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João Gordo volta ao Rock in Rio': 'Entrei na 3ª idade com o pé na porta'

Divulgação/Marcos Hermes

João Gordo está de volta ao Rock in Rio, no dia 6 de setembro, agora com o Asteroides Trio - Divulgação/Marcos Hermes
João Gordo está de volta ao Rock in Rio, no dia 6 de setembro, agora com o Asteroides Trio
Por Adriana Del Ré

05/09/2026 | 08h00

São Paulo - João Gordo faz parte da história da música no Brasil. À frente do Ratos de Porão desde 1983, ele ajudou a dar a cara do punk rock nacional junto com outras bandas como Inocentes, Garotos Podres e Restos de Nada. Apesar dessa importância como pioneiro, o Ratos só entrou na programação do Rock in Rio, na Cidade do Rock, pela primeira vez, em 2022 – ou seja, 37 anos depois da 1ª edição do festival.

Na época, a banda comemorava mais de 40 anos de estrada, mas João subiu ao palco com a saúde debilitada, precisando até do auxílio de uma bengala. "Eu estava muito doente, com 190 kg. Estava malzão. Lembro que foi bem difícil para eu fazer esse Rock in Rio", lembra o músico paulistano, hoje com 62 anos, em entrevista ao VIVA, em sua ampla casa, na Vila Madalena, em São Paulo. 

Quatro anos depois, João Gordo volta ao mesmo palco do festival, o Supernova, agora acompanhado pelo Asteroides Trio, seu outro projeto musical, com o qual se apresenta neste domingo, 6 – com 64 kg a menos, longe das drogas pesadas e do álcool, e com a terapia em dia. E o Rock in Rio 2022, de certa forma, funcionou como uma chave dessa virada.

Entrei na terceira idade com o pé na porta. Falei: 'se eu não me ligar, vou morrer logo'", conta.

Homenagem aos Ramones

O quarteto, liderado por João Gordo, usa roupas pretas e pele pintada de vermelho
João Gordo e o Asteroides Trio fazem homenagem aos 50 anos do primeiro álbum dos Ramones, no Rock in Rio - Divulgação

É um outro João Francisco Benedan – seu nome de batismo –  em relação aos cuidados com a saúde, mas é o mesmo João Gordo de sempre quando o assunto é música e suas influências.

Nesta edição do Rock in Rio, João Gordo e Asteroides Trio fazem tributo aos 50 anos do álbum de estreia dos Ramones, com o show "Blitzkrieg Psycho Bop Ramones 50", numa mistura de psychobilly, rockabilly, punk e horror rock. Por aquelas coincidências da vida, o Ratos de Porão chegou a abrir três shows da lendária banda norte-americana em 1991, em São Paulo.  

Asteroides Trio é mais um de muitos projetos liderados pelo músico, e que revelam uma versatilidade musical que talvez nem todos conheçam. Há outras facetas por trás dessa figura sempre sincerona e irreverente. E como no peito de um punk também bate um coração, ele é casado há 25 anos com a jornalista argentina Viviana Torrico, a Vivi, com quem tem dois filhos. 

Também gateiro, colecionador, vegetariano e ex-apresentador da MTV, João Gordo falou com o VIVA sobre saúde, envelhecimento e como lida com o diagnóstico de Alzheimer de sua mãe de 85 anos. Leia os principais trechos. 

VIVA: O que é ser punk nos dias de hoje, aos 62 anos?

João Gordo: É o estilo de vida que eu escolhi. Desde os 13 anos que estou nessa. Lógico que teve altos e baixos, mas estou marcado por isso pelo resto da minha vida. Não tem como sair disso, cara. E, para mim, ser punk é ser antifascista. Esse é a minha bandeira principal: o antifascismo. Isso engloba um monte de coisa: onde toca e onde não toca; o que faz e o que não faz. Tem essa ideologia que a gente segue à risca.

Você vai voltar ao Rock in Rio para homenagear os 50 anos do 1º álbum dos Ramones. De que forma esse álbum te impactou quando garoto?

A primeira vez que eu ouvi os Ramones não foi pelo disco, foi pela coletânea “Revista Pop Apresenta o Punk Rock”. Esse disco saiu em 1977, era uma coletânea do Okky de Souza, em que juntou um monte de compactos da época. Ramones, Ultravox, The Jam, Sex Pistols. Foi a primeira vez que eu ouvi a música “Now I Wanna Sniff Some Glue”, aquela “Loudmouth”, tá ligado? Aquilo já me impactou, porque não tinha solo, aquela coisa básica, simples. E quando eu vi a capa do primeiro (álbum) dos Ramones na casa de um amigo, aquilo me impactou tanto, aquela calça rasgada. Eu nunca tinha visto aquilo na minha vida.

Como vai ser essa homenagem no Rock in Rio?

O (curador Roberto) Verta queria uma coisa meio inusitada. O Ratos de Porão tocando Ramones não é tão inusitado. Tenho vários projetos: o de ska, o de death metal, o de drum and bass, o de música brega. E, entre os principais projetos, esse aí é inusitado, porque a gente toca psychobilly e rockabilly. Então, tem toda aquela roupagem rock and roll antigo. Falei: "dá para fazer as versões do primeiro Ramones, de cabo a rabo, psychobilly". Está ensaiadinho. São 14 músicas e 28 minutos. Todas as faixas, lado A e lado B. Sou ainda do lado A e lado B.

O 1º Rock in Rio em que você participou foi em 2022. Por que você acha que demorou 40 anos para a banda participar do festival?

Primeiro é que o Ratos de Porão nunca fez parte do rock nacional. Estava sempre outsider total. Onde tinha Raimundos, Pitty, Planet Hemp, Charlie Brown Jr. não é lugar para o Ratos de Porão A gente é uma banda underground. Até para a gente tocar por reconhecimento demorou bastante. A gente toca em tudo que é festival no mundo inteiro, por que não vai tocar no Rock in Rio? Então, acho que teve reconhecimento, embora tardio. Nunca me importei com isso, para falar a verdade. Acabei de voltar de uma turnê. Foram 15 shows em 17 dias na Europa. Estou em 62 anos. Não é qualquer moleque que faz essa doideira de viajar 500 km por dia, chegar a um show e fazer uma hora de gritaria. Estou conseguindo ainda. Então, tem muita lenha para queimar ainda.

Em 2022, você não estava bem fisicamente.

Eu estava ‘podrão’. Como tinha ficado internado por pneumonia, eu tinha tomado muito corticoide. Aí fiquei gigante na pandemia. Isso foi afetando, já não conseguia mais andar direito, não conseguia subir escada, estava fraco. Falta de vitamina pra caramba. Eu estava enorme, mas eu não tinha B12. Tenho esses problemas: B12, ferro. Resolvi me cuidar, e consegui perder, de dois anos para cá, 64 kg. Estou ótimo. Acho que a melhor fase da minha vida é agora.

Você tem outros projetos que mostram sua versatilidade na música, como você citou. Essa liberdade de transitar por outros gêneros é algo que veio com a maturidade?

João Gordo tem barba branca e roupa preta
João Gordo passou a cuidar da saúde e perdeu 64 kg nos últimos dois anos - Divulgação/Marcos Hermes

Eu, na verdade, canto qualquer coisa, até ópera. Todos meus projetos começaram na pandemia. E essa facilidade da tecnologia faz eu gravar aqui em casa. Os caras me mandam por WhatsApp o áudio, gravo o vocal, mando de volta. Tenho tanto projeto que meio que as pessoas que não sabem bem. O primeiro projeto que tenho da pandemia é o Lockdown, que é uma banda de death metal que fiz com o Antônio (Araújo), o guitarrista do Matanza Ritual.

Depois veio o "Brutal Brega", são três discos transformando as músicas em punk rock. O primeiro disco é de música brega; o segundo, de MPB; e o terceiro, que estou terminando, é de samba. É bem louco. E tem o Asteroides Trio, os caras foram tocar na minha loja, achei legal essa postura de psychobilly. E uma banda importante também dos projetos é o João Gordo e o Babylons P. Ele é DJ de dubstep, um som industrial pesadíssimo. O mais legal de tudo isso é que agora resolvi fazer ska. Uma banda chamada Poplars. Não paro nunca e  acho muito boa essa versatilidade minha.

Sobre sua fase na MTV, concorda que ela transformou o João Gordo do underground em um ícone pop?

Não tive que mudar um nada (na MTV). Sempre fui louco, drogado. E foi aquilo ali, me jogaram na televisão e o pessoal meio que abraçou esse estilo que eu tinha. Maior gordão maluco ao vivo de tarde, falando um monte de ‘groselha’, e o pessoal abraçou. Isso me impactou positivamente, porque fiquei conhecido, e negativamente também, por causa das ‘groselhas’. Os programas que eu tinha, aquele “Gordo Freak Show”, eram um bagulho que não passaria jamais hoje. Mostro para os meus filhos e eles: ‘pai, que é isso?’. É, podia... Para mim, foi muito satisfatório. Até hoje todo mundo me conhece (por causa da MTV).

Mas estavam puxando meu tapete, foi bem na época do stand-up, tinha aquele monte de humorista, e a gente que era a cara da MTV estava meio ficando de lado. Aí apareceu o Marcos Mion com uma proposta gigantesca ("Legendários", na Record), e fui para lá. Loucamente louco. Só que não foi legal. Esperei parar o contrato, e voltei para o underground e para o lance de internet.  

Voltando a essa questão da saúde, você já disse que tem sorte de estar vivo. Como acha que os excessos da juventude refletem hoje na sua saúde e no seu processo de envelhecer?

Entrei na terceira idade com o pé na porta. Eu me liguei, falei: "se eu não me ligar, eu vou morrer logo". Vejo todo mundo caindo à minha volta, com 63, 64, 65 anos. Eu estou com 62. Falei: "vou ter que tomar jeito, cara". Aí parei de beber. Parando de beber, parou com todos os excessos. Lógico que tive recaída. Se você quer parar com todos os excessos, tem que sair do meio. Sai do meio e tudo bem. E quando você é o meio? Você tem que viajar onde só tem loucura, você chega no lugar e ficam oferecendo mundos e fundos. Tem que ter força de vontade. Eu consigo. É a melhor fase da minha vida, porque está tudo controlado. Comecei a ir ao psicólogo. Tem um monte de gente me ajudando, estou bem assessorado. Essa última fase da minha vida, acho que vou conseguir passar sem maiores dificuldades. Ou você põe a ordem na casa ou você morre. É a lei da vida, cara.

Essa virada de chave para cuidar da saúde veio depois do Rock in Rio de 2022, de parar com droga pesada, com álcool? 

Sim, estou há dois anos trabalhando nisso, justamente com psicólogo, com médicos. E estou conseguindo. Lógico que estou velho, tenho dores de junta, mas é o que eu falei: ainda consigo dar um show de uma hora gritando. É uma energia que moleque não tem.

O estopim dessa virada foi não querer morrer. O fato de ser pai também ajudou nisso?

Desde que a Vivi resolveu ser a minha mulher – estamos juntos há 25 anos – já começou o processo. Mas já tive altos e baixos. Eu no pântano e lutando contra os crocodilos. Então, é uma coisa meio difícil, mas ultimamente é a minha fase mais tranquila com tudo.

Você e a Vivi mantêm um projeto social. Como ele funciona?

João Gordo está apoiado em uma mesa durante seu programa na MTV
Como apresentador, João Gordo fez sucesso na MTV, em programas como "Gordo a Go-Go" - Reprodução/MTV

Esse projeto abrangeu a nossa vida, da família inteira. A gente vive em função disso hoje. Na pandemia, a Vivi entrou em parafuso por causa de uns amigos nossos, carregadores de carrinho, que estavam passando fome. Ela foi entregar esfiha, coxinha vegana para eles, e viu que não tinha comida para todos, voltou em prantos para casa e falou: "preciso fazer alguma coisa, vamos ajudar". Isso no comecinho da pandemia, o dia que teve o lockdown. Fizemos 78 marmitas e levamos para os caras. Hoje, o nosso Solidariedade Vegan, que é uma ONG, cuida da Tekoa Itakupe, aldeia indígena que tem no Pico de Jaraguá. Mas, no frio, a gente faz campanha de agasalho, leva sopa. A Vivi é a detentora de toda a ação, só estou junto porque sou marido e também vou às ações. O negócio ficou grandão.

Você é vegano há uns 20 anos, certo?

Não, sou vegetariano desde 2004, e nesse meio tempo fui vegano por quatro anos. Voltei a ser vegetariano justamente por causa da minha falta de ferro, de B12, porque sou operado e meu intestino não capta isso. Então, fico muito doente. Não posso ser vegano, porque eu como tudo errado. Sou vegano de Doritos com Coca-Cola.

Quando você virou vegetariano, foi primeiro por uma questão de saúde e depois virou um ativismo pela causa animal?

Geralmente, é uma coisa mais política do que a questão de saúde. O lance do hardcore, do punk sempre esteve atrelado ao vegetarianismo, que é uma coisa bem radical, contra o sistema, contra a matança de bicho, a crueldade. Na minha banda, já tinha o Boka, que era vegetariano, o Juninho, baixista, que entrou na banda e é vegano, vegan straight, os caras que não se drogam. E aí me influenciou a parar de comer carne, que já não me fazia bem. Já comi carne por engano e foi brutal. O gosto é sebo puro, o cheiro de frango me dá náusea. Não consigo comer.

Hoje que tipos de doença você precisa controlar?

Acho que é mais a minha cabeça mesmo. Preciso de um psicólogo para conversar. É muita doideira. Como agora: voltei desse turbilhão de 15 shows em 17 dias. A minha cabeça não dá conta de registrar tudo o que acontece. Acabou e, de repente, estou aqui. Aí problemas familiares. É muito difícil o retorno, você pegar a rotina, demora uns quatro, cinco dias. Como as minhas doenças estão todas controladas praticamente – sou diabético desde que tinha 10 anos – acho que é mais a minha cabeça mesmo, tenho que cuidar dela. 

Vi você falando sobre o diagnóstico de Alzheimer da sua mãe e como isso tem mexido com o seu lado emocional e psicológico.

A minha mãe virou um bebê. No começo da doença, ela estava agressiva. Ela tinha os ataques de querer voltar para casa dela que não existe mais, meu pai morreu. Graças ao canabinoide (substância encontrada na planta da cannabis)... Esses dias, minha irmã postou ela antes e agora. Ela não mora aqui, vive em Angatuba (interior de SP). É chocante. Antes, ela queria brigar: "quero sair, abre o portão, quero ir embora para minha casa!". Agora está totalmente boazinha, muito bom.

Como isso mexe com vocês também?

É triste, porque ela não lembra mais de mim. Chego lá e começo a cantar para ela umas músicas antigas, uns Nelson Gonçalves, umas Emilinha Borba. As letras ela sabe, ela canta tudo, essas coisas das memórias antigas. Mas ela não lembra mais de mim, nem da minha irmã.

E parece que se invertem os papéis: os filhos passam a cuidar dos pais...

Sim, ainda bem que minha irmã tem condições. Nesse momento, ela me poupou  desse trabalho que é cuidar da minha mãe, porque ela cuida dela. Tem muita gente que manda a mãe para o asilo. E a minha mãe está tendo um final de vida toda amada, toda bem cuidada.

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