Paulo Gorgulho fala sobre novos trabalhos e a doce rotina de ser avô: 'Amo'
Divulgação/Maurício Nahas
São Paulo - São mais de 40 anos dedicados à arte de atuar, mas foi na primeira versão da novela “Pantanal”, de Benedito Ruy Barbosa, exibida com grande sucesso em 1990, na extinta TV Manchete, que Paulo Gorgulho foi revelado e ganhou projeção nacional. No folhetim, o ator interpretou o personagem principal, José Leôncio, na primeira fase e retornou, na segunda fase, como José Lucas de Nada, um dos filhos do rico fazendeiro.
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Sua participação em “Pantanal” ainda é uma memória muito viva para quem acompanha sua jornada na TV desde o início.
Isso é motivo de muito orgulho para mim”, diz Gorgulho.
Vieram, depois, muitos outros papéis importantes na TV, no teatro e no cinema, em momentos diferentes de sua carreira. Agora, aos 67 anos, o ator é destaque de duas novas produções bem-sucedidas do streaming: “Sessão de Terapia”, na Globoplay, e “Emergência Radioativa”, na Netflix.
Em “Sessão de Terapia”, ele vive Ulisses, um dos pacientes do psicanalista Caio Barone (Selton Mello), na 6ª temporada da série. É a primeira participação dele nessa produção, mas seu personagem já havia passado por aquele divã há seis anos. E ele volta em um momento de negação do envelhecimento e obsessão pela busca da juventude.
É o primeiro trabalho de Gorgulho e Selton juntos. “Selton tem um método muito bacana de trabalhar. Você se sente acolhido, amparado o tempo todo”, comenta.
Enquanto Ulisses é um personagem ficcional, em “Emergência Radioativa”, Gorgulho se inspira em um cientista real, o físico nuclear José de Júlio Rozental, para interpretar Benny Orenstein, diretor da Comissão Nacional de Energia Nuclear, que é acionado pelo jovem físico Márcio (Johnny Massaro) e vai para Goiânia para ajudar a conter a disseminação de um material altamente radioativo, o Césio-137. Foi uma tragédia que abalou o Brasil em 1987.
Em entrevista ao VIVA, Paulo Gorgulho fala sobre seus novos trabalhos, envelhecimento e a doce vida como avô. Veja os principais trechos.
VIVA: Em “Sessão de Terapia”, seu personagem está em negação em relação ao envelhecimento dele?
Paulo Gorgulho: Quando o Ulisses volta para a terapia, ele percebe que alguma coisa não vai bem na vida dele, que está deslocado dos tempos atuais. Acho que ele sofre de um mal – se é que podemos chamar assim – do qual infelizmente muita gente sofre, que é querer fingir que é jovem o tempo inteiro. É arrumar subterfúgios para fingir que é jovem e que a vida continua a mesma aos 65, 70 anos, de que quando ele tinha 35, 40 anos.
Alguma coisa não está colando ali, e ele vê que precisa modificar a postura diante do mundo. Ele tem um filho com quem não convive há muito tempo. A mulher que ele amava – a única que ele amou na vida de verdade, a ponto de se casar com ela – morreu.
Essa perda deu algum gatilho nele em relação a essa questão da idade?
Com certeza, porque ele não a via há 15 anos, e só foi vê-la de novo no caixão. E, quando ele a vê morta, tem uma revelação de que aquela tinha sido a mulher mais importante da vida dele. Aí ele se desequilibra totalmente, se vê mal encaixado.
Ele era diplomata, chegou a ser adido na embaixada de Nova York, mas optou por ser empresário da noite, e aí muita droga, muita bebida, muita mulher jovem. Até que ele vai ao médico, amigo de infância, e fala que queria fazer uns procedimentos: harmonização facial, Botox, preenchimento... E esse amigo disse para ele: "Você está doente, tem que procurar ajuda". E aí ele volta para o Caio.
A questão do envelhecimento, você acha que isso foi potencializado na era das redes sociais?
Não sei te dizer, porque não sou um usuário de rede social. Eu não tenho Facebook, não tenho Twitter, não tenho Instagram. Acho muito alienante.
Não tenho nada contra envelhecer, pelo contrário: estou me achando ótimo nessa idade que eu tenho. Acabei de fazer 67 anos e bem vividos, às vezes com dificuldade, às vezes com mais facilidade.
Não entendo muito bem por que as pessoas se negam a aceitar uma coisa supernatural. Não adianta eu querer achar que agora posso subir em um cavalo e fazer “Pantanal” do mesmo jeito que fiz com 27 anos. Não dá. A cabeça é outra, a urgência é outra, as prioridades são outras. Não é só a aparência. Quando você é jovem, tem uma pressa, um descompromisso, um se jogar. Quando você é velho, não. Então, acho que tem um medo dessas pessoas de assumirem que essa idade mais velha traz características e limitações que são próprias da idade.
Como que é a vida de avô?
Tenho dois netos e estou adorando. Amo a vida por causa deles. É muito legal. Eles têm 2 anos e meio e 1 ano. Os dois são da minha filha. Tenho três filhos, mas os meninos não querem saber de nada. Toda vez que eles seguram no meu dedo e falam "Bobô, bobô”, ah, eu morro. Faço um monte de coisa errada também (risos). Não tenho que criar ninguém. A minha filha falou: "Pai, você deu banana para o Samuel antes do almoço? Não pode, ele vai almoçar”. Eu falei: "Ah, querida, aí é com você".
E terapia, acha que tem idade para começar?
Embora em alguns casos seja muito necessário terapia em crianças, acho isso uma pena. São crianças deslocadas, geralmente com problemas com pais, pais separados ou que não cuidam do filho. Mas, fora isso, acho importantíssimo. Aconselhei e incentivei meus três filhos a fazerem. Eu já fiz também. Fiz em vários momentos, mas eram sempre períodos grandes. É muito legal você ter ali na sua frente uma pessoa competente. Você está pagando para ela te olhar de fora. Então, ela não vai passar a mão na sua cabeça.
Em “Emergência Radioativa”, você faz um personagem inspirado em um cientista real
Ele é inspirado em um físico nuclear chamado (José de Júlio) Rozental. Mas o Ulisses tem muito mais da minha observação do comportamento humano, que é uma característica do ator, do que meu personagem Benny Orenstein, que é inspirado no Rozental, uma pessoa que existiu, foi para Goiânia e trabalhou lá, mas eu não o conheci.
O que é engraçado é que a minha profissão é tão maravilhosa que, em 1989, fizemos um filme, Paulo Betti e eu (“Césio 137 - O Pesadelo de Goiânia"), sobre o acidente. Éramos os catadores que andavam pelos ferros-velhos catando coisas para vender e pegaram a cápsula. E quase 40 anos depois, faço o outro lado da história, que são os cientistas. É um privilégio muito grande.
Pensando em TV, sobre quais seus personagens as pessoas ainda falam?
Tenho três trabalhos que voltam sempre à memória das pessoas e isso é motivo de muito orgulho para mim. Um é “Pantanal”. Outro é “Fera Ferida”, uma novela de 94 que eu fiz com Cássia Kis, dois personagens incríveis, que eram Dona Ilka Tibiriçá e Seu Ataliba Timbó. E o outro é “Os Dez Mandamentos”, da Record, de 2015. São três trabalhos muito marcantes na minha vida.
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