Envelhecimento da população pode elevar custos do SUS, aponta estudo
Marcelo Camargo/Agência Brasil
São Paulo - O envelhecimento acelerado da população brasileira deve aumentar a pressão sobre os hospitais e elevar os custos do Sistema Único de Saúde (SUS) nos próximos anos. Um levantamento da plataforma DRG Brasil, baseado em mais de 1,5 milhão de altas hospitalares em instituições públicas e privadas, mostra que pacientes com 80 anos ou mais permanecem internados, em média, por 7,4 dias. Entre pessoas de 20 a 29 anos, a média é de 2,9 dias.
De acordo com os dados, isso significa que idosos consomem 2,55 vezes mais diárias de internação do que adultos jovens. O cenário preocupa especialistas porque o Brasil vive uma rápida transição demográfica, com aumento acelerado da população idosa e maior incidência de doenças crônicas que exigem tratamentos contínuos e hospitalizações mais frequentes.
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Além do maior tempo de internação, o envelhecimento também impacta diretamente os gastos com saúde. Segundo estimativas baseadas nos valores de referência do Boletim Informativo da Planisa, empresa especializada em gestão de custos para o setor de saúde, o período adicional de permanência em unidades de internação não crítica representa um custo aproximado de R$ 2,7 mil por paciente.
Quando a internação ocorre em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o impacto financeiro cresce ainda mais. O valor das diárias extras pode chegar a cerca de R$ 6,8 mil por paciente. Para Marcelo Carnielo, diretor de Serviços da Planisa e especialista em custos hospitalares, o avanço da população acima de 60 anos exigirá novos investimentos no setor de saúde.
A pressão sobre as diárias do SUS exigirá alternativas consolidadas de desospitalização, transição de cuidados e atendimento domiciliar para evitar o colapso dos leitos de alta complexidade”, afirma.
Segundo o IBGE, o envelhecimento também aparece na idade média da população, que passou de 28,3 anos em 2000 para 35,5 anos em 2023. As projeções do instituto indicam que o País atingirá seu pico populacional por volta de 2041, com aproximadamente 220 milhões de habitantes. Depois disso, a tendência é de redução da população total e aumento da participação dos idosos.
Até 2070, a estimativa é que 37,8% dos brasileiros tenham 60 anos ou mais. A idade mediana deverá alcançar 48,4 anos, enquanto a expectativa de vida poderá chegar a 83,9 anos.
Doenças crônicas ampliam atendimentos
O envelhecimento também está associado ao crescimento das doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, câncer, Alzheimer e Parkinson. Essas condições costumam exigir acompanhamento contínuo, uso prolongado de medicamentos, exames frequentes e internações de média e alta complexidade, aumentando a demanda sobre o SUS.
De acordo com projeções do governo federal citadas no levantamento, apenas a evolução demográfica deverá elevar os gastos públicos com saúde em R$ 67,2 bilhões entre 2024 e 2034. O aumento será impulsionado principalmente pelas despesas com assistência farmacêutica e pelos atendimentos hospitalares especializados.
Marcelo Carnielo destaca que o envelhecimento dos brasileiros também evidencia uma mudança na estrutura das famílias. "No passado, famílias numerosas absorviam internamente a atenção aos seus idosos, um modelo sustentado quase exclusivamente pelo trabalho doméstico não remunerado das mulheres. Hoje, com a urbanização acelerada e a queda acentuada na taxa de fecundidade, esse arranjo familiar faliu”, afirma.
Vácuo de capacitação
O especialista afirma que esse cenário tem ampliado a atuação de cuidadores informais, muitas vezes sem formação específica para atender pessoas com limitações físicas ou cognitivas.
Esse vácuo de capacitação gera impactos profundos e silenciosos na saúde dos idosos e na sustentabilidade das famílias, ainda negligenciados pelas estatísticas oficiais."
E complementa: “Diante disso, a pergunta central que o País precisa responder é: onde, como e quem cuidará dos nossos idosos?".
Para o especialista, é necessário acelerar a implementação da Política Nacional de Cuidados, com a integração entre os sistemas de Saúde e Assistência Social, além de ampliar o financiamento público para cuidadores domiciliares e oferecer subsídios às famílias de baixa renda que cuidam de idosos.
Outra proposta é ampliar os modelos de atendimento ao idoso, incluindo centros-dia, moradias compartilhadas para idosos independentes e unidades de transição voltadas à reabilitação após a alta hospitalar.
Também é defendida a regulamentação da profissão de cuidador de idosos, com exigência de formação técnica e maior capacitação das equipes da atenção primária para orientar familiares responsáveis pelos cuidados.
Envelhecer não significa necessariamente tornar-se dependente ou improdutivo. Com os avanços da medicina, da educação e das condições de vida, milhões de pessoas chegam à terceira idade com capacidade de continuar trabalhando, empreendendo, produzindo conhecimento e participando ativamente da vida comunitária”, conclui o especialista.
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