Sérgio Serapião
Colunista VIVA
23/10/2026 | 13h41
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Empreendedor social, fellow Ashooka, líder do Movimento LABoo de inovações pela longevidade, e realizador do Fórum e Festival Longevidade
Longevidade é alavanca de inovação para redesenhar soluções ao longo da vida
Direto de um evento em Málaga, na Espanha, Sérgio Serapião conta sobre experiências globais de inovação no campo da longevidade
Envato
O LifeSpan Summit, realizado em Málaga, destacou a necessidade de repensar sistemas de bem-estar e políticas públicas para enfrentar o desafio do envelhecimento populacional, reconhecendo que a longevidade deve ser vista como uma oportunidade social e econômica.
Especialistas enfatizaram que a longevidade não deve ser tratada apenas como uma questão de saúde, mas como um campo abrangente que envolve educação, trabalho e inovação, além de promover a inclusão financeira e a resiliência econômica.
O evento propôs ações concretas, como a formação de uma coalizão de ministros da Fazenda para discutir políticas de longevidade, e a implementação de inovações preventivas em saúde, visando a construção de comunidades mais preparadas para lidar com o envelhecimento saudável.
Málaga - O encontro de um seleto grupo internacional de especialistas em longevidade reforçou minha convicção: o desafio da longevidade é mudar o olhar que, historicamente, colocou o envelhecimento populacional no centro do problema. É preciso reconhecer que temos um “erro de desenho” em sistemas de bem-estar, trabalho, finanças, tecnologia, educação e políticas públicas, que não previram que viveríamos tanto e, por isso, precisam ser urgentemente redesenhados.
Entre 14 e 16 de outubro, participei do LifeSpan Summit Malaga 2026, encontro que reuniu 300 lideranças corporativas, de organismos multilaterais, do terceiro setor e de governos. Organizado pelo GIA Longevity — Iniciativa Global para o Envelhecimento e a Longevidade —, o evento foi realizado sob a liderança do embaixador Luis Gallegos.
O embaixador, que liderou a elaboração da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) da Oraganização das Nações Unidas (ONU), passou, nos últimos anos, à frente do GIA, a dedicar-se ao impulso de políticas globais e inovações destinadas a garantir o envelhecimento saudável, a dignidade e a inclusão social da população idosa mundial.
Redesenhar o caminho para viver 100 anos
A primeira edição do LifeSpan Summit começou com o tema “Vida de 100 anos: a grande oportunidade social e econômica de nosso tempo”. Na discussão, Haleh Nazeri, líder de economia da longevidade do Fórum Econômico Mundial, resumiu essa agenda com uma frase que ficou ecoando: “É um problema de design. Precisamos redesenhar as soluções para todos os capítulos da vida”.
Não se trata apenas de criar produtos para uma população mais velha. É preciso repensar a casa, a cidade, o transporte, a educação, o trabalho, o crédito, o seguro, o lazer e os serviços de saúde para todas as fases, que se entrelaçam diante da perspectiva de uma vida mais longa e da disponibilidade de tecnologias que se transformam a cada dia.
Essa discussão coincidiu com vários debates que tivemos apenas duas semanas antes, no 8º Fórum Festival da Longevidade, em São Paulo, que também contou com a presença do Fórum Econômico Mundial.
Essa mudança de perspectiva transforma a longevidade em um grande campo de inovação social e de negócios, muito além da compreensão comum de que se trata de uma agenda restrita a médicos e sistemas de saúde.
A nova visão sobre longevidade cria uma oportunidade para revisar a associação entre envelhecimento populacional e fragilidade econômica dos países e reconhecer a potência deste momento histórico.
A própria conversa sobre inclusão também se transforma. Fiona Stewart, do Banco Mundial, chamou atenção para a necessidade de migrarmos da inclusão digital e financeira para a resiliência financeira. Ter acesso a uma conta, a um aplicativo ou a um meio de pagamento é apenas o começo.
Construir resiliência financeira significa conseguir atravessar uma doença, uma demissão, uma transição de carreira, um período de cuidado ou uma crise econômica sem perder completamente a autonomia.
Precisamos medir não apenas quantos anos vivemos, mas com que saúde, autonomia, renda e propósito vivemos esses anos. Kristina Durcakova, do McKinsey Health Institute, defendeu a formação de uma coalizão de ministros da Fazenda para discutir longevidade. A ideia é poderosa porque o tema atravessa todos os ministérios e departamentos. Se ficar restrito à saúde, perderá as conexões com trabalho, previdência, educação, moradia, inovação e desenvolvimento econômico.
Governos e empresas precisam de estruturas capazes de coordenar políticas de longevidade; caso contrário, o assunto continuará se dissolvendo nas fronteiras administrativas.
Ações preventivas
O encontro também debateu soluções concretas, como inovações preventivas de bem estar. Em vez de esperar que o diagnóstico de Alzheimer chegue tardiamente pelo sistema de saúde, comunidades estão sendo treinadas para reconhecer sinais iniciais, orientar famílias e estimular ações preventivas. A proposta combina protocolos da Davos Alzheimer’s Collaborative com soluções de baixo custo, capazes de chegar a lugares onde especialistas, exames e estruturas hospitalares são escassos.
É uma mudança importante: o conhecimento deixa de ficar concentrado em instituições e passa a circular na comunidade.
Esse exemplo revela um desafio maior. A Organização Mundial da Saúde (OMS) vem trabalhando em um mapa de ação para o envelhecimento saudável, e apesar de que nenhum país tenha a solução completa, também ninguém precisa começar do zero.
Ao redor do mundo, já existem experiências que funcionaram — e outras que fracassaram. Precisamos registrar esses resultados em bancos de dados, para que governos e organizações aprendam depressa e adaptem o que deu certo.
Um ponto fundamental para o Brasil é o baixo nível de registro de iniciativas nossas nesta ferramenta o que não transparece o grau sofisticado de soluções e ecossistema que temos por aqui.
Mudança de hábitos é um desafio
Ainda no compo de desenvolvimento de uma sociedade mais longeva, reconheceu-se a dificuldade de convencer as pessoas a mudar seus hábitos, mesmo quando sabem o que lhes faria bem. Um dos achados da discussão foi entender que seja mais eficaz mudar os ingredientes dos produtos por regulamentações do que esperar que milhões de indivíduos façam uma transição cultural.
No debate sobre o trabalho e a inteligência artificial, surgiu um alerta igualmente atual: não podemos confiar excessivamente na IA sem contexto. É necessário calibrar quanto confiamos e quanto verificamos.
A tecnologia pode ampliar capacidades, mas não elimina a responsabilidade humana, o julgamento profissional nem a necessidade de compreender a situação concreta de cada pessoa, especialmente em temas ainda em desenvolvimento, cujas respostas não estão consolidadas.
Por fim, ficou evidente a demanda por mais encontros que reúnam governos, empresas, academia, sociedade civil e pessoas com experiência vivida. O Fórum Festival da Longevidade é um exemplo desse tipo de espaço. O interesse de representantes de Espanha e Peru em abrir capítulos do movimento LABoo e realizar ali uma edições do festival mostra que essa agenda pode se expandir por redes locais, com soluções construídas em cada contexto.
O LifeSpan Summit não apresentou fórmulas prontas, mas um senso de urgência e uma direção: reconhecer a longevidade como um grande laboratório de inovação e desenvolvimento social e econômico, capaz de fazer com que esses anos adicionais sejam vividos com saúde, segurança financeira, trabalho digno, cuidado e propósito.
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