Da periferia ao sertão: conheça 5 projetos que integram a velhice no Brasil
Iniciativas superam a lógica do assistencialismo em favor do protagonismo das pessoas com 60 anos ou mais na criação política
Claiton Dornelles/Sesc/RS
O Mapeamento do Ecossistema de Longevidade no Brasil, liderado pelo Lab Nova Longevidade e Ashoka, visa promover a colaboração intersetorial em prol do envelhecimento saudável, conectando 296 organizações em 228 municípios e destacando a importância do protagonismo das pessoas com 60 anos ou mais na criação de políticas públicas.
O estudo revelou disparidades significativas na expectativa de vida entre diferentes regiões, como a diferença de 22 anos entre o distrito de Moema e o Jardim Ângela em São Paulo, e enfatizou a necessidade de um ecossistema plural que considere as vozes das populações periféricas e vulneráveis.
As iniciativas mapeadas enfrentam o desafio de articular suas ações e recursos, com a execução orçamentária sendo um entrave central, já que 98% do potencial de destinação fiscal não é utilizado, evidenciando a urgência de uma implementação eficaz das políticas existentes.
São Paulo - A organização global Ashoka e pelo seu braço Lab Nova Longevidade realizaram um projeto destinado a impulsionar a colaboração intersetorial no País na causa do envelhecimento saudável e ativo.
O Mapeamento do Ecossistema de Longevidade no Brasil integra, pelo segundo ano consecutivo, projetos e iniciativas — de diferentes esferas públicas e privadas — que passaram por um amplo diagnóstico com uma tecnologia pioneira de inteligência artificial (IA). A iniciativa visa incorporar novos atores, territórios e experiências dedicados à população idosa.
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Para a articuladora da pesquisa, Marília Duque, o levantamento permitiu, pela primeira vez, integrar dados e conectar iniciativas de ponta a ponta no País: "É como se a gente tivesse podido dar um voo panorâmico sobre o Brasil e ver quem está fazendo o quê, mas, principalmente, conectar essas partes".
O estudo — que contemplou 296 organizações em 228 municípios espalhados por 23 unidades federativas — supera a lógica do assistencialismo em favor do protagonismo das pessoas com 60 anos ou mais na criação política.
Marília reforça que "o que o mapeamento fala é que as pessoas idosas estão fazendo pela própria longevidade", o que exige transformar os princípios de atuação nas políticas públicas e nos projetos sociais: "A regra é trocar a participação para a população idosa por poder de ação com ela".
Com mais de 100 ativos e tecnologias mapeados entre as entidades — uma média superior a quatro recursos por organização —, o grande desafio atual não é a escassez de ideias, mas a articulação entre elas.
Em vez de a gente perguntar o que falta eu criar, talvez a pergunta para ser feita seja o que tem que acontecer para que essas capacidades que já existem circulem e se complementem."
Marília Duque, pesquisadora e liderança da Ashoka
A pergunta central que guiou a apresentação dos cinco projetos em destaque no evento foi: "Como é que a gente converte essa capacidade distribuída em capacitação coletiva de transformação?". Confira.
A pluralidade periférica
No distrito paulistano de Moema, a expectativa de vida média atinge 80 anos, enquanto no Jardim Ângela, na periferia sul da capital, o indicador não chega aos 58 anos.
A disparidade foi trazida por Ronaldo Matos, fundador e diretor-executivo do Desenrola e Não Me Enrola. Ele defende que "as populações de periferias e favelas no Brasil têm o direito de discutir e construir o ecossistema brasileiro de longevidades no plural, não no singular".
A organização atua com o jornalismo periférico, pensando em soluções socioambientais, em educação midiática antirracista e na datificação da população madura em favelas, em territórios quilombolas e em terras indígenas.
Ronaldo ressalta que a agência informacional possibilita à população e aos gestores anteciparem demandas por políticas públicas estruturais. O diretor destaca a "escuta ativa como tecnologia, e não como método e nem como processo", o que garante que os próprios moradores participem ativamente das decisões sobre as suas comunidades.
O letramento digital no interior da Amazônia
A 600 quilômetros de Belém, no município de Marabá (PA), o projeto de extensão Tecer Mulher, da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), enfrenta as barreiras do envelhecimento fora dos grandes centros urbanos.
A representante da iniciativa, Léia Sousa, explica que o foco é o letramento digital e alfabético de mulheres com 60 anos ou mais em situação de vulnerabilidade, que dependem de terceiros para o manuseio de tecnologia no cotidiano.
Por falta de autonomia na leitura e nos aplicativos, "essa mulher precisa da ajuda do vizinho para pedir um carro por aplicativo para ela poder ir para a consulta médica" e, na hora de pagar, entrega o aparelho desbloqueado ao motorista, aponta Léia.
Olhar para o território
Abrangendo mais de 80 municípios gaúchos por meio de 78 iniciativas, o trabalho do Programa Sesc Maturidade Ativa, do Rio Grande do Sul, passou por uma reflexão interna a partir dos diagnósticos.
Michele Ávila, coordenadora de assistência da instituição, pontua que o principal aprendizado foi qualificar as ações já existentes em vez de buscar projetos inéditos.
Quando a gente fala em conexão, a gente não fala de colaboração. Então, a gente se conecta todo dia, mas o quanto realmente a gente vai colaborar um com o outro para um propósito comum?"
Michele Ávila, coordenadora de assistência do Sesc/RS
Como resposta, a instituição fortalece a economia local ao contratar mais de 800 prestações de serviços de profissionais de seus próprios territórios.
A organização desenvolve iniciativas voltadas para a promoção de vidas mais longas e saudáveis, com o objetivo comum de redesenhar os sistemas de saúde e de cuidado.
Direito à saúde mental
Atuando no Capão Redondo, zona sul de São Paulo (SP), o Farol Saúde Integrativa — negócio de impacto social da RD Saúde — oferece acolhimento em saúde mental e em dores crônicas em convênio direto com o SUS, voltado majoritariamente a mulheres cuidadoras e a chefes de família.
Bruna Silva, representante da iniciativa, destaca que a construção da articulação exigiu aproximação contínua: "O primeiro aprendizado que o Farol nos trouxe foi justamente esse: como é que a gente quebra desconfiança e preconceito".
A convergência de objetivos exigiu alinhar discursos: "Como é que a gente alinha linguagens também? Porque cada um fala uma linguagem: o território e a comunidade falam uma, a empresa fala outra, para que a gente consiga entender que a gente está falando do mesmo objetivo".
A maturidade do modelo levou a rede territorial a ser apresentada como um case do próprio SUS em um simpósio de farmácia integrativa.
A urgência da execução orçamentária
Outra iniciativa é a Plataforma Longeviver, que integra dados, diagnósticos, capacitação, ferramentas digitais e apoio técnico para fortalecer políticas públicas relacionadas à pessoa idosa. O objetivo é remover o entrave central da longevidade no País que reside na dificuldade de implementação dos marcos regulatórios.
O sócio-fundador da plataforma, Eduardo Ferreira, enfatiza que o Brasil possui legislações avançadas, mas padece de baixos índices de execução orçamentária. "A gente tem a melhor política pública. O problema não está na política no papel, no marco normativo, está na execução, na implementação", adverte Ferreira.
Segundo ele, cerca de 98% do potencial de destinação fiscal de pessoas físicas e 80% das empresas deixam de ser aplicados anualmente por falhas técnicas e desarticulação.
Ele defende a figura de tradutores para compatibilizar as linguagens do governo, das empresas e das organizações sociais, lembrando o peso da transição demográfica: "Uma sociedade longeva não é a mesma sociedade com mais pessoas com 60 anos. É uma outra sociedade. Muda tudo".
O desafio coletivo
O estudo apontou um paradoxo central no ecossistema: enquanto metade das organizações indica a captação de recursos financeiros como o seu maior obstáculo individual, mais de 35% apontam que a escassez de colaboração intersetorial é a principal barreira para o avanço coletivo.
Converter a rede mapeada em ação coordenada é o passo decisivo para preparar o País. O Mapeamento do Ecossistema de Longevidade funciona como uma plataforma viva e dinâmica.
Organizações, projetos e iniciativas que não participaram do primeiro ciclo e desejam integrar a rede oficial podem se inscrever gratuitamente aqui. O formulário para o Mapa 2026 permanece aberto e em fluxo contínuo.
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