'A vida não para', diz paulistano diagnosticado com Alzheimer precoce aos 56 anos
Gui Pimenta
São Paulo - Aos 59 anos, o paulistano Rogério Bech traz no olhar e na fala a lucidez de quem decidiu não se esconder atrás de uma condição médica. Diagnosticado com Alzheimer precoce aos 56 anos, o ex-diretor de recursos humanos — que iniciou sua trajetória profissional ainda na adolescência, aos 14 anos — viu sua rotina e sua carreira passarem por uma reviravolta profunda.
Mas, longe de se entregar ao estigma que cerca as doenças neurodegenerativas, Bech escolheu o caminho do enfrentamento ativo. Sua principal bandeira hoje resume-se a uma postura de compromisso com a própria autonomia: "Se cuidar também, tendo o diagnóstico".
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O que é o Alzheimer precoce?
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que configura o Alzheimer precoce é o início dos sintomas antes dos 65 anos de idade. A entidade estima que os casos de início precoce representam uma fatia consolidada de 5% a 10% de todos os pacientes diagnosticados com Alzheimer no mundo.
No caso de Bech, os primeiros sinais surgiram de maneira sutil. Pequenas falhas de memória no dia a dia, esquecimentos bobos e uma leve dificuldade de atenção começaram a incomodá-lo.
"Na época, trabalhava de forma autônoma em uma consultoria, até que meu sócio e amigo de longa data percebeu que eu já não conseguia acompanhar o ritmo habitual de trabalho. Depois disso, resolvi me afastar do trabalho e procurar ajuda", conta.
O alerta definitivo, no entanto, veio de forma inesperada: ao acompanhar sua mãe, que também vive com Alzheimer, a uma consulta neurológica, Bech percebeu que não saberia responder às perguntas básicas que o médico fazia a ela.
Eu pensei: 'Putz, eu não responderia essa pergunta, eu não tenho condições de responder essa pergunta", recorda.
O episódio o levou a procurar um especialista e, após testes detalhados, veio a confirmação do diagnóstico aos 56 anos.
Poder do autocuidado
Para Bech, aceitar o diagnóstico foi um processo extremamente difícil, mas essencial para que ele pudesse agir a tempo. Hoje, ele é um defensor ferrenho de que as pessoas procurem ajuda médica ao menor sinal de falhas constantes na memória.
O quanto mais cedo você perceber que está tendo suas falhas e o quanto antes procurar uma ajuda, é a melhor decisão", aconselha.
É esse diagnóstico precoce que, na sua opinião, garante que ele continue ativo, capaz de dialogar com clareza, correr na rua e saber exatamente onde está. Seguindo à risca as orientações de seu médico e de sua neuropsicóloga, Rogério Bech transformou sua rotina em uma barreira de proteção contra o avanço da doença. Ele mantém o corpo em movimento por meio da musculação na academia e de corridas frequentes.
Para exercitar a mente, dedica-se intensamente à leitura de livros e jornais, mantendo-se sempre conectado aos acontecimentos do mundo. "Cheguei a frequentar treinos cognitivos focados, mas, com o avanço sutil da doença, percebi que já não conseguia acompanhar a velocidade dos exercícios propostos e preferi focar nas leituras diárias", lembra.
Além disso, cuidou da nutrição e reduziu em cerca de 90% o consumo de bebidas alcoólicas, reservando apenas doses muito suaves para os fins de semana. O tratamento, como ele e a família defendem, é holístico: envolve remédios, mas depende fundamentalmente de hábitos saudáveis e de estímulos constantes.
Família tem que se adaptar
Para Karin Bech, 56, esposa de Rogério, o diagnóstico reviveu uma experiência ruim de algo que já tinha vivido. Quando ela tinha apenas 19 anos, sua própria mãe foi diagnosticada com Alzheimer precoce, aos 56 anos. Décadas depois, ver o marido enfrentar a mesma condição trouxe de volta antigas feridas e uma ausência difícil de mensurar.
É a segunda vez na minha família diretamente que isso acontece. É a segunda vez que eu perco o meu colo", conta.
Hoje, ela reafirma como o diagnóstico de Alzheimer precoce não afeta apenas o indivíduo; ele reverbera e reorganiza toda a estrutura familiar. Tendo isso em vista, a realidade impôs uma série de readaptações diárias que vão desde o campo emocional até o financeiro.
Após uma fase inicial focada puramente no acolhimento e na aceitação mútua, Rogério, Karin e os dois filhos estão agora entra em um momento mais prático, planejando estrategicamente os próximos passos e o futuro. No entanto, o grande diferencial dessa jornada tem sido a união inabalável entre o casal e seus dois filhos. "Nós somos os quatro muito unidos, então a sorte é isso, porque a gente dá um suporte um pro outro", explica a esposa.
Nesse processo de cuidado mútuo, ela faz questão de rejeitar veementemente o rótulo de "cuidadora", uma palavra que, para muitos, carrega um peso de distanciamento e fardo. Quando questionada sobre qual termo prefere usar, ela responde sem hesitar: "Apoio. Eu sou esposa dele. Eu sou esposa... na saúde e na doença. Eu prometi lá atrás e estou cumprindo".
Luta contra o preconceito
Atualmente, uma das maiores dores enfrentadas por Rogério Bech não vem da perda cognitiva em si, mas da incompreensão social. Situações cotidianas simples, como o barulho excessivo de um restaurante lotado, o desorganizam e o deixam temporariamente desnorteado. Mas o que machuca de verdade são os comentários maldosos de quem desconhece sua realidade:
Às vezes acontece. É muito triste a pessoa fazer brincadeiras como: 'Ixe, ó lá, fulano tá com Alzheimer, vê se não esquece as coisas'. Não é piada para quem tá vivendo".
Para combater esse isolamento e combater o preconceito, o casal criou um perfil no Instagram. O objetivo é desmistificar a doença e provar que, mesmo após o diagnóstico, a vida não para. Eles usam a rede social @alzheimerprecoce para mostrar que Rogério continua frequentando o teatro, assistindo à televisão, ouvindo música e saindo com os amigos.
Eles comparam o Alzheimer a doenças físicas comuns, como a hipertensão ou problemas cardíacos graves, das quais a sociedade não costuma se afastar. "Uma doença grave no coração não vai fazer com que as pessoas se afastem. Agora, uma doença de Alzheimer acaba fazendo com que as pessoas se afastem", reflete Karin.
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