Soraya Ravenle revive a grandeza de Dalva de Oliveira em novo musical
João Caldas
São Paulo - Quase quarenta anos após sua estreia nos musicais, a atriz e cantora Soraya Ravenle vive um momento de fechamento de ciclo — ou, como ela mesma define, uma "volta de 360 graus". No musical que celebra a amizade entre Dalva de Oliveira e o ator Renato Borghi, Soraya dá vida a uma das maiores vozes da história da música no Brasil.
Há quase 40 anos, fiz meu primeiro musical, que foi justamente Estrela Dalva. Agora, a vida deu essa volta e esse presente".
Em entrevista exclusiva ao VIVA, ela reflete sobre o desafio de interpretar Dalva e a importância de resgatar os pilares da música brasileira em um cenário dominado por referências estrangeiras. "O musical brasieiro precisa ser valorizado", defende.
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VIVA: Você interpreta Dalva de Oliveira em um musical que celebra o encontro dela com Renato Borghi. O que significa esse papel?
Soraya Ravenle: Recebi o convite por um telefonema do Elcio Nogueira, um dos diretores, e entendi imediatamente o quão especial era estar ao lado do Renato Borghi.
Ele completou 89 anos logo após nossa estreia; é um dos pilares do teatro brasileiro. Aceitei na hora. Há quase 40 anos, fiz meu primeiro musical, que foi justamente Estrela Dalva, onde o Renato interpretava o Erivelto Martins, e a Marilia Pêra, a Dalva. Agora, a vida deu essa volta e sou coroada com esse presente ao lado dele.
Não é um musical biográfico tradicional, mas sim uma obra que fala sobre o encontro e a amizade deles. É uma sensação indescritível de ver o passado girar e se transformar nesse encontro atual.
Você já interpretou outras divas da música, como Dolores Duran e Carmen Miranda. Qual a principal diferença entre Dalva e elas?
Primeiro, foi Dolores, que mudou a minha vida, foi um divisor de águas, foi quando eu fui convidada para fazer televisão e foi a minha primeira protagonista compositora de musical brasileiro, depois vieram todas as outras. Teve Carmen Miranda, que era um texto lindo do Miguel Fala, que também fazia a direção com a Maria Carmen Barbosa. Depois, Isaurinha Garcia.
Dalva é a quarta mulher da nossa história que interpreto. Todas foram pioneiras e transgressoras.
Naquela época, ser artista não era algo que os pais queriam para os filhos; elas tiveram que bancar seus desejos contra movimentos contrários muito fortes."
O que ressalto na Dalva, especificamente, é a capacidade vocal e interpretativa. Para uma cantora popular, ela tinha uma extensão vocal fora da curva, quase de cantora lírica. O próprio Villa-Lobos a nomeava como a maior cantora popular brasileira. Ela tinha uma visceralidade e um radicalismo emocional impressionantes.
Como é a sua preparação para não cair na imitação e encontrar a sua Dalva?
Eu faço uma varredura completa: YouTube, Spotify, livros, tudo o que puder de informação. Vou criando um mosaico. Mas, desde a Dolores, entendi que quem entra em cena sou eu. Não quero a casca da imitação, de um mimetismo absoluto. Quero entender de onde saía aquela voz e o que levava àquele gesto vocal. Eu crio um esqueleto e danço em volta dele com as minhas dores e alegrias.
É uma tradução que passa pelo meu corpo e pelo que eu penso do mundo. Eu danço em cima de tudo isso que eu pude captar sobre ela, como se eu me aproximasse fortemente daquela mulher é uma tradução minha, e eu chamo de tradução porque isso passa pelo meu corpo, pela minha voz, pelo meu olhar, meus pensamentos e sobre o que eu penso do mundo, sobre o que eu penso da vida, isso tudo está em cena.
Eu brinco, quando dou aula ou workshops pelo Brasil, que cantar é 10% voz e 90% quem você é, o que você come, o que você lê e como você ama.
O espetáculo remete à 'Era de Ouro do Rádio'. O que faz mais falta no cenário artístico de hoje?
Orquestras! As rádios tinham duas ou três orquestras. O mercado de trabalho para os músicos era imenso. Hoje, conto nos dedos de uma mão quantas vezes cantei com uma orquestra. É uma massa sonora que te faz querer chorar só na afinação dos instrumentos. No musical atual, temos sete músicos incríveis, mas a experiência da orquestra que elas tiveram era algo grandioso que se perdeu.
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Hoje os jovens consomem cultura de uma forma muito diferente. Qual a importância de resgatar nomes como Dalva e Carmen Miranda?
É uma importância absoluta para falarmos de quem somos como povo. Somos uma trança de linhagens. A Angela Maria se mirava na Dalva, a Elis Regina se mirava na Angela.
Hoje, vejo muitos jovens se preparando para musicais referenciados apenas no modelo americano. Tem gente que não sabe quem é Bibi Ferreira! Isso me entristece."
Tem que ter lugar para tudo, mas o lugar do musical americano é muito maior. É uma discrepância, um desequilíbrio. Fico bem triste, tenho raiva, não gosto. Acho que tem que ser ao contrário. Tinha que ser 70%, quase que uma reserva de mercado para os músicos, a música, os dramaturgos, as histórias brasileiras, para o Brasil, entende? O musical brasileiro precisa ser valorizado.
Com 40 anos de carreira, o que a maturidade te trouxe de melhor?
A liberdade de falar o que realmente acho. Antes eu era mais contida; hoje me permito ser sincera. Além disso, a maturidade me trouxe o hábito do estudo contínuo. Mesmo com tanta experiência, para fazer a Dalva procurei professores de canto, que são referências para mim, o Felipe Abreu, no Rio, e o Gilberto Chaves, em São Paulo.
Então, você vê, a cada desafio eu estudo, eu busco, busco pessoas para estudar. Cada trabalho é uma nova aventura de conhecimento.
Se você pudesse tomar um café com a Dalva de Oliveira, hoje, o que perguntaria a ela?
Eu nunca tinha pensado nisso! Primeiro, pediria a benção. Eu já faço isso antes de entrar em cena todos os dias. Mas, no café, eu perguntaria o que não foi dito sobre ela que ela gostaria que soubéssemos em 2026. O que ela gostaria de ter gravado e não gravou? Eu adoraria ouvir a versão dela sobre a própria vida, além de tudo o que os livros já contaram.
Serviço
Espetáculo: O Musical sobre Dalva de Oliveira e Renato Borghi
Onde: Teatro SESI Paulista - Av. Paulista, 1313, Jardins
Quando: Até 12 de julho (Quinta a Sábado às 20h; Domingo às 19h)
Entrada: Gratuita (Reservas online às segundas-feiras no aplicativo do Sesc ou fila de espera no local)
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