'Empresas que abrem vagas 50+ sem preparo fracassam', defendem especialistas
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São Paulo, 06/03/2026 – As companhias que abrirem oportunidades para profissionais com mais de 50 anos, sem preparo ou entendimento do que procuram, estão fadadas ao fracasso. Essa é a opinião do fundador da Labora e do LAB60+, Sergio Castelo Serapião.
A provocação foi feita no seminário on-line “Estamos preparados para viver e trabalhar mais?”, realizado pela FGV Educação Executiva na manhã desta sexta-feira. Nele, especialistas ligados à economia prateada e à longevidade nas empresas debateram a necessidade de combater a lógica jovem-cêntrica nos negócios.
Segundo Serapião, a maior parte das empresas que despertam para vagas sênior está condenada ao insucesso. “Recrutar para posições 50+ sem preparação ou clareza de propósito não funciona. Só dará certo se a organização corporativa se transformar”, defende.
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Ao lado do empreendedor, participou da palestra a co-líder de Nova Longevidade na Ashoka Brasil, Marília Duque, que concordou com a análise e acrescentou que a lente colocada sobre trabalhadores mais velhos está equivocada.
Tivemos um envelhecimento muito acelerado no consumo, no uso das cidades e nas unidades de saúde. Isso provoca uma transformação significativa na forma como os sistemas deveriam estar desenhados, mas as organizações ainda não estão moldadas para esse público."
Para ambos, tratar o envelhecimento populacional como um problema ou tentar encaixar colaboradores sênior em modelos de trabalho criados para jovens são erros que podem custar caro às organizações.
“Os modelos de trabalho atuais não são compatíveis com a saúde de ninguém, muito menos com a das pessoas idosas: ficar de pé o dia inteiro não é saudável. Portanto, não basta trocar um jovem por alguém mais velho, seis por meia dúzia; é preciso redesenhar todo o modelo de negócio”, defende Serapião.
A pirâmide já se inverteu
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), até 2050 a população mundial com mais de 60 anos chegará a 2 bilhões e mais de 80% das pessoas idosas viverão em países emergentes, como o Brasil. No entanto, segundo os especialistas, existe uma contradição no ambiente corporativo, que ainda adota uma estrutura pensada para profissionais mais jovens.
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Para Marília Duque, essa é uma visão cultural que continua sendo reforçada pelo mercado. “Há uma responsabilidade das organizações sobre a forma como retratam a velhice na publicidade, o que molda a visão sobre os mais velhos no mercado de trabalho. Mas os dados mostram o contrário, que os idosos são quem mais sustenta os lares brasileiros”, detalha.
O fundador do LAB60+ criticou a mera substituição de posições pensadas para os mais jovens por vagas sênior. “O idadismo ainda impõe muitas barreiras. Nas consultorias que presto, percebo que as empresas veem os mais velhos como menos ágeis. Não avançaremos tratando-os como jovens com nova roupagem.”
“Temos de parar de pensar que idoso é ‘café com leite’. O idadismo atinge todas as gerações: jovens não são ‘café com leite’, assim como os idosos também não”, complementa a consultora.
Qual o valor dos profissionais mais velhos?
Para Sergio Castelo Serapião, o valor dos mais velhos não está na agilidade e sim na versatilidade e nas habilidades socioemocionais (soft skills). “As organizações precisam entender que as pessoas são múltiplas e se encaixarão, e não moldar indivíduos para que caibam em caixinhas”.
Para isso, o aprendizado deve ser constante ao longo da vida, mas recai sobre um facilitador ou impeditivo: a tecnologia. “A tecnologia pode ampliar ou reduzir desigualdades. Se não investirmos em inclusão digital, produziremos vantagens ou desvantagens cumulativas. A inovação viabiliza o aprendizado ao longo da vida”, detalha Duque.
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Segundo a pesquisadora, para o mercado absorver os profissionais mais velhos, a educação contínua (lifelong learning) deve ser prioridade, através das seguintes bases:
- Transformação nas escolas e universidades: faculdades de comunicação, saúde e negócios precisam desenhar seus currículos para uma população que viverá mais;
- Ambientes intergeracionais: é necessário criar espaços de aprendizagem que integrem todas as idades;
- Universidades corporativas: devem assumir um papel sistêmico, preparando os indivíduos para aprenderem continuamente.
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