Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Glória Pires celebra 60 anos: "Liberdade de ser quem eu sou"

Sérgio Baia

"Quando meu cabelo ficou branco, eu reconheci a minha mãe em mim" - Sérgio Baia
"Quando meu cabelo ficou branco, eu reconheci a minha mãe em mim"
Por Alessandra Taraborelli

22/05/2026 | 08h29

São Paulo - Atriz, empresária, diretora, mãe e esposa. Aos 60 anos, Glória Pires não apenas carrega um currículo repleto de personagens icônicas que moldaram a teledramaturgia brasileira, mas também ostenta uma nova e poderosa versão de si mesma.

Longe da pressão estética dos fios de cabelos tingidos e das cobranças por uma produtividade incessante, Glória revela como a organização e o apoio do marido, Orlando Morais, foram seus portos seguros para criar quatro filhos e manter uma carreira sólida. Agora, ela se dá ao luxo mais precioso de todos: o de escolher.

Do impacto de assumir os cabelos grisalhos ao desafio de produzir e protagonizar histórias sobre o "limbo" da maturidade, Glória mostra que, para ela, os sonhos não envelhecem — eles se transformam em potência.

Leia também: Novela de sucesso se faz com respeito à inteligência do público

Sem brincadeira, a coisa de virar os 60 foi tão libertadora para mim. Eu estou me permitindo tantas coisas, principalmente relacionada ao uso do tempo para mim.”

Para quem está com saudades de ver a atriz na TV, vai precisar esperar mais um pouquinho. "Talvez ano que vem, no outro ano, vamos ver. Não estou com pressa de voltar a fazer novelas.”

Leia a entrevista exclusiva para o VIVA:

VIVA: Como é ter tantas "Glórias" em uma só? Como você faz para dar conta de tudo e ainda encontrar tempo para você?

Glória Pires: Eu sempre achei que as mulheres tivessem essa capacidade de serem múltiplas, mas hoje sinto que todo mundo precisa ter essa capacidade. A gente vive muitas realidades distintas e essa é a nova forma de viver. Ela demanda demais.

Eu não dou conta de tudo. Eu tento, mas não dou conta de tudo, e tudo bem. Isso é a potência dos 60 mais. Eu não sofro por não dar conta de tudo, eu não sofro por não ser o que as pessoas esperam de mim ou esperavam de mim."

Tenho bastante facilidade na minha organização pessoal. Isso, sem dúvida, me ajudou muito. Eu me organizei e consegui ter pessoas ao meu lado de muita confiança, de muita capacidade, que me ajudaram demais. Eu sempre faço questão de agradecer às mulheres que cuidaram dos meus filhos enquanto eu estava trabalhando. Eu sou muito grata a todas elas, porque sem elas certamente eu não conseguiria fazer nada disso que eu fiz. E, sem esquecer do meu marido, do meu parceiro e o meu melhor amigo.

Leia também: Maioria dos trabalhadores domésticos no Brasil tem entre 50 e 59 anos

Como foi esse apoio para atravessar crises de identidade e a exposição pública?

Atris Glória Pires sorrindo para foto
Glória Pires fala sobre o marido: "Eu queria ter encontrado o Orlando mais cedo" - Foto: Sérgio Baia

Eu queria ter encontrado o Orlando mais cedo, mas valeu. A hora que a gente se cruzou foi bem imediato. Ele sempre vibrou com meu trabalho, assiste a tudo, me dá notícias de prêmios, filmes e novelas... Ele assiste muito mais do que eu, porque eu às vezes tenho gatilho de me ver. São 38 anos de parceria constante. Imagina se ele não tivesse sido esse apoio? Teria sido muito complicado.

Por que você resolveu assumir seus cabelos brancos durante a pandemia? Houve  alguma crítica?

Sim. Essa foi a única vez que o Orlando  foi mais reticente. Ele achava que era cedo, por causa dos padrões culturais do Brasil. Não só ele, meus filhos também foram contra, acharam que eu ia ficar meio bloqueada, que talvez os trabalhos não surgissem pelo fato de eu estar mais velha.

Mas, foi um chamado interno meu, sabe? Um símbolo da minha maturidade pessoal, de segurar essa nova pessoa. Eu já queria fazer isso, mas a transição é difícil e eu nunca tinha brecha no trabalho. Na pandemia, aproveitei. No fim, foi um encontro estético importantíssimo para mim.

Quando meu cabelo ficou branco, eu reconheci a minha mãe em mim."

Olhando para trás, qual característica da sua personalidade você mantém desde o início da carreira e do que você precisou abrir mão?

A organização sempre foi muito importante para mim, e isso eu mantenho até hoje. Outra coisa é ter muita autocrítica, (sou) muito exigente comigo mesmo. Isso é uma coisa que eu estou conseguindo trabalhar, é tipo olhar de frente para o problema e lidar com isso.

A organização foi fundamental eu ter conseguido fazer "Mulheres de Areia", por exemplo, com um bebê de três meses no colo. Eu não conseguiria fazer aquilo se eu não tivesse muita organização no meu trabalho, no meu estudo das cenas, no tempo com eu tinha com um bebê de três meses. A Antônia nasceu um pouquinho antes de eu começar a fazer a novela.

Uma coisa que eu estou abrindo mão é da insegurança, do medo, sabe? Que está muito ligado à aceitação, a essa ideia de ser aceita. Isso eu estou trabalhando há alguns anos e estou chegando num lugar bom, assim, confortável, sabe? Legal.

Como foi dirigir e atuar em uma obra sobre o etarismo, o filme "Sexa"?

Quando eu li o roteiro eu fiquei apaixonada, porque nunca tinha caído na minha mão uma personagem assim: uma mulher de 60 anos nesse limbo. Esse lugar onde a mulher não se reconhece mais como a "cocota" de antes, mas também não quer se entregar à finitude ou à dependência. Eu achei a personagem fantástica, a Bárbara, porque tem uma carga social e uma autocrítica enorme.

Ainda tem o filho reforçando essa visão patriarcal, de que a mulher tem que ser assim a partir de uma determinada idade. A mulher passou dos 40 anos, ela tem que ter cabelo curto. Se tem o cabelo branco, tem que estar sempre maquiada. Se a mulher está acima do peso, não serve para botar roupa de decotada...

Quando eu recebo um roteiro eu sempre procuro olhar como se eu estivesse assistindo aquele filme, e no que isso pode dar. Que tipo de mensagem e de acesso esse personagem pode dar para quem está assistindo. O filme é muito atual, tem se falado muito sobre etarismo.

Leia também: Prazer feminino após os 50: mudanças do corpo impactam a sexualidade

Você interpretou mulheres marcantes como Maria de Fátima, Ruth e Raquel. Você leva algo dessas personagens para casa ou traz algo de si para elas?

De personalidade, não trago nada. Eu guardo objetos: um broche da Lota de Macedo Soares (arquiteta e paisagista autodidata brasileira), o vestido da Nise da Silveira (revolucionário da psiquiatra brasileira), o chapéu da Maria Moura (minissérie). São meus amuletos. Na verdade, eu coloco coisas minhas nelas. Uso muita pesquisa, entendo a época e até o cansaço físico da personagem ao longo do dia para construir a cena.

O que podemos esperar da Glória daqui para frente? Veremos você em novelas em breve?

Novela, por enquanto, não. É um trabalho que te segura por quase um ano e agora eu tenho outros projetos. Pela primeira vez na vida, estou me dando ao luxo de escolher o que quero fazer e de que forma. Não estou com pressa. Estou em uma lua de mel com a minha vida, me permitindo usar o tempo para mim.

Para encerrar, que mensagem você deixaria para as mulheres de 50 ou 60 anos que ainda sentem medo de recomeçar?

Não deixem de olhar para frente. É bom olhar para trás para corrigir o que passou, mas hoje temos um espaço muito mais amplo para falar de menopausa, etarismo e identidade. Os sonhos não envelhecem. Nunca é tarde para iniciar algo 100% novo. Se você sempre quis fazer algo e nunca teve coragem, a hora é agora.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Últimas Notícias