Beth Goulart vive Clarice Lispector no teatro: 'Ficamos melhores com o tempo'
Divulgação/Adri Lima
São Paulo - Um pouco antes de a peça "Simplesmente Eu, Clarice Lispector" ter início, a voz do ator Paulo Goulart começa a ecoar pelo teatro, dando orientações gerais para a plateia. Apesar do tom solene, Paulo faz gracejos, é brincalhão.
Para quem não está esperando tal introdução, essa voz tão familiar e, ao mesmo tempo, tão saudosa surpreende. Paulo Goulart morreu em 2014, mas permanece nesse áudio — agora eternizado —, no seu legado artístico e também no talento de sua filha, a atriz Beth Goulart. O ator deu esse presente a Beth um pouco antes de partir, quando a peça, que estreou em 2009, ainda estava em cartaz.
É uma forma de eu ter ele pertinho de mim", diz, emocionada, Beth.
A atriz reestreou o monólogo dedicado a Clarice Lispector, uma das escritoras mais importantes do século 20, no ano passado, no Rio de Janeiro, e agora faz temporada em São Paulo, no Teatro Moise Safra, até 28 de junho.
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Após se ouvir a voz de Paulo Goulart, o público é impactado novamente logo na sequência, quando a atriz atravessa as cortinas e surge no palco, já como Clarice. Para além da caracterização, Beth parece incorporar a escritora, com uma interpretação densa e precisa, no gestual, nos trejeitos e no jeito muito particular de Clarice falar.
Quem não conheceu Clarice Lispector, morta aos 56 anos, em 1977, pode encontrar trechos de vídeos da autora na internet e ver que a personagem incorporada pela atriz se espelha, de forma impressionante, com a real.
Pudera: Beth mergulhou em sua vida e obra há mais 17 anos, por meio de muita pesquisa e preparação, e com o apoio de textos e materiais audiovisuais disponíveis dela. E, mesmo com a pausa de dez anos do espetáculo, a escritora nunca se afastou da atriz.
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Os textos de Clarice também chamam atenção pela atualidade. De uma forma intensa e, mesmo assim tangível, a escritora se aprofunda em questões existenciais, do universo feminino e sobre seu estranhamento em relação ao cotidiano.
O importante é saber como a literatura de Clarice consegue ultrapassar esse tempo e dialogar com uma nova sociedade", analisa a atriz.
Com 52 anos de carreira e 65 de idade, Beth Goulart faz parte de uma das famílias artísticas mais queridas do Brasil. Além do pai Paulo, ela é filha da atriz Nicette Bruno (que morreu vítima de covid-19, em 2020), e é irmã dos atores Paulo Goulart Filho e Bárbara Bruno. Também escritora, ela usa suas redes sociais para falar de temas como bem-estar, espiritualidade, saúde da mulher, como menopausa.
Veja os principais trechos da entrevista exclusiva que a atriz deu ao VIVA.
VIVA: “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” volta aos palcos depois de dez anos. O que significa para você revisitar essa peça hoje?
Beth Goulart - Na verdade, ela nunca esteve muito longe de mim. Esteve sempre dentro de mim, e esse tempo em que ficamos afastadas foi um momento de hibernação. Eu sempre soube que ia retornar com essa peça. Paramos em 2014, por conta da perda do meu pai. Depois me dediquei a outro projeto, que foi “Perdas e Ganhos”, que adaptei e dirigi para a minha mãe.
Nesse meio tempo, todos nós vivemos uma pandemia e acabei perdendo também minha mãe. Então, foram duas perdas muito significativas. A pandemia transformou todos nós, e esse retorno veio para homenagear um pouco esses meus 50 anos de carreira. Na verdade, estou com 52 anos de carreira, é uma data importante de se valorizar.
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E Clarice Lispector foi descoberta por uma nova geração, isso me deu uma alegria imensa. Tem uma geração nova que não viu esse trabalho. Há dez anos, quem tinha 10 anos hoje tem 20, muda muito. E aí o que acontece quando você volta depois de um tempo? Tudo ganha vida de novo, só que num outro lugar, porque, por mais que por fora tudo seja igual – é o mesmo cenário, é o mesmo texto, as marcações – por dentro, a gente está diferente, e isso muda tudo.
Ganhei camadas mais profundas de compreensão da vida. Por exemplo, há dez anos, nunca tinha vivido uma perda. Então, quando hoje eu falo da morte (no palco), falo tendo vivido essa experiência. Tudo o que a gente vive fica impregnado na gente, na nossa visão de mundo.
Como foi esse processo do tempo para você?
Para mim, o tempo é um depurador de quem somos. Acho que ficamos melhores com a passagem do tempo."
A maturidade é justamente isso: é extrair, aprimorar o que você tem de melhor, e abrir mão do que não tem tanta necessidade. Quando somos jovens, por exemplo, temos muita ansiedade. Ansiedade não é uma coisa muito boa para a gente. Faz com que a gente acelere as coisas, entre num processo de cobrança muito maior, queira agradar aos outros mais que a gente mesmo. Os jovens vivem isso intensamente.
Quando a gente vai ficando mais velho, diz “não preciso agradar a ninguém, preciso agradar a mim mesmo, preciso ser fiel a mim”. Aprende a falar “não”, o que quer e o que a gente não quer, tem uma visão melhor sobre a vida e sobre nós mesmos. A gente vai ficando até mais leve.
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A gente se dá conta do envelhecimento quando pessoas mais velhas da família começam a morrer. Foi assim com você também, com seus pais, por exemplo?
Com eles, acho que não, porque perdi relativamente jovem meus pais. Ainda me considero jovem. Meu pai faleceu com 82 anos, minha mãe, com 87, mas hoje em dia as pessoas vivem 90 anos. Antigamente, com 60 anos, uma pessoa era considerada idosa, hoje só com 90. Ganhamos 30 anos de expectativa de vida. Você vai fazer o quê? Sentar e esperar morrer? Deus me livre! Quanto mais ativo você é, melhor você passa seu tempo.
Por exemplo, sou embaixadora do Supera, que é um método de exercício para o cérebro. É importantíssimo você exercitar o cérebro. Você sabe que o cérebro é o órgão que, diferentemente dos outros, não para nunca de se desenvolver? Então, se você der estímulo para ele, ele continua se desenvolvendo. Você está com 60 anos e diz “não sei o que fazer da minha vida”. Vai aprender uma língua, uma coisa que você sempre gostou e nunca fez.
Vendo você no palco, percebe-se que tem também um trabalho corporal intenso. Há uma preparação para a personagem e outra, para o seu dia a dia?
Sempre fiz pilates, caminhada, mas comecei a ver que, se eu só marcasse hora para fazer isso, às vezes eu poderia não ir naquela aula. Comecei a fazer uma coisa todos os dias: acordo de manhã, faço minhas orações e, depois, uma sequência de 40 minutos a 1h de exercícios. Faço uma série de exercícios que prepara meu corpo para a vida, independentemente do que vou fazer. E comecei a sentir uma melhora muito grande com isso.
Para o palco, chego três horas antes. Durante uma hora, eu aqueço corpo e voz, porque também canto, e duas horas para eu virar Clarice, porque uso meu cabelo para fazer a peça. Esse tempo, eu passo todo o texto da peça. Então, todos os dias, passo o texto, porque é um texto muito preciso. É uma prosa poética, você não tem como trocar uma palavra por outra, pegar um sinônimo. Ela escolheu essa palavra, então você tem que ser fiel a essa palavra. É uma forma também de eu me desligar da vida de fora, me desligar da Beth, e entrar no universo de Clarice.
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Antes de entrar em cena, a voz do seu pai dá orientações ao público. Como é ouvi-lo toda vez antes de cada espetáculo?
É maravilhoso, foi um presente que ele deixou para mim. Na última temporada, antes de falecer, ele se ofereceu para gravar a ficha técnica do espetáculo. Eu ia gravar, mas aí ele disse: "Você não quer que eu grave?". "Mas o senhor quer gravar?". Ele disse: "Você me daria essa honra?". "A honra é toda minha?".
Ele gravou de uma forma tão especial, porque ele faz umas brincadeirinhas no meio, manda recado para a plateia.
Ele me deixou essa pérola de presente, que eu gosto de compartilhar com as pessoas. É uma forma de eu ter ele pertinho de mim.
Tivemos o Dia das Mães recentemente. Como foi ressignificar a partida dos seus pais nessas datas?
O primeiro ano da perda é o ano do luto, é necessário que você viva esse luto, que sinta as dores, sinta tudo o que você precisa sentir nesse primeiro ano, porque é muito difícil mesmo. É quando mais dói viver todas essas datas.
Minha mãe faleceu em 20 de dezembro, pertinho do Natal. O primeiro Natal foi muito dolorido. O primeiro Dia das Mães foi difícil, o Dia dos Pais também. Mas você compreendendo que, na verdade, eles estão em outra dimensão. Realmente acredito nisso: eles estão existindo em um outro plano, no plano espiritual. Tenho tanta certeza disso, tanta fé. Sinto a presença deles muitas vezes comigo, então, não tenho dúvida nenhuma em relação a isso.
Você usa as redes para falar de temas importantes, como menopausa. Qual a importância de tratar desse assunto?
A informação é bem-vinda em todos os momentos da nossa vida, principalmente nesses que causam transformações na gente. Então, é importante compreender o que está acontecendo com você, para aprender a lidar com isso. Passei pelo processo de menopausa logo depois do falecimento do meu pai. Eu estava fazendo uma novela, inclusive. Estava gravando e, no meio a gravação, vinha aquele calorão (risos). Eu falava: "Gente, desculpa, estou em processo de menopausa".
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Era a perimenopausa, que é antes da menopausa, e eu não quis reposição hormonal, não tomei remédio nenhum. Eu lidei como: aumentei soja, eu tomava lecitina de soja, tofu, farinha de soja, eu tomava óleo de prímula. Isso ajudou bastante.
Mas com acompanhamento médico?
Na verdade, fiz uma reposição hormonal mais natural, não recorri a medicamentos. A minha irmã, por exemplo, precisou recorrer, porque ela teve tão intenso esse processo que ela se desregulou inteira, e mexe mesmo com a gente. Por exemplo, o metabolismo fica mais lento, você engorda com mais facilidade.
Fiz trabalho com nutricionista, isso sim. Me ajudou bastante. Foi através da alimentação que consegui, de alguma forma, suplementar algumas necessidades. Por exemplo, a falta de sono. Comecei a tomar melatonina, coisas assim. Consegui passar por isso não de uma forma traumática.
E é um tema sobre o qual você gosta de levar esclarecimentos nas suas redes
Sim, acho que as redes sociais são instrumentos muito importantes para levar conhecimento para as pessoas, comprensão da vida, em todos os sentidos.
A gente não é só um corpo físico, temos vários corpos: físico, mental, emocional e espiritual. Você tem que tratar dessa harmonia do todo para ter a saúde como um equilíbrio.
A doença é a falta de equilíbrio. Então, se você encontrar equilíbrio sempre, em todos os lugares da sua vida, você vai estar no caminho certo.
SERVIÇO
"Simplesmente Eu, Clarice Lispector", de Beth Goulart
Local: Teatro Moise Safra
Endereço: Rua Prof. Walter Lerner, 315 (antiga Rua Inhaúma), Barra Funda - São Paulo, SP
Temporada: Até 28 de junho; sexta, às 20h; sábado e domingo, às 19h
Ingressos: R$ 120 (inteira), R$ 60 (meia) e R$ 50 (social)
Vendas: bilheteria do Teatro Moise Safra, nos dias do espetáculo, 1 hora antes da sessão, ou online: Sympla
Telefone: +55 11 96892-4562
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