'Todos conhecemos alguém que pratica violência contra idosos', diz advogada
Felipe Cavalheiro/VIVA
São Paulo - A violência contra as pessoas idosas está atrelada ao núcleo familiar ou a pessoas próximas à vítima.
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A provocação é da advogada civil Pérola Melissa Vianna Braga, que abriu a mesa-redonda "As Diversas Violências na Velhice", do 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP.26), nesta quinta-feira, 9. De acordo com a palestrante, ninguém está isento nem distante das práticas violentas.
Precisamos entender que todos nós conhecemos pessoas que praticam violência, às vezes é alguém próximo, da nossa própria família."
O painel reuniu especialistas para debater como os abusos patrimoniais, físicos e psicológicos se manifestam, muitas vezes de forma silenciosa e no próprio ambiente familiar.
A assistente social e gerontóloga Germanne Patricia Matos reforçou que esse comportamento rompe o vínculo de segurança, ligado à rede que deveria prestar cuidado à pessoa idosa: a família e a comunidade.
Com base nas denúncias disponíveis no Disque Direitos Humanos (Disque 100), do 1º trimestre de 2026, 86% dos agressores são familiares diretos ou pessoas conhecidas das vítimas idosas, com os filhos sendo os principais autores em 48% dos casos.
Pedir dinheiro emprestado é adiantamento de herança
A advogada Pérola Melissa Vianna Braga abriu o debate abordando a violência patrimonial e financeira, caracterizada por:
- Apropriação indevida: uso de cartões, senhas e retenção de aposentadorias sem o consentimento do idoso;
- Coação e fraude: forçar a assinatura de contratos e procurações sob ameaça ou manipulação;
- Endividamento induzido: realização de empréstimos consignados ou venda de produtos em nome da vítima para beneficiar terceiros;
- Ocultação de bens: desvio de dinheiro ou joias dentro da própria casa.
De acordo com Braga, a exploração familiar ocorre, com frequência, por meio de táticas sutis, classificadas como "coação moral velada", em que o agressor se aproveita da solidão, da dependência afetiva e de declínios cognitivos da vítima. "Há uma manipulação nessas relações que temos dificuldade em perceber", ressalta a especialista.
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As táticas para se aproveitar da boa-fé da pessoa idosa são das mais diversas, com ênfase na extorsão disfarçada de amizade. "Aquele amigo que identifica que a pessoa idosa tem uma afinidade com gatos, e começa a pedir contribuições com rifas e doações para gatos, mas o gato nem existe."
A advogada faz um alerta: a prática de realizar doações constantes direcionadas a um único filho, em prejuízo dos demais, pode configurar legalmente o adiantamento de herança, conforme o Artigo 544 do Código Civil. "É melhor pensar duas vezes."
Denunciar não é suficiente para diminuir a violência
Embora a denúncia seja essencial para dar visibilidade ao crime e subsidiar políticas públicas, ela carrega uma contradição. "A denúncia é insuficiente para mudar a estrutura do problema, pois foca apenas na punição individual e não altera as matrizes culturais que produzem a violência", provoca a professora.
A fala é da assistente social Germanne Patricia Matos, que também participou da mesa e trouxe a dimensão estrutural dos abusos físicos aos quais a população idosa está sujeita.
A vítima enfrenta um dilema paralisante ao decidir denunciar, pois há um forte desejo de cessar a dor em conflito direto com o desejo de preservar vínculos, já que o agressor é amado por ela."
Soma-se a isso o medo de retaliação e o peso da vergonha e culpa, já que o idoso internaliza a ideia de que é um "fardo", complementa a gerontóloga. "Quando a agressão ocorre no seio familiar, ela rompe o vínculo de confiança, passando uma 'mensagem implícita' de que o corpo daquele idoso é descartável."
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