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Eleições 2026
Cidadania e Direitos / Política

Especial Aposentados: eleitorado 50+ tem poder de decisão, mas segue à margem

Divulgação/VIVA

O eleitorado com 50 anos ou mais torna-se cada vez mais decisivo em eleições polarizadas - Divulgação/VIVA
O eleitorado com 50 anos ou mais torna-se cada vez mais decisivo em eleições polarizadas

VIVA lança documentário sobre como vivem os aposentados no Brasil

Por Paula Bulka Durães

15/09/2026 | 08h08 ● Atualizado | 08h09

São Paulo - Com 62,8 milhões de eleitores com 50 anos ou mais — quase 40% de todo o eleitorado do País —, a população mais longeva consolida-se como a força política e econômica decisiva das eleições gerais de 2026.

O peso demográfico desse grupo é ainda mais marcante nas faixas etárias superiores: 37,45 milhões (23,60%) têm 60 anos ou mais, e 17,25 milhões (10,87%) já ultrapassaram os 70 anos — patamar em que o exercício do voto passa a ser facultativo pela Constituição brasileira.

E pela primeira vez o eleitor idoso torna-se alvo notório dos discursos dos principais presidenciáveis na corrida eleitoral, observa o doutor em demografia e pesquisador aposentado do IBGE, José Eustáquio Diniz Alves.

Como os eleitores de 70 anos e mais representam mais de 10% do eleitorado, eles podem decidir a eleição."
Demógrafo José Eustáquio de óculos e camisa branca sentado em sofá de sala com plantas.
O demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, pesquisador aposentado do IBGE, fala sobre o bônus da longevidade na websérie "Aposentados" - Ana Mello/VIVA

Este será mais um período de eleições polarizadas, em que a esquerda e a direita disputam, par a par a autoridade máxima do País. Nas últimas duas eleições presidenciais, a margem foi muito pequena, de 1% a 2% de diferença, entre o primeiro e o segundo colocado, lembra o especialista.

Como aponta o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, as eleições de 2026 representam um momento decisivo para debater não apenas o ajuste fiscal da Previdência, mas o fortalecimento de políticas transversais de saúde, mobilidade e inclusão digital que garantam a dignidade desse grupo.

Para efeito de comparação, nas últimas eleições para o Executivo, em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno com 59.563.912 votos, uma diferença inferior a 2 milhões de votos sobre o seu principal opositor, Jair Bolsonaro (PL).

Dá para viver de aposentadoria?

Independente da bandeira política, fato é que o envelhecimento da população brasileira cobra seu preço. Um território continental como o Brasil, com múltiplas velhices e envelheceres, em ritmo rápido de transição demográfica — com a virada projetada para ocorrer por volta de 2029 —, está exposto a profundas assimetrias de renda, moradia, saúde, segurança pública e alimentação.

Em plena década do envelhecimento saudável, iniciativa global liderada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para melhorar a qualidade de vida das pessoas idosas, famílias e comunidades, no Brasil os 60+ não podem simplesmente gozar da aposentadoria.

Em diversas regiões do Brasil, a renda da aposentadoria — por mais reduzida que seja — frequentemente se torna a única fonte de sustentação de famílias inteiras com filhos ou netos desempregados, como explica o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski. "A presença cada vez maior dos 60+ à frente dos orçamentos domésticos está diretamente ligada à necessidade de permanecer no mercado de trabalho, muitas vezes por meio da informalidade."

Apesar de eles ainda apresentarem maior renda mensal do País, de R$ 3.865,00, esse rendimento está em queda, diz Tokarski com base em dados do IBGE. Nos últimos nove anos, enquanto a renda média da população geral cresceu 13%, a das pessoas acima de 60 anos caiu 4%. "Assim, essa perda de renda segura ainda mais a geração prateada no mercado de trabalho, mesmo que informal", diz.

Entretanto, a maioria das pessoas aposentadas brasileiras sobrevive com rendimentos de até dois salários mínimos, reflexo de um histórico de informalidade e baixa escolaridade, aponta José Eustáquio Diniz Alves.

A comparação entre as diferentes realidades regionais e de rendimentos escancara o abismo de proteção social. Na Região Norte, em Belém (PA), a pensão assegura ao Coronel Varela, de 54 anos, reservista da Polícia Militar, um valor mensal equivalente a 18 salários mínimos.

A capacidade financeira do reservista contrasta com os limites da segurança urbana: o receio da violência faz com que sua rotina familiar permaneça confinada aos muros de um condomínio fechado.

Em contraste direto, na Região Sudeste, na capital paulista, aposentados que vivem com a renda básica enfrentam o elevado custo de vida da maior metrópole do País.

É o caso de Anna Neves, de 91 anos, que trabalhou 23 anos na antiga Telesp e vive num cômodo de fundos de favor, em casa de parentes; e de Regina Sposito, de 67 anos, aposentada por incapacidade permanente em razão da osteogênese imperfeita, a doença dos ossos de vidro.

Com o benefício curto, insuficiente para custear os medicamentos necessários, Regina hoje depende da solidariedade de amigos para conseguir manter o tratamento e os cuidados essenciais.

Para Rafael Cortez, a falta de uma rede integrada de serviços públicos agrava a vulnerabilidade social na fase madura.

O aposentado recebe menos do que recebia quando estava no mercado de trabalho, mas eventualmente ele precisa comprar remédio. Se compra remédio, vai faltar algumas vezes para o aluguel, pode faltar para o bem-estar, para o passeio."

Para evitar o colapso dos sistemas públicos e transformar o envelhecimento populacional em um ativo socioeconômico, o demógrafo José Eustáqui defende encarar a longevidade sob a perspectiva do bônus demográfico — período em que a população em idade ativa é proporcionalmente maior do que a população dependente. 

Existe uma potencialidade muito grande no que chamamos de bônus da longevidade. Essa longevidade pode vir no sentido de fortalecer a economia e não de enfraquecer."

Isso exige, segundo o especialista, investimentos contínuos em educação ao longo de toda a vida para elevar a produtividade geral, além da criação de oportunidades formais, informais e voluntárias para que a população mais velha continue contribuindo ativamente para a sociedade.

O documentário "Aposentados"

O VIVA registra as contradições entre a força eleitoral e as dificuldades diárias vividas por aposentados no País na série documental "Aposentados", disponível no YouTube.

São cinco episódios com dez depoimentos de beneficiários do INSS no Pará, Paraná, São Paulo, Bahia e Goiás, mostrando dentro da casa dessas pessoas a realidade de buscar envelhecer com dignidade no Brasil.   

Ao registrar as contradições entre a força eleitoral e as dificuldades diárias, a websérie demonstra que garantir moradia, saúde e segurança para a população com 50 anos ou mais deixa de ser um tema setorial para se tornar o teste definitivo da maturidade democrática brasileira.

Assista a websérie Aposentados no YouTube do VIVA. O primeiro episódio vai ar nesta terça-feira, às 19h.

Ficha Técnica

  • Direção: Ana Mello
  • Produção executiva: Silvia Araújo e Thiago Sabino
  • Produção jornalística: Luana Pavani
  • Apuração e entrevistas: Alexandre Barreto, Bárbara Ferreira, Marcel Naves e Paula Bulka Durães
  • Edição: Marcel Jabbour
  • Roteiro: Ana Mello e Letícia Toledo
  • Arte: Glauco Lara
  • Motion: Rodrigo Rosa
  • Marketing e negócios: Danilo Ruiz e Ana Luiza Cardim
  • Imagens: Ana Mello, Bruno Sitorski (South Square), Jean Paul Ferraz e Nínive Leão (Luminare Audiovisual), Prefeitura de Trindade, Wellingson Abelha (Avessa Hub) e Yuri Cruvinel (Estúdio Raiar)

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