.
Ele criticou a visão patriarcal sobre a sexualidade, que define que o sexo só é válido se houver penetração, silenciando completamente as vivências e os desejos femininos. "Sexo para mulheres idosas vem muitas vezes associada a dor e sofrimento".
Para o especialista, as relações de poder e gênero moldam e reprimem identidades, com forte impacto sobre as mulheres.
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