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Mãos que geram vidas e preservam saberes: a tradição ancestral das parteiras

Reprodução/Museu da Parteira

O saber das parteiras enfrenta o envelhecimento das praticantes e desafios para sua continuidade em comunidades rurais, quilombolas e ribeirinhas - Reprodução/Museu da Parteira
O saber das parteiras enfrenta o envelhecimento das praticantes e desafios para sua continuidade em comunidades rurais, quilombolas e ribeirinhas
Por Alexandre Barreto

13/09/2026 | 10h14

São Paulo - Antes de hospitais, pré-natal e equipes especializadas chegarem a muitas comunidades brasileiras, eram as mulheres mais experientes que acompanhavam outras durante a gestação, o parto e os primeiros cuidados com o bebê. O conhecimento era transmitido pela observação, pela convivência e pela prática, de geração em geração. Em muitos lugares, ainda é assim.

“Aprendi com minha avó, minha bisavó e outras parentes que já faziam partos”, relata Percília dos Santos Rosa, 60 anos, guardiã de saberes tradicionais, ex-parteira, artesã e raizeira da comunidade do Vão de Almas, no território quilombola Kalunga, na Chapada dos Veadeiros, em Goiás.

Ela conta que, há décadas, as mulheres da comunidade davam à luz na própria região. Não havia médicos por perto, e o cuidado ficava nas mãos das parteiras, benzedeiras e de pessoas que utilizavam banhos de ervas, chás, xaropes, plantas e práticas de benzeção, de acordo com os conhecimentos locais.

Percília dos Santos é ex-parteira da comunidade Vão de Almas, no território quilombola Kalunga, em Goiás
Percília dos Santos é ex-parteira da comunidade Vão de Almas, no território quilombola Kalunga, em Goiás - Frame do documentário 'Percília', de Bia Carvalho
Fazíamos muitos remédios de mato, chá e xarope. Esses eram os nossos remédios da roça. Aqui, ninguém conhecia doutor.”

O ofício, os saberes e as práticas das parteiras tradicionais citados por Percília estão presentes nas cinco regiões do País e fazem parte de diferentes contextos sociais e culturais. Em 9 de maio de 2024, esse conjunto de conhecimentos foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e inscrito no Livro de Registro dos Saberes.

Mesmo com o reconhecimento, existe um momento de mudança. Muitas das mulheres que dominam esses conhecimentos estão envelhecendo, enquanto a transmissão para as gerações mais novas enfrenta obstáculos. Em algumas comunidades, as jovens já não aprendem o ofício como acontecia no passado.

“Hoje está muito difícil fazer parto na roça. As coisas ficaram muito complicadas, não é mais como antigamente. Antes, a mulher fazia o pré-natal e a gente acompanhava tudo na roça. Hoje, assim que engravida, ela precisa ir para a cidade. O parto em casa ficou muito mais complicado e só acontece de última hora, quando realmente não dá para chegar à cidade”, relata a ex-parteira.

Parteira tradicional ausculta o abdômen de uma gestante em atendimento
Parteira tradicional ausculta o abdômen de uma gestante em atendimento - Reprodução/Museu da Parteira

Para Percília, a tendência é que esse conhecimento perca força se não houver novas mulheres interessadas em aprendê-lo. Essas práticas tradicionais não envolvem apenas o momento do nascimento, mas também cuidados no pós-parto, além de massagens, banhos, rezas e palavras de conforto.

Embora hoje não exista um cadastro nacional preciso de todas as parteiras tradicionais, a forma de atuação varia conforme a região e a comunidade, segundo o Ministério da Saúde.

Distância até o serviço de saúde é um impasse

A mudança no acompanhamento das gestantes também trouxe um novo desafio para comunidades afastadas dos centros urbanos: chegar até os serviços de saúde.

Percília conta que as mulheres grávidas de sua comunidade precisam se deslocar até a cidade para realizar o pré-natal. De acordo com ela, não há transporte gratuito da prefeitura para esse deslocamento. "Se ela quiser ir tem que pagar passagem para ir e voltar”.

A ex-parteira diz que a presença das equipes de saúde na comunidade é limitada. Entre os serviços oferecidos, cita a vacinação realizada ocasionalmente. “Eles vêm vacinar de vez em quando na roça, mas aqui não tem um postinho de saúde, não tem nada disso”, relata.

Tesoura e outros materiais remetem aos saberes e práticas das parteiras tradicionais, preservados ao longo das gerações
Tesoura e outros materiais remetem aos saberes e práticas das parteiras tradicionais, preservados ao longo das gerações - Reprodução/Museu da Parteira

Essa situação ajuda a explicar por que as parteiras tradicionais tiveram e ainda podem ter papel relevante em territórios de difícil acesso. Estudos da Unesp apontam que, em áreas rurais, ribeirinhas e de acesso mais difícil, ainda ocorrem partos domiciliares acompanhados por essas mulheres.

Percília guarda na memória o dia em que deixou de ser aprendiz e acompanhou, sozinha, um nascimento. Já conhecia os partos, as mulheres e os saberes que passavam de uma geração a outra. Mas aquela vez chegou sem aviso.

De última hora eu fiz um parto, me dei bem, me senti muito feliz de ter salvado uma vida”.

Depois vieram mais partos, mais experiência. E também o medo e a consciência dos riscos. Sem estrutura de saúde por perto, uma emergência poderia mudar tudo.

Organizada pela Rede Alyne, o Ministério da Saúde ressaltou que a assistência à gestação, ao parto, ao nascimento e ao puerpério busca assegurar um “cuidado integral, regionalizado, humanizado e baseado nas necessidades de cada mulher e de seu território”.

Também foi destacado que o Sistema Único de Saúde (SUS) promove o diálogo intercultural e valoriza a articulação entre os conhecimentos técnico-científicos e os saberes e práticas tradicionais das comunidades.

Reconhecemos a relevância histórica, cultural e sanitária das parteiras tradicionais na atenção às mulheres e aos recém-nascidos, especialmente em territórios rurais, ribeirinhos, indígenas e quilombolas", escreveu o órgão.

Sem formação, mas com muito conhecimento

A parteira tradicional não deve ser confundida com a enfermeira obstétrica, obstetriz ou doula. A distinção é importante porque são formas diferentes de atuação e de formação, explica a ginecologista e obstetra Mirela Foresti Jiménez, secretária da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).

Esses dois cursos, enfermagem e obstetrícia, são profissões regulamentadas. A parteira tradicional é aquela que não tem uma formação definida, assim, não tem um curso específico. O saber é transmitido de forma ancestral, através da prática".

No Brasil, segundo a médica, existem a enfermagem obstétrica, que exige formação em enfermagem e especialização em obstetrícia, e o curso de graduação em Obstetrícia oferecido pela Universidade de São Paulo (USP).

Mulher grávida está deitada enquanto doula passa a mão em sua barriga
Trabalho da doula está relacionado ao suporte físico e emocional à gestante - Freepik

A doula também exerce outra função. Segundo Mirela, seu trabalho está relacionado ao suporte físico e emocional à gestante, sem realização de procedimentos médicos ou do parto.

Mirela ressalta que a existência dessas mulheres em comunidades tradicionais está ligada à própria história da assistência ao parto no Brasil.

Entretanto, com a expansão da obstetrícia e das estruturas hospitalares, a assistência ao parto passou a contar com equipes formadas por diferentes profissionais e recursos capazes de atender complicações maternas e neonatais.

A médica pontua que o parto pode começar como um processo fisiológico e, em pouco tempo, evoluir para uma emergência obstétrica. Por isso, defende que as mulheres tenham acesso a serviços preparados para lidar com essas situações.

Questionado sobre os instrumentos que orientam esse cuidado, o Ministério da Saúde destacou a Caderneta da Gestante, que reúne informações e recomendações para o acompanhamento pré-natal, incluindo a realização de, no mínimo, sete consultas, a atualização da vacinação, a promoção do aleitamento materno e orientações sobre direitos e benefícios sociais.

Além disso, foi citado que a Caderneta orienta a elaboração do Plano de Parto e do Plano de Puerpério, garantindo a continuidade do cuidado à mulher e ao recém-nascido.

Para a especialista, o reconhecimento dos saberes tradicionais não deve significar a substituição da assistência de saúde estruturada. "Não desqualificando e nem deixando de valorizar esse cuidado que muitas vezes pode ser importante", disse.

Entre os elementos das parteiras que Mirela considera importantes para a assistência contemporânea estão o acolhimento, o conhecimento da comunidade, a atenção à experiência individual da mulher e o respeito aos aspectos culturais.

Norte e áreas remotas concentram desafios

De acordo com a especialista da Febrasgo, a Região Norte apresenta risco de morte materna superior ao registrado na Região Sul e em parte do Sudeste, enquanto a mortalidade neonatal também é maior.

Essa distância do serviço de saúde e essa precariedade de assistência ao parto, ela tem consequências muito graves".

O cenário descrito por pesquisadores é particularmente relevante para as populações que enfrentam isolamento geográfico e dificuldades de acesso aos serviços convencionais.

Instrumentos usados por parteiras tradicionais em partos domiciliares
Instrumentos usados por parteiras tradicionais em partos domiciliares - Reprodução/Museu da Parteira

Uma pesquisa realizada pela Unesp em comunidades de Prainha e Santarém, no Pará, entrevistou parteiras, profissionais de saúde e usuárias para analisar a relação entre os saberes tradicionais e o sistema convencional.

O estudo identificou uma convivência entre os dois modelos, mas também apontou desigualdade de reconhecimento, falta de recursos e articulação ainda informal e fragmentada.

Diante dos avanços na assistência à saúde, o desafio é valorizar a prática das parteiras tradicionais e preservar seus saberes. O trabalho de campo que subsidiou o processo do Iphan para o reconhecimento do ofício como patrimônio cultural incluiu parteiras de Pernambuco, Bahia, Maranhão, Amazonas, Amapá e Goiás.

Entre as diretrizes de salvaguarda estão o fortalecimento das associações e redes de parteiras, o mapeamento de grupos em diferentes regiões, a ampliação das pesquisas e dos registros e a transmissão desses conhecimentos pelas próprias comunidades.

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