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A 'alma do cinema' ainda existe? Especialistas comentam mudanças no setor

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Agora, entrar em uma sala de cinema e deparar-se com telas de celular acesas não é mais uma exceção - Magnific
Agora, entrar em uma sala de cinema e deparar-se com telas de celular acesas não é mais uma exceção
Por Emanuele Almeida

26/05/2026 | 16h05

São Paulo - No filme “O Agente Secreto” o personagem “Seu Alexandre” (Carlos Francisco), sogro de Armando (Wagner Moura), é projecionista do Cinema São Luís. Na prática, ele opera e mantém os equipamentos na cabine para garantir a exibição do filme. 

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Hoje são poucos os projecionistas que atuam nos cinemas brasileiros. A automação de processos e tecnologias permitem que o controle seja feito remotamente, sem ninguém na sala de projeção. 

homem de camisa semiaberta em frente a projetor antigo de cinema
O ator que interpreta o projecionista Seu Alexandre no filme O Agente Secreto é o mineiro Carlos Francisco. Reprodução Instagram/@vitrine_filmes

A ausência desse tipo de profissional lança luz sobre a profunda transformação na experiência de ir ao cinema no Brasil. Hoje, esses espaços lidam com uma mudança estrutural e comportamental que redefine não apenas como assistimos aos filmes, mas onde e a que custo.

Mudança no pessoal

Profissões clássicas, como o lanterninha que atuava como um "fiscal" durante a sessão, e a do projecionista, foram extintas com o avanço tecnológico. 

A gerente de marketing do Cinesystem, Samara Vilvert, explica que a modernização dos processos internos invadiu os saguões, impulsionada tanto pela conveniência tecnológica quanto por um desafio de recursos humanos.

"A clássica imagem do bilheteiro e do atendente de bomboniere vem sendo substituída por totens de autoatendimento, onde o próprio cliente compra a entrada e se serve de pipoca", relata. 

Ela pontua que a mudança acompanha uma tendência de mercado frente à dificuldade de encontrar mão de obra disposta a enfrentar jornadas à noite, aos finais de semana e feriados. 

Disputa entre telas

Para além da mudança de pessoal, as alterações no comportamento do público também são visíveis. Agora, entrar em uma sala de cinema e deparar-se com telas de celular acesas não é mais uma exceção, mas a regra de um público com dificuldade de manter a atenção plena. Como relatam profissionais do setor ao VIVA, o problema afeta até o teatro, onde atores enfrentam espectadores mexendo no celular durante a peça.

A gerente do Cinesystem avalia que o uso do celular e as trends das redes sociais são hoje elementos inseparáveis no comportamento do público no cinema. 

A gente vive isso desde a pandemia, em que as pessoas vão viver a experiência daquele conteúdo específico. Nós vimos todo aquele engajamento com Barbie, Divertidamente e Diabo Veste Prada em que as pessoas vão até com roupas específicas, impulsionado principalmente pelas redes sociais.”

Nesse contexto, ela reforça que o celular se torna a ferramenta central dessa vivência: o público vai à sessão motivado pela trend especificamente para gravar a si mesmo cantando, se emocionando ou reproduzindo dancinhas virais para o TikTok, além de tirar fotos nos displays do cinema para provar nas redes sociais que faz parte daquele momento. 

Não assistimos mais histórias do mesmo jeito

O uso frequente do celular a partir de conteúdos rápidos e replicáveis também alterou a forma como consumimos as histórias. Plataformas de streaming exigem roteiros mais repetitivos — lembrando a tradição das novelas brasileiras — justamente porque sabem que o espectador divide a atenção da tela com o smartphone. 

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Essa é a avaliação da roteirista e responsável pelas relações institucionais do Espaço Petrobras de Cinemas, Ana Durães. Para ela, a lógica comercial das plataformas interfere diretamente na qualidade artística dos filmes para adaptá-los a espectadores distraídos. 

Essa estrutura remete à tradição da telenovela, que historicamente foi desenhada para quem acompanhava a trama enquanto realizava outras tarefas domésticas, precisando de constantes repetições para que as informações não se perdessem. Mas em uma produção de duas horas isso não faz sentido, porque torna a experiência cansativa", analisa Ana. 

Como consequência, o cinema perdeu parte de seu "encanto" tradicional, sendo muitas vezes impulsionado mais pela moda do momento do que pela natureza da arte cinematográfica em si.  

A alma da bilheteria

O professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Universidade de São Paulo (USP), Rubens Rewald explica que o público jovem sempre foi a "alma da bilheteria", mas essa nova geração cresceu lidando com telas pequenas, como celulares e computadores e já não vê muita diferença em relação ao tamanho da tela ou à natureza dos filmes. 

“Esse público não só não diferencia muito o tamanho das telas, como também não diferencia muito a natureza dos filmes. Então assistir um longa-metragem ou super produção no cinema pode ser o mesmo prazer, a mesma satisfação, que ver um vídeo cacetada no YouTube de 2 minutos”, avalia o professor. 

homem usando celular em um ambiente escuro, como cinema
Especiialistas do setor apontam que as reclamações sobre o uso de celular dentro das salas aumentaram significativamente. Magnific

Para ele, como esses conteúdos passaram a ter o mesmo "estatuto" na visão do espectador, o antigo ritual sagrado da sala escura “foi perdendo a sua aura”. Ele também contextualiza que essa perda da "natureza da arte cinematográfica" como evento principal é um processo histórico natural. 

O professor explica que nos anos 40 e 50 o cinema era soberano, mas foi perdendo o seu poder de aglutinação progressivamente ao longo das décadas para a televisão, para a internet e, agora, para as plataformas de streaming. “Hoje o setor busca se reinventar mais uma vez”, adiciona. 

Das megassalas à retração do público

Geograficamente, o cinema abandonou as ruas e se concentrou nos shoppings das metrópoles, deixando as cidades do interior desassistidas ou restritas a poucas opções de filmes. 

Para os especialistas, essa migração elitizou o acesso e extinguiu as antigas e grandiosas salas de exibição. “Se nos anos 50 a 70 era comum encontrar cinemas de rua que lotavam seus 1 mil a 2 mil lugares, hoje a realidade é dura: as grandes salas possuem no máximo 200 a 300 lugares, e a grande maioria se restringe a espaços de 100 a 150 poltronas”, observa Rewald.

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A infraestrutura encolheu, e o público também não retornou. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) de 2025 revelam que as bilheterias ainda vivem uma queda de cerca de 30% em relação aos números de 2019, antes da pandemia.

O afastamento das salas de cinema, em especial pela classe média, tem um forte componente econômico: o preço de um único ingresso muitas vezes se iguala ao valor de uma mensalidade inteira de streaming. 

E os dados mais recentes do setor comprovam que o mercado de Video on Demand (VOD) não pára de crescer, enquanto a janela do cinema tenta se estabilizar:

  • Aumento de plataformas: o mercado de streaming provou seu ritmo acelerado de expansão em 2025. O número de plataformas monitoradas saltou de 60 em 2024 para 106 em 2025, abrigando um ecossistema com mais de 138 mil títulos disponíveis ao público brasileiro;
  • Crescimento do conteúdo: o volume total de títulos disponíveis para o público brasileiro nos streamings cresceu 52% em apenas um ano. O número passou de 91.181 obras em 2024 para 138.558 títulos em 2025. 

Cinema ainda como espaço social

Apesar das drásticas mudanças de comportamento e da inegável ascensão do streaming, decretar o fim das salas de exibição é um erro. Para o professor Rewald, da USP, embora o cinema tenha perdido o forte poder de união que possuía no passado, a sua essência compartilhada sobrevive. 

O cinema tem essa experiência coletiva, de você estar com muitas pessoas tendo uma experiência em tempo real. É por isso que o cinema não morreu, o cinema tá aí, tá vivo". 


Essa visão resiliente é confirmada por quem opera o mercado. Samara, especialista da rede Cinesystem, defende que a tela grande oferece o grande trunfo de proporcionar uma "experiência coletiva que você não vai conseguir viver em casa". 

Segundo ela, o desejo atual de pertencimento e de vivenciar emoções em grupo — seja vibrando em transmissões de shows ou indo fantasiado com amigos a uma sessão nostálgica de Harry Potter — compõe um cenário de união que "o streaming nunca vai conseguir substituir".

Ela aponta que a exibição de shows de artistas globais, como Taylor Swift, Beyoncé, Billie Eilish e BTS, e eventos esportivos tornou-se uma estratégia fundamental para atrair novos frequentadores e manter a experiência viva. Ela alega que essas transmissões levam para as salas um público jovem e altamente engajado, servindo como uma alternativa para fãs que não conseguiram comprar ingressos para as apresentações ao vivo ou que moram em cidades fora da rota das grandes turnê. 

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