Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Seis a cada 10 crianças no Brasil conversam com estranhos em jogos online

Envato

57% dos pais dizem que os filhos jogam títulos que possuem chat de voz ou texto embutido - Envato
57% dos pais dizem que os filhos jogam títulos que possuem chat de voz ou texto embutido
Por Emanuele Almeida

31/07/2026 | 11h27

São Paulo - Um estudo mostrou que, enquanto os pais brasileiros focam suas preocupações em salas de bate-papo gerais na internet (20%) e no Discord (18%), os dados mostram que o verdadeiro ponto cego na supervisão pode estar dentro dos jogos online – 61% das crianças brasileiras que jogam esses games já conversaram com desconhecidos. O número do contato com estranhos em jogos online no Brasil é superior à média mundial, de 54%.

Além disso, no mundo, 57% dos pais dizem que os filhos jogam títulos que possuem chat de voz ou texto embutido.

A exposição nesses ambientes é massiva:

  • Conteúdo hostil: 33% dos jovens no Brasil e 29% no mundo todo receberam mensagens impróprias ou ofensivas durante as partidas;
  • Convite privado: 29% dos jogadores, tanto no Brasil quanto na média global, já foram incentivados por estranhos a sair do ambiente monitorado do jogo para continuar a conversa em aplicativos privados - o que dificulta a detecção de criminosos por parte dos pais.

Essas conclusões fazem parte do relatório "Norton Insights: Connected Kids", um amplo estudo encomendado pela Gen e conduzido pela empresa de pesquisas Dynata. Para mapear este novo cenário, os pesquisadores realizaram um levantamento online entre 22 de maio e 19 de junho de 2026, entrevistando 13.003 adultos maiores de 18 anos em 12 países. 

Os dados globais foram ponderados por idade, gênero e região para garantir representatividade nacional. No recorte brasileiro, o estudo entrevistou 1.000 adultos de forma online entre 29 de maio e 12 de junho de 2026. Em toda a pesquisa, a parcela de respondentes que são pais ou responsáveis por crianças menores de 18 anos correspondeu a 39% do total.

Conversa sobre perigos online

A pesquisa revela que a tradicional "conversa séria" entre pais e filhos sobre os perigos do mundo ganhou novos e complexos contornos. Se no passado a preocupação principal envolvia o tempo de tela e não falar com estranhos na rua, hoje as famílias enfrentam um cenário digital onde "ver já não significa necessariamente acreditar". 

A proliferação da Inteligência Artificial (IA), acompanhada pelas interações ocultas em jogos online, está exigindo que os responsáveis atualizem urgentemente a forma como protegem os mais jovens.

Para alcançar uma conversa efetiva, os dados revelam que os responsáveis estão engajados: 89% dos brasileiros e 81% no mundo todo afirmam se sentir confortáveis para dialogar com os filhos sobre riscos online. 

Um menino usando o celular a noite, deitado na cama
 40% das crianças continuam usando dispositivos após a hora de dormir - Adobe Stock

Contudo, a tecnologia atualizou o significado da palavra "perigo". Isso porque a maioria dos pais teme os chamados deepfakes: 85% dos brasileiros e 75% dos pais em nível global estão preocupados que a IA possa ser utilizada para fabricar imagens ou conversas falsas envolvendo seus filhos. 

Esse medo é justificado pelo avanço dos golpes de extorsão sexual financeira, que utilizam manipulação de imagens geradas por IA para enganar jovens. Como contexto da gravidade, apenas em 2025, o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas (NCMEC) dos EUA recebeu mais de 50 mil denúncias do tipo. 

No Brasil a Safernet analisou que cerca de 64% de todas as denúncias recebidas pela plataforma entre janeiro e 31 de julho de 2025 envolvem abuso e exploração sexual infantil. A ONG também mapeou casos confirmados de deepfakes sexuais dentro de escolas em 10 estados brasileiros entre 2023 e 2025. 

Voltando ao estudo da Norton, apesar do esforço parental — quase metade dos pais (49%), tanto no Brasil quanto no mundo, já tomou medidas práticas como restringir aplicativos e monitorar o tempo de tela para mitigar riscos da IA —, há uma grave crise de confiança na capacidade de discernimento das crianças. 

No Brasil, 49% dos responsáveis não confiam que seus filhos consigam diferenciar conteúdos reais dos gerados artificialmente. Globalmente, 34% dos pais duvidam que os menores entendam que a IA pode gerar informações enganosas, e 35% já notaram seus filhos buscando apoio emocional, conselhos ou companheirismo em ferramentas como chatbots.

Bullying dentro e fora da escola

As ofensas virtuais continuam sendo um grande problema. Globalmente, 14% dos pais relataram que seus filhos sofreram cyberbullying, concentrando-se principalmente em plataformas como Facebook (37%), TikTok (32%) e WhatsApp (30%).

A grande mudança, no entanto, é o perfil do agressor. O abuso não se limita mais a colegas de escola. Pais relatam que a violência também parte de desconhecidos e, de forma alarmante, de agressores sintéticos.

No Brasil, entre as vítimas de bullying virtual, 29% dos ataques vieram de pessoas usando perfis falsos e 14% foram orquestrados por bots ou contas geradas por IA.  No cenário global, esses números representam 31% e 16%, respectivamente.

O lado positivo é que o diálogo aberto tem surtido efeito: em 43% dos casos globais (46% nos EUA), a própria criança tomou a iniciativa de contar sobre o abuso aos responsáveis.

Conversa é apenas o começo 

A pesquisa deixa claro que ter "a conversa" é apenas o começo da equação. Ao redor do mundo, as crianças recebem seu primeiro smartphone pessoal por volta dos 12 anos de idade, ganhando uma independência que frequentemente escapa ao controle parental.

Os números brasileiros exemplificam essa quebra de regras: 40% das crianças continuam usando dispositivos após a hora de dormir; 22% conseguem acessar redes sociais ou sites que os pais acreditavam ter bloqueado; 14% acessam conteúdo explícito; e 13% admitem ter compartilhado informações privadas com pessoas desconhecidas na internet.

A conclusão principal do levantamento é que a segurança não se resume a restringir o acesso, mas a ensinar a criança a questionar a realidade do que vê, cultivando o hábito contínuo de avaliação e checagem conjunta. Sendo assim, a pergunta mais importante que os pais podem ensinar os filhos a fazer diante de uma tela é: "como eu sei que isso é real?". 

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Últimas Notícias