Antigo golpe do bilhete premiado segue vivo em 2026: veja como não cair
Reprodução/Imagem Ilustrativa
São Paulo - Ganhar milhões na loteria é indiscutivelmente o sonho de qualquer brasileiro. É justamente por causa dessa ilusão que criminosos continuam aplicando, em pleno 2026, um dos golpes mais antigos do País: o do bilhete premiado.
A fraude é uma evolução direta daqueles praticados desde os primeiros anos do século 20. Ao longo do tempo, o crime foi se adaptando às mudanças econômicas e sociais do País, mas mantendo a mesma essência.
Leia também: Quadrilha usava golpe do bilhete premiado para sequestrar idosos
Abordagem teatral
Os criminosos costumam circular de carro por bairros residenciais ou arredores de agências bancárias, buscando pessoas mais velhas que estejam caminhando sozinhas. O primeiro golpista se aproxima da vítima fingindo ser uma pessoa simples, do interior ou analfabeta. Ele exibe um suposto bilhete premiado e diz que não sabe como retirá-lo, ou que sua religião o impede de receber o dinheiro.
A partir deste momento, entra em cena o segundo golpista sempre bem-vestido, articulado, simulando ser um empresário ou bancário. Ele para, "ouve" a conversa, finge ligar para a Caixa a fim de "confirmar" que o bilhete realmente vale milhões.
O falso sortudo diz que precisa voltar urgentemente para sua cidade natal e oferece o bilhete milionário para a vítima e seu comparsa. Em troca, pede apenas uma parte do dinheiro, um valor muito menor do que o prêmio, mas alto o suficiente para limpar a conta bancária da vítima.
Leia também: Cuidado! Anúncio para diminuir a prestação do carro pode ser golpe
Instigada pelo segundo golpista (que finge que vai ao banco buscar sua parte), a vítima é levada até sua agência ou induzida a usar o celular para transferir o dinheiro. Assim que os criminosos pegam o montante, dão um jeito de despistar a vítima e desaparecem.
Crime se atualizou
- Décadas de 1920 e 1930: Os registros policiais da época mostram que o golpe já era aplicado com bilhetes da chamada "Loteria Nacional". Os golpistas miravam imigrantes recém-chegados às grandes metrópoles, como São Paulo e Rio de Janeiro, que ainda não conheciam o funcionamento das instituições locais.
- 1962 (Criação da Loteria Federal): Com a modernização das loterias pela Caixa Econômica Federal, os criminosos passaram a carregar bilhetes da extração da Loteria Federal, usando jornais impressos falsificados para "provar" o resultado do sorteio.
- A era do Pix (anos 2020): Embora a abordagem ainda ocorra olho no olho na rua, a transferência dos valores agora é feita em minutos via Pix ou transferências de aplicativos bancários.
O que leva as pessoas a caírem no golpe?
O laboratório de neurociência da Universidade de Stanford (Stanford Center on Longevity), liderado pela Dra. Laura Carstensen e o Dr. Brian Knutson, estuda especificamente o cérebro de vítimas de golpes financeiros.
Pesquisas feitas recentemente pela instituição mostraram que ao sermos expostos a uma promessa de ganho imediato há uma hiperativação do núcleo accumbens (área do prazer e ganho) e uma diminuição da atividade no córtex pré-frontal (área responsável pelo autocontrole, análise de risco e pensamento crítico).
Segundo a pesquisa, a emoção do ganho "sequestra" a lógica do cérebro, fazendo com que os sinais óbvios de fraude pareçam irrelevantes para a mente naquele momento.
Como não se tornar uma vítima
As dicas oficiais e práticas recomendadas pela SSP para não cair na armadilha do bilhete premiado são as seguintes:
Leia também: Brasileiro diz saber reconhecer fraude, mas 70% foram vítimas de golpes
- "Dinheiro fácil não existe": Se a proposta parecer vantajosa demais ou milagrosa, é golpe. Controle a ambição momentânea e seja prudente.
- Rompa o isolamento: A SSP orienta sempre a ligar para algum parente ou amigo próximo para relatar o que está acontecendo.
- Jamais aceite carona ou mude seu trajeto: Os golpistas costumam usar veículos para deslocar a vítima rapidamente até o banco. A instrução oficial é nunca entrar em carros de estranhos, não importa quão bem-vestida ou inofensiva a pessoa pareça.
- Nunca faça pagamentos: Se alguém pedir dinheiro para "garantir" a sua parte no prêmio, saia de perto imediatamente.
- Atenção redobrada: As quadrilhas costumam monitorar os arredores de agências bancárias em busca de alvos (especialmente idosos).
- Oriente os idosos da família: Idosos são as vítimas preferenciais por estarem mais propensos a dar atenção a desconhecidos na rua. Por isso é sempre bom conversar a respeito com seus familiares mais velhos.
O que fazer se for vítima do crime
Caso o golpe se concretize, a agilidade nas primeiras horas é crucial para a investigação policial e para a tentativa de reaver os valores. A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo-SSP faz as seguintes recomendações:
- Registre o Boletim de Ocorrência (B.O.) imediatamente: O registro deve ser feito o mais rápido possível. Pode ser realizado presencialmente na delegacia mais próxima ou por meio da Delegacia Online da Secretaria de Segurança do seu Estado.
- Preserve todas as evidências financeiras: O cidadão deve juntar e anexar ao B.O. todos os comprovantes de transferências bancárias, extratos de saques, além de anotar os nomes dos titulares, chaves Pix, CPFs ou e-mails que aparecem como beneficiários do dinheiro enviado.
- Acione o banco imediatamente: Além do boletim, a recomendação é notificar o seu banco o mais rápido possível para que a instituição acione o Mecanismo Especial de Devolução (MED) do Banco Central, tentando bloquear o saldo nas contas receptoras dos golpistas antes que eles façam o saque.
- Tente memorizar detalhes físicos dos criminosos: Características como tatuagens, roupas, sotaques, nomes falsos utilizados e, principalmente, a placa, cor e modelo do carro utilizado pela quadrilha ajudam as equipes de inteligência policial a cruzarem dados e identificarem os suspeitos por câmeras de monitoramento urbano.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
