Brasileiros 50+ da periferia trabalham por sobrevivência, mostra estudo
As pessoas com mais de 50 anos que vivem nas periferias brasileiras são, em sua maioria, mulheres negras que trabalham para sobreviver
Por Fabiana Holtz e Paula Bulka Durães
03/03/2026 | 11h23Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
São Paulo, 03/03/2026 - As pessoas com mais de 50 anos que vivem nas periferias brasileiras são, em sua maioria, mulheres negras que trabalham para sobreviver. Esse é o perfil traçado pelo estudo "Velhices Periféricas: o descompasso entre os tempos de viver, trabalhar, cuidar e sustentar", realizado pela data8, hub de inovação em economia prateada.
O envelhecimento que cresce nas bordas não pode ser ignorado: se os moradores de favelas e comunidades formassem um Estado, ele seria o 4º mais populoso do Brasil, com 16,4 milhões de pessoas.
De acordo com o levantamento, 59% dos brasileiros acima dos 50 anos que se enquadram na classe D são mulheres e 70% se declaram pretas ou pardas. Elas vivem em lares cheios, com média de quatro pessoas, e atuam como centro invisível das famílias, sustentando a casa e ajudando financeiramente filhos e netos, especialmente nas classes C e D.
Leia também: População negra enfrenta barreiras para envelhecer com dignidade no Brasil
Nas periferias, elas cuidam dos outros
Para a head de Inovação & Insights da data8, Adriana de Queiroz, os homens mais velhos são minoria nas periferias por hábito, já que as mulheres costumam buscar cuidado com mais frequência, e pelas intercorrências da desigualdade social. "Isso ocorre porque os homens estão mais expostos à violência das ruas e morrem antes de envelhecer", explica, em entrevista ao VIVA.
Esses brasileiros de baixa renda trabalham porque a aposentadoria sozinha não cobre as necessidades básicas — e a previdência privada é quase inexistente. Segundo a pesquisa, 52% dos aposentados da classe D continuam ativos no mercado e 41% vivem do trabalho autônomo.
Nas velhices periféricas, falamos de uma mulher trabalhando por sobrevivência, e não por propósito ou empreendedorismo".
Apenas 34% dos brasileiros que moram em periferias geográficas, econômicas e simbólicas têm como fonte principal de renda a aposentadoria.
A dinâmica de trabalho, sustento e sobrecarga leva essas mulheres a adoecer com mais frequência. Segundo o estudo, nas classes mais baixas impera a lógica do autocuidado como último recurso.
"Para elas, saúde é resistir e aguentar; a prevenção é um privilégio que não possuem. O cuidado só começa quando o corpo não aguenta mais e pede para parar", complementa a coordenadora.
Leia também: Geração sanduíche: o custo invisível do cuidado e a sobrecarga da mulher
A Unidade Básica de Saúde (UBS) é a principal porta de entrada para 61% desses brasileiros, já que 42,5% nunca tiveram acesso a planos de saúde.
Outra constatação do estudo é, nas palavras de Queiroz, um paradoxo. As mulheres com mais de 50 anos, mesmo vivendo em lares cheios, sentem-se muito sozinhas (47,6%). Na ausência de cuidado, as classes C e D se apoiam na fé, sobretudo na evangélica (31%), que funciona como alicerce e rede de apoio.
A casa está cheia de pessoas para as quais elas provêm sustento, mas não está cheia de cuidado para com elas. Por isso, elas se apegam muito à fé e a igreja acaba sendo estrutural, oferecendo o alicerce e a rede de apoio de que elas precisam."
Mercado não enxerga os 50+ periféricos
Os dados revelam que o consumidor das favelas brasileiras, que movimenta R$ 300 bilhões por ano, é pragmático. Conforme o levantamento, 80% das decisões de compra desse público são ditadas por preço e promoção. Outros 56% dizem ter o consumo influenciado por marcas conhecidas e confiáveis.
Outro ponto relevante é que os brasileiros acima de 50 anos da periferia pautam suas decisões de consumo em busca de pertencimento e respeito, enquanto os de classes mais altas miram o status.
Leia também: Envelhecimento é oportunidade de negócio no Brasil, diz economista do Ipea
Embora o público das classes C e D movimente R$ 180 bilhões por ano, apenas 28% dos representantes da classe D se sentem reconhecidos pelas marcas. E um dado que chama a atenção das empresas é que essa faixa etária concentra 42% do consumo nacional.
Diferente das classes A e B, eles não podem ficar trocando de produto, então precisam que dure muito. As empresas acham que eles só procuram produtos baratos, e não é verdade".
Dentro dessa faixa etária nas classes C e D, 60% declaram possuir poupança, 45% têm cartão de crédito e 17% acessam crédito consignado; no entanto, 15% ainda estão completamente fora do sistema financeiro formal.
"O sistema financeiro, por exemplo, os invisibiliza. Eles compram online, adquirem eletrônicos, remédios e alimentos, e sustentam o nosso dia a dia, mas o mercado ainda foca quase exclusivamente nas classes A e B", sustenta.
A pesquisadora observa que há um descompasso entre a expectativa de vida, que cresce, o trabalho, que nunca acaba, e o acesso financeiro, muito limitado.
"Nós não podemos ficar romantizado o envelhecimento e a economia prateada. Temos de olhar para esses perfis e entender cada um e tirar o melhor proveito deles para a sociedade. A velhice periférica tem um papel muito importante na sociedade, que tem sido subutilizado", diz Queiroz.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora

