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Aos 72 anos, ela já ajudou 30 mil crianças em SP, e agora mira nos idosos

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Em entrevista ao VIVA, tia Dag fala sobre meta de atender adultos e idosos - Divulgação
Em entrevista ao VIVA, tia Dag fala sobre meta de atender adultos e idosos
Por Bianca Bibiano

23/04/2026 | 18h08 ● Atualizado | 18h10

São Paulo - No Capão Redondo, extremo sul da capital paulista, as estatísticas de violência frequentemente se sobrepõem às narrativas de potência, mas ali há uma casa onde o barulho é outro. Vozes de crianças, ensaios musicais, atividades esportivas e oficinas de artes e tecnologia dão o clima e atravessam gerações.

É ali que a pedagoga Dagmar Rivieri Garroux, a Tia Dag, construiu ao longo de mais de três décadas um dos projetos sociais mais longevos do País, a Casa do Zezinho

Aos 72 anos recém completos e com mais de 30 mil crianças e adolescentes impactados, ela não fala em legado, e sim em futuro. "Estou cansada de contar como tudo começou. Agora eu quero falar de expansão", disse ao VIVA.

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A história, no entanto, insiste em se impor. Nos anos 1990, sem recursos ou planejamento institucional, Dagmar abriu a porta da própria casa no Capão para sete crianças da vizinhança. "O que existia era convivência com a realidade da periferia e uma certeza: a educação é a ferramenta mais poderosa para transformar vidas", relembra com suas anotações. 

O gesto simples cresceu, ganhou corpo, estrutura e método. Hoje, a Casa do Zezinho atende mais de mil jovens por ano e se tornou referência em educação complementar, arte e formação cidadã, apoiada por personalidades como os apresentadores Marcelo Tas, Fábio Porchat e Fred Bruno, dentre outros.

Os apresentadores Fábio Portachat e Marcelo Tas com Dagmar Rivieri
Ao longo dos mais de 30 anos, a ONG angariou apoio de empresas e personalidades - Reprodução/Instagram/@casadozezinho

Mas o território ao redor continua desafiador. Dados da Secretaria da Segurança Pública mostram que o Capão Redondo segue entre os distritos com mais registros de roubo na capital paulista. A poucos metros da sede da ONG, um terreno já foi usado para desova de vítimas do tráfico. Dentro da Casa, no entanto, a lógica é outra.

Ali, muitos dos antigos alunos voltam como monitores, educadores, referências para os mais novos. Três gerações de "zezinhos" já passaram por aquele espaço, destaca a fundadora.

"Para mim, o cabelo mudou de cor, só", brinca Dagmar. A frase vem acompanhada de uma reflexão direta sobre envelhecimento:

É claro que você tem algumas limitações. Eu descia a escada pulando de três em três degraus, agora vou de um em um. Mas está divertido. O que não pode é parar de sonhar. Se parou de sonhar, morreu."

A vitalidade que ela reivindica não ignora o tempo, mas também não se submete a ele. "Eu posso fazer o que quiser. Com 72 anos você tem licença poética para isso", afirma.

Ao mesmo tempo, a pedagoga recusa a ideia de envelhecimento como retração e se encanta com as novas tecnologias e as possibilidades de um dia criar uma rua inteira de 'casas do Zezinho', com espaços para atender mais crianças, e também adultos e idosos.

Quem não muda a própria visão de mundo, envelhece de verdade. Eu mudo todo dia. Qual é o problema?"
dois meninos posam para foto na ong Casa do Zezinho
Crianças atendidas pela ONG: espaço para troca entre gerações e aprendizados - Manuela França/Portal VIVA

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Planos de futuro

A disposição em se reinventar é o que orienta a nova fase da Casa do Zezinho, que além de Dagmar tem à frente seu filho mais velho. Para os próximos anos, a organização prepara uma expansão ambiciosa: passar de 1.300 para 3.500 atendidos até 2030 e, sobretudo, ampliar o público. Crianças e adolescentes continuam no centro, mas agora dividem espaço com jovens adultos, trabalhadores e idosos da comunidade.

"A gente cresceu ouvindo a comunidade. Tem mãe que nunca pôde participar das atividades porque trabalha o dia todo. Tem idoso que mora a poucos quarteirões e nunca teve um espaço de convivência. Essa expansão é para incluir essas pessoas também", diz.

Na prática, isso significa abrir a casa à noite e aos fins de semana, criar cursos certificados em áreas como programação, inteligência artificial, moda e panificação, além de tirar do papel projetos como o Cursinho Zezinho, voltado ao Enem, e a Casa da Tia Maria, dedicada à terceira idade.

A presença dos idosos, aliás, é um dos pontos que mais a mobilizam hoje. "Pegou as quatro idades: criança, adolescente, adulto e idoso. É sensacional estar nisso tudo", resume. Para ela, manter a mente ativa é central em qualquer fase da vida:

O duro é ficar em casa, parado vendo a televisão. Se não tiver a mente ocupada, não é fácil."

A expansão do projeto também passa por novas localizações, com um sítio em São Francisco Xavier, na Serra da Mantiqueira, que deve receber atividades de educação ambiental, trilhas e projetos de reflorestamento.

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A ideia é ampliar o repertório das crianças e conectá-las com outras dimensões de cuidado, inclusive com a natureza.  "Tem criança aqui que nunca viu uma cachoeira, uma mata fechada de perto. Educar não é só conteúdo. É ampliar horizonte", observa.

Pedagogia do arco-íris

Dentro da sede no Capão, a aposta é não deixar ninguém para trás, especialmente diante das transformações tecnológicas. "Meus zezinhos têm que estar na inteligência artificial, com sala de programação de ponta", relembra Dagmar sobre um pedido recente que fez à sua equipe.

Em resposta, ela conta que ouviu negativas ressaltando que o investimento seria alto. "Caro? Você diz isso para mim? Eu fui lá e fiz", enfatiza, destacando que seu trabalho começou pequeno, mas que aos poucos ganhou ajuda de grandes empresas e também do poder público.

Hoje, ela mesma usa as ferramentas digitais no dia a dia, consulta temas de educação e aprende junto com os alunos. "Eu acho um barato."

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Esse olhar atento para as ferramentas de aprendizagem fazem parte da pedagogia do arco-íris, desenvolvida por ela ao longo dos anos de trabalho com as crianças. No centro de sua prática, ela pontua o desenvolvimento integral por meio da educação, do acesso a oportunidades, da alimentação de qualidade e, acima de tudo, de muito amor.

Sua pedagogia se baseia em quatro pilares da educação, entrelaçados pelo fortalecimento da autonomia de pensamento e de ação: Espiritualidade (ser), Ciências (conhecer), Filosofia (saber) e Arte (fazer).

As cores do arco-íris representam as possibilidades de sonhar, como pinceladas da diversidade que a vida carrega. Tolerância, amor e solidariedade se constroem na alma de cada Zezinho, guiando a conquista da autonomia por meio do movimento e das experiências, explica.

Vínculo afetivo

O vínculo afetivo, aliás, continua sendo um dos pilares mais visíveis da Casa. Dagmar evita romantizar, mas reconhece a força das relações construídas ali. "Eu não posso chorar. Se eu chorar, a casa inteira desaba. Eles não vão entender que às vezes é choro de alegria". Por isso, prefere celebrar: "Adoro fazer aniversário. É mais um ano que venceu".

Essa combinação de afeto e pragmatismo ajuda a explicar por que ela rejeita a ideia de parar. A gestão já está, em grande parte, nas mãos dos filhos e demais funcionários, que tocam a operação e os planos de crescimento. Ainda assim, ela segue presente, "maquinando o tempo inteiro", como define.

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Não há, por enquanto, interesse em transformar a própria trajetória em livro ou documentário. Tampouco preocupação em garantir a originalidade do projeto social. "Tem gente que abre ONG parecida com a Casa. Eu acho ótimo, vai mudar outros ambientes para melhor. As pessoas copiam o que é bom", enfatiza.

No Capão Redondo, onde tantas histórias são interrompidas cedo demais, Tia Dag segue insistindo em continuidade. O futuro que ela projeta é coletivo e ruidoso, como a casa que construiu.

Inclui levar a orquestra das crianças para tocar no coreto da praça, ampliar parcerias, integrar novas tecnologias e, principalmente, manter o espaço vivo. "Eu não gosto de vir aqui de domingo, por exemplo, sem som de criança. Eu quero vir aqui e ouvir os barulhos dos meus Zezinhos", completa.

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