Após demissão, 6 em cada 10 profissionais mudam de função, diz pesquisa
Relatório da consultoria LHH aponta que IA, automação e falta de competências impulsionam a transição e afetam mais as áreas administrativas e operacionais
Por Broadcast
22/10/2026 | 17h00Adobe Stock
Cerca de 58,3% dos profissionais no Brasil mudam de ocupação após a demissão, superando a média global de 57,7%, refletindo uma reconfiguração contínua do mercado de trabalho que transforma a transição de carreira em um fenômeno estrutural.
As demissões, em sua maioria recorrentes, são impulsionadas por fatores como a automação, a inteligência artificial e a incompatibilidade de competências, com as funções administrativas e operacionais sendo as mais afetadas.
As empresas estão começando a valorizar o desenvolvimento de novas habilidades e a mobilidade interna, embora muitos profissionais ainda enfrentem dificuldades para definir um novo caminho de carreira, com 53% expressando desejo de mudança, mas sem clareza sobre como proceder.
Rio - Cerca de seis a cada dez profissionais desligados migram para funções totalmente novas após a demissão, aponta o relatório sobre transição de carreira 2026 da consultoria LHH, antecipado à Broadcast, que acompanhou mais de 418 mil profissionais no mundo.
Com uma média de 58,3% de profissionais que mudam de ocupação após a demissão, o Brasil apresenta um índice ligeiramente acima da média global (57,7%). O mercado brasileiro encontra-se à frente de Estados Unidos (56,9%) e Japão (55,6%), mas fica atrás de países europeus como Alemanha (70,9%) e Espanha (68,4%).
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De acordo com a pesquisa, a dinâmica reflete um mercado de trabalho em reconfiguração contínua, em que a transição de carreira deixou de ser um evento pontual para se tornar um componente estrutural do mercado de trabalho.
O que motiva as demissões?
Quase 80% (78%) das demissões globais foram recorrentes, e não mais eventos isolados. Edições anteriores identificaram que os cortes tinham relação com redução de custos ou excesso de contratações. Agora, as pressões aparecem mais distribuídas. Entre as principais causas, estão o avanço da inteligência artificial e automação, a incompatibilidade de competências e operações de fusões e aquisições.
Segundo a diretora de transição de carreira da LHH, Patrícia Paniquar, a tecnologia e a IA são os principais catalisadores da extinção de muitas posições, forçando os profissionais a buscar novas oportunidades em áreas diferentes das que ocupavam.
"Antigamente se pensava na carreira como uma subida de uma escada, hoje a gente observa um movimento de teias. Você vai migrar, mas não necessariamente numa jornada sem retorno, em que o profissional só vai subir. Esse olhar é algo novo para o profissional e para as organizações, que precisam quebrar alguns paradigmas sobre o desenho de carreira", afirma.
Para o Brasil, a executiva espera um aumento significativo na taxa de transição nos próximos anos, à medida em que a IA for incorporada à rotina das organizações.
O ritmo vem aumentando, mas não somos um dos países que têm hoje os maiores volumes desse tipo de transição. Isso ocorre porque a inteligência artificial está presente, mas ainda não está sendo utilizada na sua máxima potência", explica.
Patrícia Paniquar, diretora de transição de carreira da LHH
Quais são as funções mais afetadas?
As posições mais impactadas são as administrativas e operacionais, estendendo-se até a média gerência. Os exemplos incluem representante de vendas, analista de cadeia de suprimentos, atendimento ao cliente, consultor de projeto e coordenador de marketing. Nas operações de atendimento ao cliente, a taxa de transição global chega a 90,15%, com apenas 9,85% retornando à mesma função.
Ao mudar de carreira, os profissionais tendem a buscar funções em que possam aproveitar as competências. No caso de quem deixa o atendimento ao cliente, os destinos mais frequentes incluem áreas comerciais (vendas), supply chain, gestão de operações, garantia da qualidade e contabilidade.
Já destinos mais técnicos, como consultoria de projetos, engenharia de suporte de TI, análise de sistemas e análise de dados, são os caminhos adotados pelos desenvolvedores de software que optam por mudar de área.
E como ficam os salários?
A pesquisa não quantifica a mudança salarial, mas Paniquar observa que a transição para uma nova especialidade, na qual o profissional ainda está em curva de aprendizado, pode resultar em uma redução inicial da remuneração.
"Outro aspecto que a gente esbarra é no paradigma de não contratar profissionais que vêm de posições com remunerações mais altas, ignorando que o indivíduo pode estar ciente e disposto a se adequar à nova realidade", diz.
Ela acrescenta que as empresas estão começando a se adaptar e deixando um modelo que exigia profissionais "prontos" para valorizar o desenvolvimento de novas habilidades e a mobilidade interna.
Além dos desligamentos involuntários, a consultoria identificou um movimento crescente de profissionais que buscam voluntariamente mudar de carreira. O maior obstáculo, porém, é a falta de clareza sobre o caminho, com mais da metade dos profissionais (53%) afirmando que querem mudar de função, mas não sabem como. (Por Paula Martini)
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