Instagram e WhatsApp lideram espaços de violência sexual contra crianças
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São Paulo, 04/03/2026 - Em apenas um ano no Brasil, uma a cada cinco crianças e adolescentes de 12 a 17 anos foi vítima de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia. Esses 19% representam cerca de 3 milhões de crianças vítimas de violência sexual online; redes sociais como Instagram e WhatsApp são espaços onde esses casos acontecem com maior frequência.
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Os dados são do relatório "Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia", lançado pelo Unicef Innocenti nesta quarta-feira, 4. Dos espaços online que facilitam a violência sexual com crianças, redes sociais e aplicativos de mensagem são as ferramentas mais comuns para realizar os ataques (64% dos casos). Os mais frequentes são:
- Instagram (59%)
- WhatsApp (51%);
- Jogos online (12%).
A pesquisa alerta também para o uso de material de abuso sexual gerado por inteligência artificial. Em apenas um ano, 3% das crianças e adolescentes relataram que alguém usou a tecnologia para criar imagens ou vídeos de conteúdo sexual com sua aparência.
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O que são abusos "facilitados" pela tecnologia?
Essas violências são situações em que tecnologias digitais são utilizadas em algum momento durante o abuso. Dessa forma, elas podem ocorrer totalmente online, ou combinar interações virtuais com presencias, assim como podem acontecer totalmente presencialmente, sendo a tecnologia usada para registrar e compartilhar imagens.
O estudo feito em parceria com a ECPAT Internacional e a Interpol, com financiamento do Safe Online destaca que essas violências são facilitadas por meio de ferramentas digitais como redes sociais, jogos online, plataformas de mensagem, entre outras.
Quem comete o crime e onde?
A exposição a conteúdo sexual não solicitado é indicada como a forma mais comum de violência – 14% das crianças e adolescentes entrevistados alegam ter recebido esse tipo de conteúdo. O que a pesquisa reforça é que, dentro dos casos, quase metade (49%) dos abusos foram cometidos por alguém conhecido da vítima e três a cada dez crianças não contaram o ocorrido para ninguém.
Nos casos em que a revelação ocorre, ela tende a acontecer primeiro no círculo mais próximo. Em quase um quarto dos casos (22%), as vítimas compartilharam a situação com amigos. Entre os principais motivos para o silêncio está a falta de informação sobre onde buscar ajuda ou para quem contar, apontada por 22% das crianças e adolescentes.
Dentro das situações em que a vítima conhecia o agressor, na metade das vezes o primeiro contato aconteceu no ambiente virtual. Outras formas de contato acontecem com mais frequência na escola (27%), na casa da criança (11%) ou em espaços de prática de esportes (2%).
Joaquin Gonzalez-Aleman, representante da Unicef no Brasil, explica que o contexto desse tipo de violência é complexo devido ao risco que está presente tanto nas interações online quanto nas relações do cotidiano.
Compreender essas dinâmicas é essencial para fortalecer políticas públicas, aprimorar mecanismos de proteção e promover respostas coordenadas entre governos, Sistema de Justiça, setor privado, plataformas digitais e sociedade civil".
A complexidade é refletida pela dificuldade ou não intenção de identificar o agressor. Isso porque, em 26% das situações o agressor era uma pessoa desconhecida, mas para além disso, em outros 25% não conseguiram ou não quiseram identificar quem cometeu o crime, o que demonstra um cenário mais difícil para realizar a denúncia.
Fator econômico
Para além da dificuldade na denúncia, o fator econômico-social também reforça dificuldades. Em um período de apenas um ano, 5% das crianças disseram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca do compartilhamento de imagens ou vídeos de conteúdo sexual. Além disso, 3% das vítimas alegaram ter recebido propostas do mesmo cunho para encontros presenciais com finalidade sexual.
Impacto na saúde mental
A pesquisa revela que essas crianças e adolescentes vítimas de exploração e abuso sexual facilitados pela tecnologia sofrem prejuízos na saúde mental. Dados apontam que mais de 20% desse grupo sofre com o constrangimento para ficar em silêncio; outros sentimentos são a vergonha (16%) e culpa (7%).
A ansiedade também aparece como uma taxa de cinco vezes maior de ocorrência nessas crianças e adolescentes. Tendências de automutilação e manifestação de pensamentos ou tentativas suicidas, também são recorrentes nesse grupo, tendo em vista a pressão e silenciamento imposta por essas situações de violência.
Como cuidar dessas crianças?
A pesquisa reforça que o cuidado com crianças e adolescentes online é um trabalho multisetorial que sai da casa daquele indivíduo e perpassa todos os espaços sociais. Por isso, o levantamento da Unicef sugere:
Governo e Sistema de Justiça
- Fortalecer e investir mais no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente;
- Padronizar protocolos de atendimento centrados na criança e no adolescente em todo o país;
- Atualizar as leis de proteção à infância e adolescência diante dos desafios das tecnologias emergentes;
- Enfrentar vulnerabilidades que aumentam o risco de abuso e exploração sexual.
Famílias e cuidadores
- Oferecer informação, orientação e serviços especializados de apoio;
- Promover ambientes familiares baseados no diálogo, na confiança e na escuta ativa;
- Fortalecer a educação sobre consentimento, autonomia corporal e relacionamentos saudáveis.
Escolas e profissionais do sistema de garantia de direitos
- Integrar a educação sobre consentimento e proteção digital no ambiente escolar;
- Capacitar profissionais para prevenir, identificar e responder a casos de abuso e exploração sexual.
Setor de tecnologia e plataformas digitais
- Fortalecer a cooperação entre empresas de tecnologia para prevenção e resposta à violência;
- Implementar salvaguardas eficazes nas plataformas digitais.
Sociedade em Geral
- Ampliar a divulgação de canais de denúncia acessíveis, seguros e acolhedores;
- Promover uma cultura de proteção e responsabilidade coletiva.
Sobre a pesquisa
A pesquisa contou com 1.029 entrevistas com crianças e adolescentes de 12 a 17 anos, e 1.029 com pais e responsáveis, realizadas em visitas domiciliares, entre novembro de 2024 e março de 2025. As perguntas consideraram as experiências vividas nos 12 meses anteriores à participação na pesquisa.
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