Sociedades de geriatria e gerontologia alertam para violência contra idosos
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São Paulo - O Brasil atingiu nesta semana a marca recorde de 62 milhões de pessoas com 50 anos ou mais. O aumento da longevidade, no entanto, traz um desafio urgente: garantir que o envelhecimento ocorra com proteção, dignidade e respeito. Esse é o foco das ações promovidas durante o Junho Violeta, mês dedicado à conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa.
A campanha tem como marco o Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, a ser celebrado na próxima segunda-feira, 15. A data foi reconhecida oficialmente pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2011 e busca dar visibilidade a abusos que durante muito tempo permaneceram restritos ao ambiente privado, mas que hoje são reconhecidos como graves violações de direitos humanos e um problema de saúde pública.
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Neste sentido, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) lança sua 'Campanha de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa'. A iniciativa nacional pretende ampliar o debate sobre cuidado, respeito, proteção e valorização do envelhecimento.
Desenvolvida por um grupo de trabalho multidisciplinar da entidade, a campanha reunirá ações educativas em diferentes regiões do País, incluindo lives, podcasts, cursos, caminhadas e outras atividades voltadas à conscientização sobre situações de violência e violação de direitos na velhice.
Além da agressão física
Embora a agressão física seja a forma mais facilmente identificada pela população, a organização alerta que a violência contra pessoas idosas assume diferentes formas e, muitas vezes, permanece invisível. Entre as manifestações mais frequentes estão negligência, abandono, violência psicológica, abuso financeiro, exclusão social, infantilização e desrespeito à autonomia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), violência contra a pessoa idosa é definida como "qualquer ação ou omissão, única ou repetida, ocorrida em uma relação de confiança e que provoque dano, sofrimento ou angústia".
Na prática, isso significa que a violência pode ocorrer de forma física, psicológica, patrimonial, institucional ou por negligência, fatores que contribuem para a subnotificação e a naturalização dos casos.
"Falar sobre violência contra a pessoa idosa também é falar sobre cuidado. Muitas vezes, a violência aparece justamente quando deixamos de reconhecer a autonomia, a história e o direito dessa pessoa de participar das próprias decisões", afirma Maria Angélica Sanchez, assistente social especialista em gerontologia e membro do Conselho Consultivo Pleno da SBGG.
Etarismo e violência estrutural
Outro aspecto que preocupa especialistas é a chamada violência estrutural, caracterizada por mecanismos sociais, econômicos, políticos e institucionais que dificultam o acesso da população idosa a direitos, serviços e oportunidades. A discriminação por idade, a burocratização de direitos e a exclusão social estão entre os fatores que comprometem a qualidade de vida e a cidadania desse grupo.
Para Vania Beatriz Herédia, professora e membro da Comissão de Normas da SBGG, ainda é difícil identificar e discutir a violência contra pessoas idosas.
"Muitos preconceitos relacionados ao envelhecimento continuam profundamente presentes na nossa cultura. Precisamos superar a ideia de que determinadas situações são naturais do envelhecimento. Combater a violência também significa enfrentar o etarismo e valorizar a autonomia, a dignidade e os direitos da população idosa".
A campanha também chama atenção para o envelhecimento acelerado da população brasileira e para a necessidade de fortalecer redes de apoio, proteção e convivência intergeracional.
"O enfrentamento da violência exige uma mudança cultural. Precisamos fortalecer redes de proteção social, qualificar profissionais, apoiar famílias e construir uma sociedade que enxergue o envelhecimento com mais respeito e responsabilidade coletiva. O cuidado com a pessoa idosa é uma responsabilidade de todos", conclui.
Responsabilidade compartilhada
A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (SBGG-SP) também aproveita o Junho Violeta para reforçar o alerta sobre as diferentes formas de violência que atingem a população idosa. A entidade destaca que negligência, abandono, violência psicológica e abuso financeiro continuam entre as violações mais frequentes dos direitos das pessoas com 60 anos ou mais.
Segundo a organização, o avanço do envelhecimento populacional torna ainda mais urgente a construção de redes de cuidado preparadas para proteger essa parcela da população. Em 2024, o Disque 100 registrou 172,4 mil denúncias relacionadas a pessoas idosas.
O levantamento aponta ainda que muitas ocorrências acontecem dentro da própria residência da vítima e do suspeito, reforçando o peso da violência intrafamiliar. Para Marília Berzins, especialista em gerontologia e diretora da SBGG-SP, o Junho Violeta deve estimular uma reflexão mais ampla sobre o tema:
"Quando falamos em violência contra a pessoa idosa, muita gente pensa apenas na agressão física. Mas a violência também está na negligência, no abandono, na humilhação, no isolamento forçado, no controle do dinheiro, na infantilização e na retirada da autonomia. Muitas vezes, ela acontece de forma silenciosa, dentro de casa, praticada por pessoas próximas, e por isso é tão difícil de ser identificada e enfrentada".
Sinais de alerta
A diretora da SBGG-SP destaca que familiares, vizinhos, profissionais de saúde, cuidadores, instituições e serviços públicos têm papel fundamental na identificação de sinais de alerta.
Mudanças bruscas de comportamento, medo de determinados familiares, isolamento, piora inexplicada do estado de saúde, falta de higiene, desnutrição, lesões recorrentes, confusão no uso de medicamentos, ausência em consultas e alterações financeiras sem justificativa podem indicar situações de risco.
Como denunciar violência contra idosos?
Os casos suspeitos ou confirmados de violência podem ser denunciados pelo Disque 100, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana.
Os relatos podem ser feitos através das seguintes plataformas:
- Telefone: Disque 100 (ligação gratuita)
- WhatsApp e Telegram: (61) 99611-0100
- E-mail: disquedireitoshumanos@mdh.gov.br
- Site oficial: gov.br/mdh/pt-br/ondh
Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é acionar também os serviços de segurança pública e saúde.
O protocolo de prioridade para denúncias de violência contra pessoas idosas no Disque 100 foi criado em 2025 pelo governo federal estabeleceu e define acolhimento, escuta qualificada e encaminhamento dos casos.
"Denunciar é uma forma de proteção, não de exposição. Muitas famílias têm medo, vergonha ou dificuldade de reconhecer que existe violência no próprio ambiente doméstico. Mas o silêncio prolonga o sofrimento. Precisamos fortalecer uma cultura de cuidado, corresponsabilidade e respeito aos direitos da pessoa idosa", completa Marília Berzins.
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