Envelhecimento é oportunidade de negócio no Brasil, diz economista do Ipea
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São Paulo, 28/01/2026 - Em no máximo em 10 anos, o Brasil chegará ao superenvelhecimento da população, inclusive dos ativos no mercado de trabalho. Diante desse cenário, a economia brasileira terá de encarar o processo do envelhecimento como uma janela de oportunidade para a inovação. O alerta é da economista Ana Amélia Camarano, PhD em estudos populacionais, professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e autora de livros como "Muito além dos 60: os novos idosos brasileiros".
“É para amanhã”, diz ela sobre as mudanças necessárias para que o País consiga estender a vida produtiva do indivíduo e mude a estrutura previdenciária atual.
Há cada vez menos pessoas contribuindo e cada vez mais pessoas recebendo, e recebendo por um tempo maior, devido aumento da expectativa de vida nas idades avançadas”, diz, em entrevista exclusiva ao VIVA.
Dados do quarto trimestre de 2024 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que o contingente de idosos alcançou 35,2 milhões de pessoas, correspondendo a 16,2% da população total. A estimativa do IBGE é que as pessoas com idade acima de 60 anos representem 37,8% da população até 2070.
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Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:
VIVA: De que forma o Brasil poderia transformar o envelhecimento populacional em alavanca de desenvolvimento econômico? O projeto de Nova Indústria Brasil (NIB) não traz um recorte demográfico, por exemplo.
É exatamente este ponto. Estou fazendo um trabalho sobre isso com foco na economia prateada. E um dos eixos é a questão da tecnologia, da indústria. Por que o Japão, por exemplo, que tem visto sua população diminuir desde a década de 1990, tem investido muito. Isso porque eles não têm cuidadores, mas estão investindo em robôs sociais, porém isso ainda é uma coisa muito sofisticada para o Brasil.
Veja, você tem uma gama de tecnologias no plano da indústria que poderíamos introduzir. Poderíamos adaptar, por exemplo, dispositivos vestíveis. Mesmo para um idoso que mora sozinho, ele pode ter alguns instrumentos, equipamentos de proteção, como aquele tele-alarme que parece um relógio de pulso. Aqui no Brasil já existe, mas ainda é oferecido por empresas e não pelo governo. É privado.
Você pode ter no relógio, um colar, uma pulseira que notifica alguém da família. Existe hoje até uma bengala com dispositivo de GPS que mede sinais vitais, mas ainda não temos isso no Brasil.
Vemos algumas experiências na Inglaterra, na Itália, de companhia para idosos que joga cartas, conversa e até pets robôs (animal de estimação) que trazem uma enorme contribuição do lado psicológico.
No Brasil, a Universidade de Minas (UFMG) ganhou um prêmio com o protocolo de um robô para ajudar na reabilitação, que não é só para idosos, mas pessoas acidentadas para reabilitar a parte motora superior. É um prêmio internacional, mas não chegou na indústria, é apenas um protótipo.
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A tecnologia pode ser aliada da Política de Cuidados?
Estamos no momento em que o mercado de trabalho está seguindo na direção da automação, da redução de empregos, e o cuidado é uma ocupação que dificilmente vai poder ser automatizada. Mesmo com a introdução de robôs nessa área, existe um fator ainda insubstituível: a interação humana, o sentir, a percepção.
Então, para as pessoas com menor qualificação isso é um mercado de trabalho importantíssimo. um gerador de emprego. A própria Política de Cuidados Nacional tem um poder de geração de emprego muito grande.
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O cuidado no Brasil recai desproporcionalmente sobre as mulheres. Como estruturar uma ação de longo prazo que deixe de depender da solidariedade familiar?
O Estado brasileiro não tem nos dias de hoje como financiar cuidados prolongados, intensivos para todos os idosos que são dependentes. Esse número é estimado atualmente em cerca de 8 milhões de pessoas.
O Plano Nacional de Cuidados representa um alívio, sem dúvida. Infelizmente ainda não temos nada de alcance nacional. Atualmente, essa política pretende implantar em 100 municípios do Brasil até 2027. Hoje temos em dois municípios uma experiência piloto na região de Salvador, que é muito restrita. É uma realidade muito complexa.
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Vejo casos esporádicos e bem sucedidos, como em Belo Horizonte, mas com alcance ainda muito limitado. A iniciativa é da Secretaria de Assistência e Saúde na qual eles enviam um cuidador familiar profissional para ficar na casa de quem tem um idoso dependente. Antes é realizada uma avaliação e a partir dela se define quantas horas por semana esse cuidador irá permanecer na casa. A proposta é de 2 horas a no máximo 8 horas por semana.
Quando em 2012 eu estive lá visitando o programa, conheci uma senhora que era atendida pelo serviço. Ela tinha um marido com sobrepeso que era altamente dependente. A filha do casal ficava aos sábados de manhã com o pai para ela sair fazer as compras da casa. Ela também contava com a ajuda de uma pessoa para dar o banho no marido, porque ele era muito pesado. O cuidador profissional passou a frequentar a casa dela duas vezes por semana, por 4 horas. Ela me contou que estava super satisfeita porque agora estava conseguindo ir ao dentista. Vejo isso como um dos caminhos que precisamos investir.
Em São Paulo, há o programa Amigo do Idoso, que é da Prefeitura - da Secretaria de Saúde do município - que também promove visitas domiciliares e de um agente de saúde que ajuda com instruções de como cuidar.
A expectativa de vida do brasileiro hoje é de 76,6 anos. A senhora acredita que o sistema de aposentadoria aos 65 anos terá que mudar?
Eu acho que é importante estender o trabalho das pessoas até mais tarde. Porque nós vemos uma contradição: as pessoas entram mais tarde no mercado de trabalho — o que é algo bom, típico das sociedades modernas nas quais se estuda mais — mas ela sai mais cedo do mercado de trabalho, o que é uma certa contradição.
Então, agora, não adianta fazer uma “canetada”, por exemplo, como foi feita a Reforma da Previdência de 2019 e dizer: 'Não, você tem que distribuir 40 anos, tem que fazer isso. Nós temos que ver que a Previdência é o outro lado do mercado de trabalho. Você não pode dissociar a previdência do mercado de trabalho."
Então, não adianta você fazer isso se não tiver medidas para que o mercado de trabalho absorva essa população, porque ainda existe muito preconceito com a mão de obra mais velha.
Hoje, se você perder o emprego com 50 anos é difícil arrumar outro, principalmente se for mulher.
Como resolver esse impasse?
O que eu acho é o que se precisaria fazer é o novo contrato social. Esse contrato familista [trabalhadores mais novos sustentando a previdência] não vai mais dar conta. Aliás, já não está dando conta e não adianta fazer reforma, porque o que está sendo feito agora é um puxadinho. A reforma de 2019 foi a mais radical no sentido de redução de proteção social. Mas ela não resolveu a questão fiscal. Então você desprotegeu, quer dizer, ou melhor, aumentou a desproteção, mas não resolveu a questão fiscal. E não adianta outra reforma, o que se precisa é um novo contrato social.
Por exemplo, como vários países do mundo já estão fazendo, em que se oferece uma pensão básica para todo mundo, que é não contributiva. Isso é algo que o Chile faz e a Inglaterra também tem uma pensão básica; então a gente teria uma pensão, que é um benefício básico para todo mundo, não contributivo e que depois você tem pilares, com aumentos desse benefício com a contribuição e mais um plus, mas não é uma reposição tão alta quanto a atual, mas tendo um plus no qual você ainda contribui com o INSS. Além disso, também teria o terceiro pilar, que seria a contribuição à previdência privada.
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