Cris Sabbag
Colunista VIVA
01/10/2026 | 10h37
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Arquiteta de talentos, co-fundadora da Talento Sênior, mestre em Gestão para Competitividade pela FGV com pós-MBA em Marketing e Liderança pela FDC/Kellogg
Os 37 milhões de eleitores 60+ estão em busca de uma agenda
O eleitorado 60+ já rivaliza com os jovens adultos nas urnas, mas o debate eleitoral ainda o trata como custo a administrar e não como força econômica
Tomaz Silva/Agência Brasil
O Brasil se prepara para uma eleição com um eleitorado crescente de pessoas com 60 anos ou mais, que agora representam 23,60% do total, refletindo uma mudança significativa na demografia eleitoral e a necessidade de uma agenda que reconheça sua contribuição ativa na economia.
Apesar do aumento no número de trabalhadores mais velhos, a informalidade atinge 53% desse grupo, e sua renda média real caiu 4%, evidenciando que muitos enfrentam condições de trabalho precárias e uma falta de proteção social adequada.
Quatro reivindicações principais emergem para atender a esse eleitorado: a necessidade de dados sobre emprego por faixa etária, uma previdência mais transparente, a adesão dos estados ao Plano Nacional de Cuidados e a segurança digital, destacando a importância de políticas que reconheçam a autonomia e o papel ativo dos idosos na sociedade.
São Paulo - No domingo, o Brasil vota com um eleitorado inédito. Segundo o TSE, as pessoas com 60 anos ou mais somam 37,5 milhões em 2026, contra 32,9 milhões em 2022, e sua participação no eleitorado subiu de 21,02% para 23,60%. No mesmo período, a fatia dos eleitores de 21 a 34 anos recuou de 28,01% para 25,85%. Em quatro anos, a distância entre os dois grupos quase desapareceu.
O peso eleitoral é evidente. O que falta é agenda. As campanhas enxergam esse eleitor como beneficiário de promessas ou como passivo previdenciário. As duas lentes partem do mesmo erro: tratam a longevidade como dependência, e não como fase ativa da vida econômica.
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Os dados desmentem essa leitura. Estudo da Nexus sobre a PNAD Contínua mostra que os ocupados com 60 anos ou mais cresceram 53% entre 2016 e 2025, bem acima do avanço de 37% dessa população.
A qualidade dessa inserção, porém, é frágil. A informalidade atinge 53% desses trabalhadores, contra 38% na média nacional, e a renda média real do grupo caiu 4% no período, enquanto a da população geral cresceu 13%. Não é uma geração acomodada. É um contingente que trabalha mais, com menos proteção, e ganha relativamente menos.
Voto 'idoso' existe?
Tampouco existe um voto "idoso" homogêneo. Classe, gênero e trajetória contributiva explicam mais do que a idade. Justamente por isso, a pauta precisa ser formulada em termos de instituições, e não de benesses. Quatro reivindicações se destacam.
- Trabalho mensurável
O etarismo é amplamente relatado e pouco medido. O primeiro passo é ter dados públicos de contratação, desligamento e remuneração por faixa etária. O segundo é criar regimes de formalização desenhados para quem empreende depois dos 60. A trabalhabilidade aos 65 se decide, em boa parte, aos 45.
- Previdência transparente e íntegra
Em 2026, os benefícios no valor do piso subiram 6,79%, e os demais, 3,9%. A regra protege a base, mas, repetida ano após ano, achata os benefícios em direção ao mínimo. Esse efeito distributivo merece debate explícito. Além disso, os descontos indevidos revelados pela Operação Sem Desconto ocorreram de março de 2020 a março de 2025, período que atravessa mais de uma gestão.
Uma fraude de cinco anos é falha de desenho institucional. Exige governança preventiva, não apenas ressarcimento."
- Cuidado, uma decisão estadual
O Plano Nacional de Cuidados já existe e tem as pessoas idosas entre seus públicos prioritários. Mas a adesão de Estados e municípios é voluntária. Os governadores eleitos agora decidirão se aderem ao plano e com que orçamento. É a eles que a pergunta deve ser feita.
Segurança digital com responsabilidade
Em São Paulo, segundo a Fundação Seade, golpes envolvendo a abertura de contas ou a contratação de empréstimos em nome da vítima atingem 12% dos 60+, a maior proporção entre as faixas etárias. Se o golpe mais comum é um crédito aprovado indevidamente, a pergunta central é por que a instituição o aprovou. Letramento digital ajuda, mas o ônus não pode recair só sobre o indivíduo.
Objeções legítimas
Uma pauta sênior reduzida a mais gasto previdenciário compete com educação e primeira infância. A resposta está no desenho: mercado de trabalho sem etarismo beneficia quem tem 45 anos hoje, política de cuidado alivia as mulheres que cuidam, e segurança digital protege todas as idades. Bem formulada, a agenda 60+ não disputa o futuro com os jovens. Prepara o futuro que eles vão habitar.
Os candidatos vão cortejar esses 37 milhões de eleitores. A questão é se esse eleitorado aceitará ser público de promessas ou exigirá ser reconhecido como parte ativa da economia que sustenta o país.
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