Torto Arado no Carnaval 2027: ‘Fiquei entusiasmado’, diz Itamar Vieira Jr
Alexandre Barreto/VIVA
São Paulo - O romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, vai deixar as páginas e chegar à avenida no Carnaval de 2027. A obra será o enredo da Unidos de Vila Isabel, que levará para o desfile temas presentes na história, como a relação com a terra, a luta quilombola, o racismo e a religiosidade do Jarê.
O escritor comentou a adaptação neste domingo, 13, durante a conversa “Esse livro dá samba: quando a literatura entra na avenida”, realizada na Arena Cultural da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que bateu recorde histórico com 760 mil visitantes ao longo de dez dias no Distrito Anhembi.
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Ao falar sobre o que espera ver no desfile, Itamar destacou a presença do Jarê, manifestação religiosa característica da Chapada Diamantina, na Bahia.
Segundo o autor, o Jarê reúne elementos do catolicismo, de religiões de matriz africana e de experiências de origem indígena. Para ele, essa mistura pode ganhar uma representação própria durante o desfile.
Fiquei especialmente entusiasmado com a possibilidade de o Jarê aparecer na avenida. Eu acho que o Jarê é uma coisa muito brasileira, muito particular, é uma confluência de catolicismo com religião de matriz africana, com experiências xamânicas.”
Como Torto Arado virou enredo?
Itamar contou que o contato com os carnavalescos da Vila Isabel começou antes de ele saber que o objetivo era transformar o livro em enredo. Os primeiros encontros foram marcados por conversas sobre a história, o processo de criação do romance e os significados atribuídos à obra pelos leitores. A confirmação veio depois de algumas reuniões.
O escritor comparou o processo a um relacionamento que vai se tornando mais sério aos poucos. “É como um namoro de antigamente, né? Não era [algo de primeira] assim”, brincou.
Durante esse período, Itamar também precisou manter a informação em segredo. A escolha da obra só poderia ser anunciada posteriormente.
O que será levado para a avenida?
O enredo da escola terá o título “Torto Arado – Sobre a terra há de viver sempre o mais forte”. Para Itamar, alguns elementos são fundamentais para preservar a essência da história durante a adaptação. Entre eles estão os vínculos entre os personagens e a luta apresentada ao longo do romance.
Aquilo que talvez seja a essência dessa história, pra mim, são os laços de solidariedade que se estabelecem entre os personagens, a história de luta que há por trás da narrativa".
A obra também aborda a relação de comunidades quilombolas com a terra e questões relacionadas ao racismo e à desigualdade.
Itamar não vai ajudar na criação do desfile
Apesar de acompanhar as adaptações de seus livros, Itamar afirmou que prefere não interferir diretamente no trabalho dos profissionais responsáveis por outras linguagens.
Ele explicou que conhece o processo de criação literária, mas não domina as ferramentas utilizadas em um desfile de Carnaval. “Quando se trata do Carnaval, eu acho que eu sei menos ainda, eu não poderia”, disse.
O escritor citou como exemplo a criação de carros alegóricos e fantasias, elementos que fazem parte da construção de um desfile e que exigem conhecimentos específicos. Por isso, sua participação deve ocorrer principalmente como acompanhamento da adaptação, e não como responsável pelas decisões criativas da escola.
Distanciamento é necessário nas adaptações
Itamar também falou sobre outras adaptações de suas obras. Para ele, transformar um livro em outra linguagem significa permitir que novos criadores interpretem a história a partir de suas próprias perspectivas.
O autor contou que costuma assistir às adaptações como espectador. Mesmo quando recebe convites para participar da elaboração dos roteiros, nem sempre aceita.
Um dos motivos é o tempo necessário para continuar escrevendo. Segundo ele, participar de cada etapa de uma adaptação poderia diminuir o período dedicado à produção literária. Para Itamar, essa distância também permite observar como outras pessoas interpretam aquilo que ele escreveu.
"Eu acho que quem tem melhores condições de interpretar uma história é quem lê. Quem cria não tem o distanciamento necessário para fazer essa interpretação. Já quem lê e está vindo aqui pela primeira vez consegue fazer isso de uma maneira melhor”, afirmou o escritor.
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