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Interesse por franquias cresce entre público 50+ que quer empreender

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Quantidade de pessoas mais velhas entre os interessados em abrir franquia vem crescendo no Brasil - Adobe Stock
Quantidade de pessoas mais velhas entre os interessados em abrir franquia vem crescendo no Brasil

Por Bianca Bibiano

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Publicado em 03/04/2025, às 11h09

Empresários mais velhos vêm crescendo em participação entre os donos de franquia. De acordo com dados de 2024 do Monitor Global de Empreendedorismo (GEM), considerada a maior pesquisa desse tema do mundo, a faixa etária que abrange dos 55 aos 64 anos registrou sua maior proporção de empreendedores iniciais da série histórica, com 13,3% do total. Dentro do leque de possibilidades, tem-se destacado cada vez mais entre essa faixa etária o segmento de franchising.

Embora não haja um recorte etário, a Associação Brasileira de Franchising (ABF) diz que o crescimento do segmento tem também atraído o público mais maduro. Em 2024, o faturamento das franquias aumentou 13,5% em relação ao ano anterior, com alta de 17,8% em novas operações.

"O desejo do brasileiro por empreender nunca foi tão grande. O Brasil somou mais de 90 milhões de empreendedores e potenciais empreendedores em 2023. Essa vontade chega também a idades mais avançadas, seja para realizar um sonho, seja como opção de investimento ou renda. Temos notado mais candidatos com este perfil buscando franquias”, destaca Rodrigo Abreu, diretor de marketing e comunicação da ABF. 

Segundo o presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), Décio Lima, empreender se tornou uma opção viável para profissionais com mais anos de experiência graças à melhoria do ambiente de negócios e aos indicadores gerais da economia. “O empreendedorismo se tornou uma alternativa para essas pessoas. A atividade fortalece a sua renda e produz resultados extremamente importantes para a economia brasileira. Essa faixa etária traz uma segurança de qualidade para o mercado, já que são pessoas com mais experiência”, disse. 

Os principais desafios de quem investe em franquias após os 50 anos


A possibilidade de crescer no segmento de franchising foi o principal motivador para o casal Elisabete Lourenço da Silva, 51, e Luiz Henrique Ribeiro Barbosa, 65, empreender após a aposentadoria dele. “Vínhamos de uma experiência anterior com um salão de beleza e uma loja de lingeries, mas nada se compara a iniciar uma própria franquia”, conta Luiz. Em 2024, o casal abriu uma loja Peça Rara Brechó em Jaú, no interior de São Paulo. Segundo o empresário, foi uma mudança que contribuiu também para o benefício familiar, pois possibilitou ao casal morar mais perto do primeiro neto. 

casal em inauguração de franquia
O casal Luiz Henrique Barbosa, 65, e Elisabete Lourenço da Silva, 51, na abertura da loja Peça Rara - Arquivo pessoal

O interesse pela rede veio em 2023, quando foram visitar uma loja da marca na capital paulista. Ainda como clientes, notaram que a identidade visual da unidade se assemelhava a outra que já haviam visitado e conversaram com a proprietária, que fez a conexão com a franqueadora. Após reuniões, análise de viabilidade e documentações, a opção escolhida para eles foi um formato pocket, com pouco mais de 100m² e setor feminino.

“O que mais nos motiva é o apoio que recebemos da marca e de outros franqueados, mesmo com o desafio de começar um negócio novo em uma cidade diferente”, destaca a empresária. 


Os desafios de ter uma franquia não são exatamente novidade para Nilton Vidigal, de 78 anos. Aposentado, ele trabalhou por anos em uma confecção, atividade em que encerrou sua trajetória profissional dentro do ambiente corporativo. Para complementar a renda e não ficar ocioso, decidiu investir em franquias, abrindo seu primeiro negócio próprio no setor de sorvetes, no mesmo ano da sua aposentadoria.

Após ingressar neste mercado, o empresário não saiu mais do franchising. Já em 2013, se tornou franqueado do Divino Fogão, rede especializada em culinária de fazenda. Com o seu filho, Vidigal administra 80% do negócio localizado no Shopping Atrium, em Santo André, no ABC Paulista. Os dois também são sócios de outro restaurante da marca na zona norte da capital. 

Para Vidigal, se manter em atividade é essencial para o corpo e a mente, mesmo após a aposentadoria. “Estou no dia a dia do negócio, sempre atento às demandas que a operação necessita. Com isso, me mantenho ativo e em constante aprendizado”.

Ele conta ainda que a possibilidade de atuar em shopping center no setor de alimentação foi o grande atrativo. “Com experiência e modelo de negócio testado, o risco de prejuízo é menor, além de todo o suporte para a gestão da operação, como análise de custos, produção de cardápio e orientações que facilitam no dia a dia”, explica.

Nilton Divino Fogão
Nilton Divino Fogão,78,  - Arquivo pessoal

Para profissionais que também se interessam por essa opção de negócio, ele recomenda buscar informações sobre a franquia, conversar com outros franqueados e entender sobre o segmento de atuação da marca.

“Indico investir em marcas consolidadas e reconhecidas no mercado, para mitigar riscos. Além disso, é importante se capacitar para este novo passo”, completa.

Também no setor de alimentação, o empresário Dinart de Medeiros iniciou sua jornada no segmento de franchising com 60 anos. “Eu já tinha um restaurante e aproveitei a oportunidade de um ponto comercial em Copacabana para abrir uma franquia, mas em um novo nicho". A opção foi pela House Forneria, rede de pizzarias gourmet com cinco unidades na cidade. 

Seu desafio foi entender as diferenças entre os negócios e fazer a loja crescer em uma região competitiva. “No ramo da pizza, especialmente, o desafio é convencer os clientes a darem a primeira chance a um local novo”. Segundo dados de 2024 da Associação Pizzarias Unidas do Brasil (Apubra), o Rio de Janeiro é a segunda capital com maior número de estabelecimentos do tipo - atrás de São Paulo.


Mulheres se destacam em setor de franquias

O empreendedorismo feminino também tem se destacado entre o público 50+, com muitas mulheres encontrando nas franquias uma oportunidade de reinvenção profissional e independência financeira.

O estudo "Empreendedorismo Feminino no Brasil", divulgado pelo Sebrae em 2023, apontou que 34% das mulheres empreendedoras no Brasil têm mais de 45 anos. Além disso, o levantamento GEM indicou que o número de mulheres que iniciam negócios após os 50 anos cresceu 40% na última década.

Ainda de acordo com um estudo divulgado em agosto de 2024 pela ABF, as mulheres já são maioria nas redes franqueadoras, cuja participação passou de 46% para 57%, uma alta de 11 pontos porcentuais na amostra, entre 2015 e 2024. O levantamento também indica alta da presença feminina nos cargos de liderança das empresas franqueadoras, de 19% para 29% no período analisado.

Para a fisioterapeuta Cássia de Castro, 58 anos, a abertura de uma franquia significou também uma mudança de vida, quando tinha 55. Com uma carreira sólida como fisioterapeuta hospitalar, casada e  duas filhas, ela só cogitou empreender após uma imersão para profissionais de sua área, em 2022, na qual conheceu André Pêgas, também fisioterapeuta e um dos criadores da rede Doutor Hérnia.

A decisão foi rápida, em um mês ela se tornou franqueada da rede, em Araucária, município da região metropolitana de Curitiba (PR). Foi realmente muito rápido, mas eu não tive qualquer dúvida de que aquele negócio me traria um novo fôlego, aos 55 anos de idade”, comenta. 

Em 2023, Cássia abriu a segunda unidade franqueada, em Curitiba. E, no ano passado, mais duas: Paranaguá, também no Paraná, e Taubaté, no interior de São Paulo.

Ela diz que a franquia foi um divisor de águas em sua carreira, tendo de migrar de uma profissional de perfil técnico para o papel de gestora. "Com a franquia, precisei de experiência comercial e de gestão. O planejamento e controle financeiro com fluxo de caixa foram desafiadores", afirma a fisioterapeuta.

Hoje, a gestão de pessoas é o maior desafio, encontrar e reter profissionais qualificados.”

Para isso, Cássia de Castro investe em formação e ampliação de redes de contato, como eventos e mentoria do Sebrae, cursa inglês, participa de grupos empresariais para troca de conhecimento e networking e já planeja fazer um curso de liderança. 


Carla Cristina de Araujo Silva, 50, atuou por 34 anos como funcionária no setor bancário, e também enxergou a franquia como uma possibilidade de mudança profissional. Com dois sócios também 50+, ela abriu há quatro anos uma loja da rede de culinária japonesa Sunomono na zona sul de São Paulo. 

Nesse sentido, ela afirma que precisou se adaptar para gerir equipes maiores e alinhar os objetivos profissionais de cada um com a qualidade do ambiente de trabalho e boa remuneração. “Ao mesmo tempo, é preciso garantir um bom faturamento linear e rentabilidade líquida, para que o negócio seja saudável e possa se manter no mercado por muito tempo, gerando empregos”, destaca. Dentre os desafios de administrar uma franquia atualmente, ela cita a escassez de profissionais qualificados na culinária japonesa, os sushiman, preços altos de insumos e uma economia não sólida. “É preciso nivelar os preços dos insumos com o preço do seu cardápio, de forma que seja justo para o consumidor e o empreendedor”, conclui. 

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