Ivan Lins lembra de antiga crise com Elis e celebra 80 anos em nova turnê
Divulgação/Leo Aversa
São Paulo - Ivan Lins completa 80 anos de vida e 55 de carreira em um de seus lugares preferidos no mundo: o palco. Com uma respeitada obra musical marcada por canções populares não só na sua voz, como também na de suas principais intérpretes, como Elis Regina, o cantor, compositor e pianista coleciona sucessos como Madalena, Bilhete, Abre Alas, Vieste, Vitoriosa, Dinorah, Dinorah, Ai Ai Ai Ai Ai, O Amor é o Meu país, entre tantos outros.
Sem contar as músicas que foram tema de abertura de produções na TV, como Começar de Novo, gravada por Simone, para a série Malu Mulher (exibida entre 1979 e 1980), e Lembra de Mim, na interpretação do próprio Ivan, na novela História de Amor (que foi ao ar de 1995 a 1996).
No momento de montar o repertório da turnê Ivan Lins, 80 Anos, que volta ao Rio de Janeiro, neste sábado (11), no Qualistage, o músico sabia da importância de contemplar seus hits, mas também de jogar luz no ecletismo de seu cancioneiro: as letras de amor — que versam sobre relações bem-sucedidas e separações —, uma de suas facetas mais proeminentes; os sambas; as canções engajadas; e até mesmo a música sertaneja, interiorana, sob forte influência de Vítor Martins, nascido em Ituverava-SP, um dos principais parceiros na carreira de Ivan por décadas.
Por isso, esse roteiro afetivo do show, que tem direção de seu filho, o ator e cantor Claudio Lins, contempla as várias fases do compositor, podendo passar porDaquilo que Eu Sei; chegar mais adiante em Bandeira do Divino e Olhos Pra Te Ver; seguir pela inédita Meninos de Gaza (parceria com Simone Guimarães), que dialoga no palco com a tocante Aos Nossos Filhos; e emendar com outro clássico, Cartomante.
“Fomos tentando contar uma história, mas sem ordem cronológica”, diz Ivan Lins.
Existe um roteiro a ser seguido, mas o músico se dá ao direito de não se sentir paralisado por ele. Por isso, um causo que Ivan eventualmente compartilha com o público em um show não necessariamente estará em outro; assim como os músicos de sua banda — e o próprio Ivan — têm liberdade de improvisar, como se todos estivessem em uma apresentação de jazz.
Em entrevista ao VIVA, por telefone, do Rio de Janeiro, Ivan Lins fala sobre a turnê de celebração de seus 80 anos, que teve início no ano passado, sobre uma antiga história com Elis que veio à tona agora, justamente quando o músico estruturava o repertório do novo show, e conta como se prepara fisicamente para estar no palco, lugar de onde ele não tem planos de se afastar tão cedo.
VIVA - Durante o processo de montagem do repertório desse show, alguma história ou lembrança voltou à tona?
Ivan Lins - Sim, elas aparecem. Recentemente, quando eu estava colocando Começar de Novo no roteiro, lembrei de uma história. Essa música foi feita para uma série, Malu Mulher. E foi uma encomenda da TV Globo. Aliás, uma encomenda pessoal do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, que estava no comando da emissora na época). Mandaram a sinopse. O Vítor (Martins) escreveu a letra antes. Depois, me mandou para eu colocar a música. E foi muito difícil, por causa da responsabilidade. Havia uma grande expectativa em relação a essa série. Levei um mês para colocar música. Eu normalmente não levo esse tempo todo.
Em geral, quanto tempo você leva?
Às vezes, em um dia mesmo, eu consigo fazer tudo. Outras vezes, em dois, três, mas não passa de uma semana. Essa, não: eu fazia uma, não gostava, jogava fora; fazia outra, não gostava, jogava fora. Eu estava ainda no meio (do processo), ainda nas tentativas, quando a Elis Regina foi com o César Camargo (Mariano, marido da cantora, pianista e arranjador), lá na minha casa, no Leblon. Foram fazer uma visita.
Conversamos, foi muito agradável. A gente tinha uma relação muito bonita. Ela perguntou se eu tinha música nova. Mostrei algumas coisas que eu já estava fazendo. Eles foram embora. Quando eu acabei a música Começar de Novo, entreguei na mão da Globo, que resolveu negociar a intérprete da música com duas gravadoras.
Então, tinham duas da Universal, que era PolyGram na época: a Elis e a Bethânia. E tinha uma da EMI, que era Simone. Soube isso quando já estavam quase escolhendo. Aí escolheram a Simone.
De repente, a Elis esfriou comigo. Fiquei: O que será? Será porque eu não fiz força para ela gravar, porque eu não interferi em nada. Era uma coisa de encomenda e quem sou eu para chegar para o Boni e falar: Eu quero a Elis.
Eu não podia fazer isso, eu adoraria que a Elis tivesse gravado, mas isso era uma coisa que não dependia mais de mim. Dependia da negociação com a gravadora. E acho que, no começo deste ano, no final do ano passado, me caiu uma ficha: naquele dia que a Elis foi lá em casa, será que ela já não sabia que eu estava fazendo a música para a série? Alguém bateu para ela que eu estava fazendo e ela foi lá para eu mostrar antes para ela? Ela deve ter ido sondar, mas eles não falaram nada. Contei para o Claudio, e ele falou: Não é possível, acho que foi isso. Porque a Elis era muito bem informada.
Ela esfriou com esfriou com você e depois vocês voltaram a se falar eventualmente?
Não, ficou muito estranho. Era assim: Oi, tudo bem e tchau.
E isso nunca foi esclarecido, porque ela morreu pouco tempo depois, em 1982...
Ficou mal resolvido, e nunca tinha me passado pela cabeça falar com o Cesar. Porque só fui desconfiar disso no final do ano passado, começo desse ano. Ele deve saber.
Então, você nunca foi atrás dela para entender o que aconteceu?
Não, eu era muito tímido nessa época. Fiquei com medo de ir lá. Ela era a famosa 'Pimentinha', ela ia começar a descascar em mim. Vamos deixar esfriar. Mas não deu tempo.
Temos visto alguns contemporâneos seus se despedindo dos palcos, como Gilberto Gil e Martinho da Vila. Parar de fazer show não é algo que você cogita no momento?
Eu adoro o palco, adoro o que eu faço. Gosto muito de estar com as pessoas e de compartilhar minha música com elas. Não me sinto sozinho no mundo, preciso ter esse público perto de mim. Já pensei em diminuir, mas não parar. É a única coisa que eu sei fazer.
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Quer dizer, eu posso ficar em casa compondo. Adoro compor. Mas esse contato com o público é maravilhoso. E mesmo que eu quisesse parar, não poderia. A internet acabou com os direitos autorais. Jogou o direito autoral lá embaixo. Os compositores, os músicos e tudo... Fomos para o final da fila. Do que entra da utilização de música na internet, sobraram só 10% para a gente. Então, 90% 'morrem' com as gravadoras, com as plataformas, com as editoras, e autor, intérprete, músico têm que dividir os 10% que sobram.
Então, pensando também financeiramente, não dá para parar.
Eu só vivo de palco, 80% do meu dinheiro vem do palco.
E o restante?
Vem da venda de algum CD, que já não vende mais; de direito autoral, que vem dos meus shows, porque, quando eu faço show, praticamente todas as canções são minhas, com meus parceiros. Então, ali ganho um pouquinho mais. E a execução da minha música em novela, em programações de rádio, etc. Seriam os outros 20%, porque da internet, eu não conto.
Fazer show, turnê é uma maratona. Como você se prepara fisicamente?
Faço ginástica, e não posso parar. Estou numa idade que, se eu não fizer ginástica, vou para a cadeira de rodas. Faço musculação, caminho, faço aeróbico também. Porque eu espero ainda que tenha pelo menos mais uns cinco, seis anos de viagem, fazendo shows por aí. Aqui e fora do Brasil.
Hoje já percebo o peso da idade evidentemente, mas tive a sorte de meu pai incutir isso na minha cabeça e dos meus irmãos, de fazer esporte. Fui esportista. Durante muitos anos, além da música, eu jogava vôlei na praia. Hoje sinto como isso me ajudou muito.
Fui fumante, parei de fumar já há quase 40 anos. Também diminuí a bebida. Mas minha agenda é muito doida. Tem dentista, aí você tem que ir no nefrologista, para ver seu rim. Você tem que ver seu coração, vai ao cardiologista. Aí tem aquela dor nas costas, vai ao ortopedista. Aquela dor no joelho. Tenho que também ficar de olho nessas coisas. Bateu os 80, minha filha, a fotografia é linda, mas a radiografia... (risos)
SERVIÇO
Ivan Lins, 80 Anos
Data: 11 de abril (sábado)
Horário: 21h30
Local: Qualistage
Endereço: Avenida Ayrton Senna, 3000, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro - RJ
Ingressos: A partir de R$ 90,00
Bilheteria Oficial: Shopping Via Parque - Av. Ayrton Senna, 3.000, Barra da Tijuca, RJ
Vendas: site da Qualistage
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