Aprendizado contínuo e trabalhabilidade são base para carreiras longas
A expectativa de vida maior exige que profissionais se adaptem e aprendam continuamente para se manterem relevantes no mercado de trabalho
Por Claudio Marques
27/09/2026 | 15h28Marcos Hiroshi/VIVA
O aumento da expectativa de vida e a evolução tecnológica estão redefinindo a relação das pessoas com o trabalho, exigindo uma adaptação contínua para manter a relevância profissional ao longo de carreiras mais longas.
A especialista Denize Dutra enfatiza a importância do aprendizado contínuo e da capacidade de desenvolver novas competências, especialmente em um cenário onde a inteligência artificial pode automatizar funções, mas também cria novas oportunidades.
Dutra propõe uma mudança de foco de empregabilidade para 'trabalhabilidade', destacando a necessidade de se adaptar e gerar valor em um ambiente de trabalho em constante transformação, além de refletir sobre identidade e propósito ao longo da vida.
São Paulo - O aumento da expectativa de vida, a inteligência artificial, a aceleração das mudanças e a convivência entre diferentes gerações estão transformando a relação das pessoas com o trabalho.
"A partir do momento em que vivemos mais, temos uma expectativa de vida muito maior, obviamente, a nossa vida profissional também será muito mais longa”, afirmou a doutora em administração, especialista em gestão empresarial e professora da FGV Denize Dutra durante o painel "O futuro não tem idade", realizado no 8º Fórum e Festival Longevidade.
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Esse cenário, de acordo com ela, muda um paradigma e em vez de se perguntar qual profissão escolher, a questão agora é: “Como é que eu, com a profissão que eu já escolhi ou qualquer outra que eu mude ao longo da minha jornada, vou continuar sendo relevante durante os meus 50 ou mais anos de carreira?”.
A importância do aprendizado contínuo
Para Dutra, a resposta passa pela capacidade de aprender continuamente. Trata-se do chamado lifelong learning, ou aprendizagem ao longo da vida. Mas a solução também passa pela necessidade de desenvolver novas competências, inclusive digitais. O profissional precisa estar preparado para aprender, aplicar o conhecimento, identificar quando ele deixou de ser suficiente e, então, “desaprender” e “reaprender”.
A inteligência artificial também modifica o trabalho, disse Dutra. Algumas tarefas podem ser automatizadas e determinadas funções podem desaparecer, mas novas necessidades profissionais surgem. “O que muda é a característica e a qualidade, a natureza desse trabalho. Mas o trabalho vai continuar existindo e sempre terá trabalho para humanos”, defendeu.
Para ela, criação, inovação e interação humana continuarão tendo espaço. A tecnologia, acrescentou, não deve ser tratada como vilã. Seus efeitos dependem da maneira como as pessoas escolhem utilizá-la.
Com vidas e carreiras mais longas, todas as cinco gerações que hoje convivem no trabalho precisam continuar aprendendo, compartilhando conhecimentos, desenvolvendo novas competências e encontrando formas de gerar valor.
Trabalhabilidade no lugar de empregabilidade
Nesse sentido, Dutra defende uma mudança na ideia de carreira. Em vez de uma trajetória linear, as pessoas podem passar por diferentes ciclos, funções e formas de trabalho. Nesse contexto, ela diferencia empregabilidade de trabalhabilidade.
Enquanto a primeira está relacionada à capacidade de obter e manter um emprego, a segunda é a capacidade de continuar trabalhando e gerando valor, mesmo diante de mudanças nos vínculos e nas funções.
O processo de aprendizagem, segundo a especialista, será permanente. Conhecimentos precisam ser aplicados e, quando deixam de responder aos problemas atuais, é necessário aprender outras formas de fazer. A curiosidade também ocupa papel importante. “Enquanto tivermos perguntas, estaremos buscando respostas”, afirmou.
Vida longa com propósito
De acordo com Dutra, uma vida mais longa também exige direção. Ela aponta a importância de ter clareza sobre identidade, propósito e valores. Ela explica que identidade significa compreender quem se é naquele momento da vida; propósito está relacionado ao que dá sentido à existência e à contribuição que se deseja oferecer; e valores dizem respeito ao que é considerado inegociável.
“Você não nasceu com prazo de validade”, afirmou. Por isso, segundo ela, é possível estabelecer objetivos para diferentes momentos da vida, independentemente da idade.
A professora ressalta, porém, que nem tudo está sob controle individual. Doenças, crises familiares, desemprego e problemas financeiros podem acontecer sem que tenham sido escolhidos. O que pode ser escolhido, segundo ela, é a maneira de enfrentar essas situações.
Ao encerrar o painel, Denize Dutra deixou perguntas para reflexão: “Quem sou eu nesse momento da vida?”, “O que continua dando sentido à minha vida e às minhas contribuições?”, “O que não desejo perder enquanto eu mudo ao longo da minha existência, da minha carreira?” e “O que preciso aprender, desaprender ou reaprender?”.
Empreendedorismo sênior
Na tentativa de se manterem relevantes no mercado, muitos profissionais partem para o empreendedorismo, seja por opção ou depois de perderem o emprego depois dos 50 anos. O assunto foi tema do painel "Empreendedorismo sênior, loucura ou possibilidade", mediado pelo CEO da Next 50+ e do Observatório da Longevidade, Fabio Nogueira.

Participaram Alessandra Andrade, CEO da SP Negócios, Maisa Blumenfeld Deorato, consultora de Negócios do Sebrae-SP, e Marlene Gonzales Bustamante, da Sonas Mayores: El Despegue, do Peru.
Os números apresentados no evento evidenciam a força demográfica desse setor na economia. Na cidade de São Paulo, existem 658.853 empresas com sócios que possuem mais de 51 anos, o que representa 24% do total de negócios ativos na capital paulista. No Peru, os dados trazidos por Marlene González indicam que 35% das novas empresas são lideradas por pessoas mais velhas, as quais apresentam uma taxa de mortalidade de negócios menor do que as empresas geridas por jovens.
Diferenciando entre o empreededorismo por oportunidade e o por necessidade, os participantes destacaram a necessidade de gestão e capacitação: A falta de gestão, principalmente entre os que abrem negócios por falta de opção no mercado de trabalho, é a principal causa da mortalidade dos empreendimentos.
Por isso, as participantes defendem o apoio de políticas públicas e de instituições como o Sebrae como crucial para tirar ideias do papel estruturalmente e desenvolver habilidades comportamentais e de vendas. O letramento ajuda a proteger o patrimônio, levando aqueles que se prepararam para empreender a não arriscar as economias de uma vida toda.
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