Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Presença dos avós na educação dos netos passa por momento de transformação

Divulgação/Escola PlayPen

Avó exclusivamente disponível para os netos já não se vê mais, diz Coimbra Amaral - Divulgação/Escola PlayPen
Avó exclusivamente disponível para os netos já não se vê mais, diz Coimbra Amaral
Por Bianca Bibiano

25/02/2026 | 15h55

São Paulo, 25/02/2025 - As mudanças nas relações sociais nos últimos 50 anos têm causado também uma transformação no papel das avós e dos avôs. A opinião e do psicólogo e escritor Alexandre Coimbra Amaral, mestre em Psicologia pela PUC do Chile e autor de seis livros.

Ele argumenta que, longe da imagem da avó exclusivamente disponível, os avós de hoje conciliam trabalho, vida social e projetos pessoais com uma presença educativa que segue ativa, mas cada vez mais negociada dentro das famílias.

"O perfil de avó Dona Benta não existe mais. Inclusive, quando a Zilka Salaberry fez aquela personagem, a avó era vista como uma senhora sentada numa cadeira de balanço com cabelo branco, um coque, fazendo tricô e contando histórias pros netos. Esse perfil se transformou junto com a sociedade", afirma.

reprodução de vídeo da Globoplay com imagem da atriz Zilka Sallaberry como Dona Benta
Quando iniciou na televisão como Dona Benta, a atriz Zilka Salaberry tinha 60 anos - Reprodução/Globoplay

Essa mudança, contudo, não representa um afastamento da educação das crianças, mas uma reorganização das expectativas. "O destino de uma avó não é só cuidar dos netos", observa, ao explicar que novas configurações familiares e profissionais exigem ajustes constantes entre gerações.

Leia também: Volta às aulas: dicas práticas para apoiar os netos na escola

Educação compartilhada

As transformações no mercado de trabalho ajudam a explicar esse cenário de mudanças. "A gente tem várias gerações de mulheres precisando trabalhar. Muitas delas são arrimo de família de mais de uma geração", observa Coimbra. A isso soma-se o fenômeno das famílias de três gerações morando na mesma casa. Isso inclui a geração dos avós, do filho ou filha que voltou depois de uma separação conjugal ou que permaneceu na casa, e dos netos", explica.

Para ele, isso reforça a participação dos avós na educação, mas também cria tensões quando expectativas antigas entram em choque com a realidade atual.

Essas avós estão tensionando o espaço familiar com uma indisponibilidade relativa para o cuidado dos netos."

Filhos e filhas, criados com outra referência de avó, muitas vezes precisam rever o que esperam dessa presença, especialmente quando o cuidado deixa de ser automático e passa a ser combinado, analisa.

Leia também: Convivência com os netos faz bem para o cérebro, diz estudo

A gente está falando de uma nova construção dessa imagem da avó, que pede também uma reconfiguração dos filhos, que foram acostumados a outra imagem. Eles olham para suas mães e as veem como figuras produtivas e  transantes. Outro dia um adolescente me pediu terapia porque ele estava com uma questão e eu fui escutá-lo e ele falou: 'Eu achei a minha avó no Tinder'".

Presentes, dentre do possível

A busca desse equilíbrio aparece no relato de Flora Zyman, 60 anos, avó de uma criança de quatro anos. Ativa profissionalmente, ela conta que participa da educação da neta na medida do possível. "Minha rotina não permite muito, adoraria ter mais tempo para acompanhar mais, participo da volta de um esporte, um trajeto, componho a rede de apoio, mas sou uma avó fora do perfil", destaca.

[Colocar ALT]
Ativa profissionalmente, Flora Zyman, conta que participa da educação da neta 'na medida do possível' - Divulgação/Escola PlayPen

Para ela, "avô parceiro não é avô que estraga", é aquele que contribui para construir valores que a família considera importante. "Isso é parceria", resume.

Dentro da rotina, Zyman encaixou tambem a participação em uma atividade de leitura na escola da neta, onde vê um espaço rico de aproximação com esse espaço. "São momentos prazerosos que a escola proporciona nesses contatos. A gente faz essa troca, tem o prazer de estar junto, de aproximar das crianças. Ela me mostra quem são os amigos, as preferências, escolhemos o livro juntas também. A escola ocupa esse lugar fora de casa, das experiências, das relações e dos aprendizados."

Leia também: Como surgiu o Dia dos Avós e por que é comemorado em 26 de julho?

A diretora Carolina Amiach, da Escola PlayPen Cidade Jardim, onde estuda a neta de Flora, conta que a ação de convidar os avós faz parte de um projeto mais amplo da escola chamado PlayParents Academy, que busca estreitar os laços familiares com a instituição de ensino e debater a parentalidade nos dias atuais. 

Como educadora, ela observa que a participação dos avós na educação dos netos passa por questões geracionais e arranjos familiares distintos:

"Se as famílias, incluindo também os avós, têm acesso a informação para os cuidados, elas podem problematizar melhor certas questões, refletir e trocar ideias. Mas muitas vezes eles acham que estão sozinhos na situação e é exatamente para possibilitar essa troca que criamos a Academy."

Ele acrescenta que o objetivo é refletir sobre a parentalidade, sobre as diferentes fases de ser pai e ser mãe e envolver a família como um todo.

Avós como mediadores na educação

Para Alexandre Coimbra, relatos como o de Flora ajudam a compreender que os avós seguem profundamente implicados no processo educativo. "Elas trazem um desejo não só de cuidar, mas de participar da relação da criança e do adolescente com a família", afirma.

Segundo ele, muitas avós escutam atentamente o que escolas e profissionais sinalizam e ajudam a levar essas questões para dentro de casa e, nesse movimento, passam a atuar como mediadoras.

"A escola é um lugar não só de aprender matéria, mas também de aprender a se relacionar. As avós podem ser uma ponte nessa comunicação entre as dificuldades que a escola tem em relação à criança e ao adolescente e como isso reverbera dentro das famílias."

Leia também: Avós de primeira viagem: como ser avô ou avó no século 21

Para ele, essa atuação é especialmente relevante quando a educação envolve temas como limites, convivência e diálogo, não apenas desempenho acadêmico, além de um espaço central de vínculo entre gerações. Coimbra ressalta que, quando se desconhece o que está acontecendo nesse mundo, perde-se um pedaço da vida dos filhos. Nesse cenário, os avós seguem como aliados importantes, não por disponibilidade irrestrita, mas pela qualidade da presença e da escuta.

Histórias das famílias na escola

A valorização da educação como um processo que atravessa gerações também aparece na experiência da Escola Villare, em São Caetano do Sul (SP), que desenvolve projetos permanentes que incluem entrevistas com avós, pesquisas sobre histórias familiares e reflexões sobre mudanças e permanências ao longo do tempo.

Um dos focos da proposta é mostrar que o aprendizado não está dissociado da trajetória pessoal das crianças, explica a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental I e vice-diretora Talita Rafaela Calvo Garcia.

avó e neta em frente a dois laptops durante apresentação de trabalho na Escola Villare, em São Caetano do Sul (SP)
A Escola Villare, em São Caetano do Sul (SP), desenvolve projetos permanentes que incluem a participação dos avós - Divulgação/Escola Villare

"Os avós são aqueles que guardam histórias que não estão nos livros. Eles explicam como as famílias se formaram, que deslocamentos aconteceram, que tradições foram preservadas e que mudanças marcaram cada geração", afirma. "Quando uma criança entrevista a avó ou o avô, ela percebe que a história dela é parte de algo muito maior."

Leia também: Avós conectados: como usar a Alexa para entreter e ensinar os netos

A inspiração inicial do projeto vem do livro A árvore da família, de Maísa Zakzuk, utilizado como disparador para que as crianças compreendam que a história é construída na relação com o outro e no coletivo. Em seguida, obras como Histórias de avô e avó, de Artur Nestrovski, ampliam o olhar para a oralidade e para a força das memórias dos mais velhos. 

A partir daí desdobram-se diversas atividades que incluem desde um livro digital com a árvore genealógica, história da família e uma receita de tradição até um museu de brinquedos e brincadeiras, construído com objetos antigos doados, que aproximam avós da experiência educativa dos netos.

Leia também: 5 benefícios da convivência constante com os netos, segundo cientistas

"Um brinquedo antigo ou um objeto afetivo se transforma em fonte histórica e desperta emoção, memória e curiosidade", diz a educadora. Para a escola, o vínculo afetivo potencializa a aprendizagem e fortalece o sentimento de pertencimento.

Para além dessa aproximação, a educadora enxerga um importante ponto para o projeto pedagógico da escola. "As crianças pesquisam suas origens e veem que os avós fazem parte de uma história maior, e se conectam com suas origens nesse aprendizado. Isso tira a noção de senso comum, elas veem que o que é pautado na escola tem dados reais, que são pequenas histórias que formam as grandes".

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Gostou? Compartilhe

Últimas Notícias