Notificações de violência contra idosos disparam 226% em dez anos
Envato
São Paulo - Em meio à campanha do Junho Violeta, mês dedicado à conscientização contra a violência à pessoa idosa, dados recentes do Atlas da Violência 2026 revelam um cenário contraditório. Ao mesmo tempo em que os homicídios de pessoas com mais de 60 anos caíram 39,2% em dez anos, as notificações de violência interpessoal contra essa população no sistema de saúde cresceram 226,3% no mesmo período. Foram mais de 30 mil notificações apenas em 2024 (uma taxa de 88,4 casos por 100 mil idosos), enquanto os homicídios chegaram a 2.007 no mesmo ano.
As informações constam de levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Leia também
O sociólogo, educador e defensor dos direitos humanos Bahij Amin Aur analisa que o preconceito etário – o chamado idadismo – é o motor dessas violações, que não necessariamente chegam ao cenário extremo: a morte das vítimas. "A discriminação em si já é um ato de violência", afirma. Para ele, a marginalização faz com que a pessoa idosa passe a ser vista como um fardo para os parentes.
A cultura vigente exclui a pessoa idosa porque ela deixa de ser produtiva e passa a dar trabalho para a família, cria encargos para os familiares."
Além da agressão física, o sociólogo destaca outras formas de abuso comuns no ambiente doméstico:
- Violência financeira (patrimonial): filhos ou outros familiares utilizam indevidamente os recursos do idoso (como cartões bancários e empréstimos) em proveito próprio.
- Violência invisível e negligência: ocorre quando pessoa idosa é isolada do convívio familiar, sendo negligenciado no próprio lar.
A advogada especialista em direito da pessoa idosa e doutora em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFF, Rose Ferreira Ribeiro, pondera que o volume de notificações vai além da dinâmica intrafamiliar. "A crescente contabilidade desse tipo de crime revela uma das expressões mais graves do despreparo da sociedade para lidar com o envelhecimento populacional", alerta.
Soma das vulnerabilidades
A vulnerabilidade na velhice se agrava quando são adicionados os critérios raciais. De acordo com o Atlas da Violência, homens negros idosos têm uma taxa de vitimização letal 1,7 vez maior do que homens não negros: são 14,5 vítimas por 100 mil de homens negros contra 8,3 por 100 mil homens brancos. Entre as mulheres idosas negras e não negras, a diferença é de 1,3 vez (1,9 vítimas por 100 mil mulheres negras e 1,4 por 100 mil mulheres não negras).
Amin Aur contextualiza que a discriminação tem raízes profundas na escravidão, o que faz com que essa população chegue à velhice enfrentando a intersecção de vários preconceitos e compondo a maioria pobre do País.
O superlativo da discriminação racial foi a escravidão, em que a pessoa escravizada não era cidadã, era instrumento de trabalho de quem tinha a sua propriedade. Maior discriminação que essa não existe. E é essa discriminação que persiste no Brasil."
Os dados também mostram como a geografia desenha um mapa quase complementar entre duas das principais causas de letalidade entre as pessoas idosas:
- Norte e Nordeste: onde o envelhecimento populacional avança de forma mais lenta, observam-se as maiores taxas de homicídio e as menores taxas de óbito por queda.
- Sul e Sudeste: onde a transição demográfica foi acelerada (com a proporção de idosos já próxima a 20%), o cenário se inverte. As regiões registram as menores taxas de homicídio, mas enfrentam uma disparada de óbitos provocados por quedas acidentais.
O impacto dessa transição atinge as mulheres de forma drástica. Atualmente, para cada mulher não negra assassinada no País, outras 41 morrem em decorrência de uma queda.
"O endereço é discriminatório. As pessoas não são discriminadas apenas porque são idosas. Elas são discriminadas porque são negras, porque moram em favela ou moram em bairros pobres", explica o sociólogo.
Para a advogada, as violências se acumulam ao longo da vida.
Quando o indivíduo passa a fazer parte do grupo 60+, ele é novamente excluído em decorrência da idade e soma vulnerabilidades que já o acompanham há mais tempo. Então, é claro que a velhice de uma pessoa negra, de baixa renda, do gênero feminino, vai ser uma velhice com muito mais desafios."
Família sobrecarregada
Os dados indicam que o principal palco da violência contra o idoso é o próprio lar. No entanto, Rose Ferreira Ribeiro ressalta que essa negligência nem sempre é intencional, mas fruto de um despreparo social. "Muitas situações não têm a intenção da prática da violência, e sim o cenário de uma família que não possui estrutura para prestar o cuidado necessário e acaba cuidando da forma que consegue", observa a advogada.
Amin Aur lembra que a família brasileira média é composta por trabalhadores exaustos que passam o dia fora de casa. "Não podemos nos iludir pensando que o Brasil caminha como caminha a classe média alta brasileira. Não que ela não cometa violências também, mesmo com mais recursos." É neste vácuo que o sociólogo aponta uma falha sistêmica do Estado. "É preciso que haja políticas públicas que disponibilizem locais e tipos de cuidados por meio de programas oficiais. Muitas vezes o apoio não é para a pessoa idosa diretamente, é para a família."
O pesquisador defende que faltam políticas públicas acessíveis de apoio, como centros-dia para pessoas idosas, conscientização de direitos e letramento sobre o envelhecimento até mesmo para o sistema de Justiça e segurança pública.
Além da falta de estrutura governamental, Rose critica a forma como a sociedade e o mercado encaram a velhice. Segundo a especialista, o debate sobre o envelhecimento é mascarado por um viés de consumo que exclui a maior parte dos idosos brasileiros.
A nossa sociedade ainda valoriza muito mais o discurso da longevidade ativa, a economia prateada, e fala muito pouco sobre o processo de envelhecimento de pessoas que possuem algum grau de dependência ou com renda insuficiente para garantir acesso a coisas básicas."
Ela alerta que o enfrentamento real à violência só ocorrerá quando o País abraçar as vulnerabilidades do envelhecimento, e não direcionar o discurso apenas "para o que é bonito, para o que vende e o que gera receita para o setor de produtos e serviços".
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.