Brasileiros 50+ da periferia trabalham por sobrevivência, mostra estudo
Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
São Paulo, 03/03/2026 - As pessoas com mais de 50 anos que vivem nas periferias brasileiras são, em sua maioria, mulheres negras que trabalham para sobreviver. Esse é o perfil traçado pelo estudo "Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar", realizado pela data8, hub de inovação em economia prateada.
O envelhecimento que cresce nas bordas não pode ser ignorado: se os moradores de favelas e comunidades formassem um Estado, ele seria o 4º mais populoso do Brasil, com 16,4 milhões de pessoas.
De acordo com o levantamento, 59% dos brasileiros acima dos 50 anos que se enquadram na classe D são mulheres e 70% se declaram pretas ou pardas. Elas vivem em lares cheios, com média de quatro pessoas, e atuam como centro invisível das famílias, sustentando a casa e ajudando financeiramente filhos e netos, especialmente nas classes C e D.
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Nas periferias, elas cuidam dos outros
Para a head de Inovação & Insights da data8, Adriana de Queiroz, os homens mais velhos são minoria nas periferias por hábito, já que as mulheres costumam buscar cuidado com mais frequência, e pelas intercorrências da desigualdade social. "Isso ocorre porque os homens estão mais expostos à violência das ruas e morrem antes de envelhecer", explica, em entrevista ao VIVA.
Esses brasileiros de baixa renda trabalham porque a aposentadoria sozinha não cobre as necessidades básicas — e a previdência privada é quase inexistente. Segundo a pesquisa, 52% dos aposentados da classe D continuam ativos no mercado e 41% vivem do trabalho autônomo.
Nas velhices periféricas, falamos de uma mulher trabalhando por sobrevivência, e não por propósito ou empreendedorismo".
Apenas 34% dos brasileiros que moram em periferias geográficas, econômicas e simbólicas têm como fonte principal de renda a aposentadoria.
A dinâmica de trabalho, sustento e sobrecarga leva essas mulheres a adoecer com mais frequência. Segundo o estudo, nas classes mais baixas impera a lógica do autocuidado como último recurso.
"Para elas, saúde é resistir e aguentar; a prevenção é um privilégio que não possuem. O cuidado só começa quando o corpo não aguenta mais e pede para parar", complementa a coordenadora.
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A Unidade Básica de Saúde (UBS) é a principal porta de entrada para 61% desses brasileiros, já que 42,5% nunca tiveram acesso a planos de saúde.
Outra constatação do estudo é, nas palavras de Queiroz, um paradoxo. As mulheres com mais de 50 anos, mesmo vivendo em lares cheios, sentem-se muito sozinhas (47,6%). Na ausência de cuidado, as classes C e D se apoiam na fé, sobretudo na evangélica (31%), que funciona como alicerce e rede de apoio.
A casa está cheia de pessoas para as quais elas provêm sustento, mas não está cheia de cuidado para com elas. Por isso, elas se apegam muito à fé e a igreja acaba sendo estrutural, oferecendo o alicerce e a rede de apoio de que elas precisam."
Mercado não enxerga os 50+ periféricos
Os dados revelam que o consumidor das favelas brasileiras, que movimenta R$ 300 bilhões por ano, é pragmático. Conforme o levantamento, 80% das decisões de compra desse público são ditadas por preço e promoção. Outros 56% dizem ter o consumo influenciado por marcas conhecidas e confiáveis.
Outro ponto relevante é que os brasileiros acima de 50 anos da periferia pautam suas decisões de consumo em busca de pertencimento e respeito, enquanto os de classes mais altas miram o status.
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Embora o público das classes C e D movimente R$ 180 bilhões por ano, apenas 28% dos representantes da classe D se sentem reconhecidos pelas marcas. E um dado que chama a atenção das empresas é que essa faixa etária concentra 42% do consumo nacional.
Diferente das classes A e B, eles não podem ficar trocando de produto, então precisam que dure muito. As empresas acham que eles só procuram produtos baratos, e não é verdade".
Dentro dessa faixa etária nas classes C e D, 60% declaram possuir poupança, 45% têm cartão de crédito e 17% acessam crédito consignado; no entanto, 15% ainda estão completamente fora do sistema financeiro formal.
"O sistema financeiro, por exemplo, os invisibiliza. Eles compram online, adquirem eletrônicos, remédios e alimentos, e sustentam o nosso dia a dia, mas o mercado ainda foca quase exclusivamente nas classes A e B", sustenta.
A pesquisadora observa que há um descompasso entre a expectativa de vida, que cresce, o trabalho, que nunca acaba, e o acesso financeiro, muito limitado.
"Nós não podemos ficar romantizado o envelhecimento e a economia prateada. Temos de olhar para esses perfis e entender cada um e tirar o melhor proveito deles para a sociedade. A velhice periférica tem um papel muito importante na sociedade, que tem sido subutilizado", diz Queiroz.
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