Idade média ao morrer em São Paulo pode variar até 20 anos entre bairros
Rovena Rosa/Agência Brasil
São Paulo - A distância física entre o Alto de Pinheiros, bairro nobre na zona oeste, e a Cidade Tiradentes, no extremo leste de São Paulo, é de apenas algumas dezenas de quilômetros. No entanto, as discrepâncias na qualidade e na expectativa de vida dessas duas regiões ultrapassam décadas de diferença.
Um morador de Pinheiros morre, em média, aos 82 anos, enquanto na periferia da zona leste essa média despenca para apenas 62 anos. A lacuna de 20 anos evidência a realidade desigual na maior metrópole do País, onde envelhecer com qualidade varia conforme a localização geográfica.
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Os dados integram o Mapa da Desigualdade 2025, publicado nesta terça-feira, 23, um levantamento anual que avalia a oferta de infraestrutura e serviços nos 96 distritos paulistanos, baseado em 45 indicadores temáticos,
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Os distritos com os melhores desempenhos gerais são:
- Consolação: 71,09 pontos;
- Moema: 70,98 pontos;
- Alto de Pinheiros: 70,65 pontos.
Na outra extremidade, as regiões com os menores índices de infraestrutura estão concentradas nas bordas do município:
- Brasilândia: 47,27 pontos;
- Vila Medeiros: 48,88 pontos;
- Cidade Ademar: 50,23 pontos.
"Por um lado, em certas regiões de São Paulo, há indicadores como se fossem de países de primeiro mundo e, por outro lado, periferias e bairros nos extremos (da cidade) com péssima qualidade de vida", afirma Igor Pantoja, coordenador de relações institucionais da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis.
A intersecção entre velhice, cor e território
O abismo evidenciado pelo Mapa se reflete diretamente no perfil demográfico de quem consegue, de fato, envelhecer. O distrito do Jardim Ângela, na zona sul, apresenta o pior Índice de Envelhecimento de toda a capital (45,06).
O Índice de Envelhecimento é um indicador demográfico que mede a relação existente entre o número de idosos e a população jovem de uma determinada região.
Não por acaso, o Jardim Ângela é também o distrito paulistano com a maior proporção de população preta e parda (60,1%). Para Pantoja, o cenário revela que a falta de longevidade acompanha grupos já historicamente vulnerabilizados.
Uma cidade ruim para os idosos também é uma cidade ruim para as mulheres, para os LGBTs, para as crianças. Todo mundo sai perdendo."
Segundo o coordenador, o poder público comete, recorrentemente, o erro de pensar no bem-estar da pessoa idosa apenas quando a velhice já chegou.
"Para que a gente consiga manter as pessoas vivendo nas regiões onde elas moram e que alcancem uma idade mais avançada, é importante pensar na qualidade de vida dessas pessoas ao longo da vida, para não acabar expulsando os idosos ou encurtando essa longevidade."
A violência também atua como uma barreira estrutural para a longevidade nas periferias, uma vez que os distritos com os menores Índices de Envelhecimento também sofrem com altos índices de letalidade.
Territórios como Jardim Ângela, Anhanguera e Brasilândia, que abrigam as menores proporções de pessoas idosas na capital, com índices de 45,06, 46,35 e 48,23, respectivamente, despontam com coeficientes altos de homicídios em geral - 10,67, 14,84 e 12,65 mortes para cada 100 mil habitantes, respectivamente - e de homicídios de jovens de 15 a 29 anos - 39,36, 39,42 e 39,14, respectivamente.
Falhas na mobilidade amplia distâncias
Enquanto um morador de Pinheiros gasta, em média, 25 minutos se deslocando por transporte público no horário de pico da manhã, quem vive no extremo de Marsilac perde 71 minutos no trajeto ao trabalho.
A rotina exaustiva de atravessar a cidade afeta diretamente a saúde na velhice. "Muitos continuam trabalhando mesmo depois de se aposentar. Pensando num idoso que mora numa periferia e que, para procurar um serviço de saúde ou trabalho, tem que se deslocar em transporte lotado, sujeito a quedas no transporte ou na calçada, isso é bastante pesado", relata o coordenador.
Ele acrescenta que as periferias também sofrem com uma "epidemia de doenças crônicas", como diabetes e hipertensão, em regiões onde o controle destas é muito mais difícil de ser feito pelo sistema de saúde local.
A arborização na saúde respiratória
Sobreviver nas bordas do município e em distritos densamente pavimentados significa lidar não apenas com a exaustão da mobilidade, mas enfrentar o próprio ar que se respira.
O distrito da Água Rasa, que possui apenas 9,13% de cobertura vegetal, registra a maior taxa de mortalidade por doenças do aparelho respiratório na cidade: 198,15 mortes para cada 100 mil habitantes.
Em contrapartida, o distrito de Marsilac, no extremo sul, apresenta 97,51% de cobertura vegetal e taxa zero na emissão de poluentes por área, registrando a menor mortalidade por doenças respiratórias da capital (17,16), de acordo com o levantamento.
Isso indica que, estatisticamente, a população de um distrito chega a registrar um índice de mortalidade por problemas respiratórios 11,6 vezes maior do que em outro, dependendo de sua localização geográfica.
Segundo Igor Pantoja, as árvores têm papel fundamental não apenas na redução do calor, mas também na capacidade de sequestrar ali certos poluentes e devolver mais oxigênio para a atmosfera. "Os efeitos das mudanças climáticas, eles são mais sentidos também nas periferias da cidades. Sem dúvida, as mudanças climáticas atingem mais diretamente e com mais gravidade a população idosa."
Como reduzir desigualdades?
O fenômeno da desigualdade na capital paulista pode ser apaziguado pela descentralização das oportunidades de trabalho, o que evitaria com que 5 milhões de pessoas precisem cruzar a cidade todos os dias rumo ao centro-sudoeste, defende o coordenador.
Porém, o fundamental, aponta o especialista, é a formulação de políticas públicas de saúde e planejamento urbano que enxerguem os abismos territoriais.
O idoso que mora nos Jardins certamente não tem as mesmas necessidades que um idoso que mora na Brasilândia. As políticas públicas atualmente não reconhecem essa desigualdade. Muitas vezes elas acabam aprofundando. A solução é pensar a cidade a partir dessas desigualdades", conclui Pantoja.
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