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São Paulo, 28/11/2025 - Se você quer viver muito e com autonomia, precisa conhecer Veranópolis, cidade do Rio Grande do Sul que é exemplo de qualidade de vida para pessoas mais velhas. A população reúne hábitos e condições que favorecem a longevidade, conceito usado para definir as "Blue Zones", regiões no mundo com uma grande concentração de pessoas centenárias e saudáveis. Essas cidades espalhadas pelo mundo e o caso de Veranópolis são tema do documentário "Conversas nas Zonas Azuis", que tem como objetivo dar protagonismo às vozes de quem vive a longevidade no cotidiano.
O filme é resultado de uma jornada de dois meses realizada em 2023 pela jornalista Lilian Liang, especialista em saúde da pessoa idosa, e pelo cineasta e diretor Gabriel Martinez. Os dois percorreram cinco regiões conhecidas como Blue Zones, Nicoya, na Costa Rica; Loma Linda, nos Estados Unidos; Okinawa, no Japão; Icária, na Grécia; e Sardenha, na Itália; que abrigam populações com altas taxas de longevidade e baixos índices de doenças crônicas.
A expedição terminou no Brasil, em Veranópolis (RS), considerada a Blue Zone brasileira e referência nacional em pesquisas sobre envelhecimento saudável.
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A cidade abriga o trabalho pioneiro do Instituto Moriguchi, que desde 1994 desenvolve o Projeto Veranópolis, voltado ao estudo dos hábitos, das relações sociais e da espiritualidade de idosos. Esse trabalho antecede em uma década o conceito internacional das Blue Zones, formulado apenas em 2004.
Como conta em entrevista exclusiva ao VIVA o diretor do documentário, foram feitas mais de 70 entrevistas entre idosos e pesquisadores. O resultado é um retrato sensível e realista do envelhecer, longe dos estereótipos que costumam idealizar a velhice.
Segundo Martinez, "Conversas nas Zonas Azuis” procura desmistificar o envelhecimento nas regiões longevas e mostra que as perdas e limitações fazem parte da vida em qualquer lugar, mas também evidencia que fatores como laços sociais, espiritualidade, propósito e apoio familiar criam uma rede de proteção emocional que favorece a saúde e o bem-estar ao longo dos anos.
Veranópolis é uma cidade única. Um povo que aprendeu a viver muito por simplesmente viverem da maneira deles, eles não buscaram aprender a serem longevos olhando para outros lugares. Eles são longevos porque vivem como vivem, e isso é fantástico, isso é o que devemos valorizar.”
Leia a seguir os principais trechos da entrevista, realizada após o lançamento do documentário, em São Paulo, na noite da última quarta-feira 26 de novembro.
Gabriel Martinez: A idealização foi da jornalista Lilian Liang, ela organizou a viagem e iria para as Blue Zones para fazer uma matéria impressa. A Debora Alves, colega de trabalho dela, sugeriu que ela me levasse, pois seria um desperdício visitar esses locais e não filmar nada. Foi aí que a ideia de fazer um documentário sobre isso começou. Lilian também já tinha a intenção de ir até Veranópolis para termos um viés brasileiro.
Para mim, o ponto de virada foi perceber que aquela viagem, inicialmente pensada como reportagem, continha algo maior do que qualquer um de nós havia antecipado. Havia ali a chance de construir uma ponte entre o conhecimento global e uma experiência local que o Brasil ainda não reconhece plenamente.
Acredito que o principal papel do documentário é evidenciar algo que o Brasil ainda subestima: a continuidade de uma pesquisa longitudinal. Isso, por si só, é uma política pública de altíssimo impacto. O trabalho conduzido pelo Dr. Emílio Moriguchi em Veranópolis é um feito histórico. Manter um estudo por 31 anos, acompanhando sucessivas gerações de idosos, só foi possível porque ele é um médico e pesquisador profundamente apaixonado pelo tema do envelhecer. Essa paixão individual acabou gerando um patrimônio científico coletivo.
Se hoje conseguimos realizar o documentário “Conversas nas Zonas Azuis” é justamente porque existe essa base acumulada de conhecimento - dados, histórias, acompanhamentos, análises, registros - construída com consistência ao longo de três décadas.
É um lembrete claro de que não existe política pública sólida sem pesquisa contínua. Se queremos envelhecer bem como país, precisamos valorizar e sustentar a ciência que estuda o envelhecer — e transformar conhecimento em política pública estruturada. Veranópolis demonstra que isso é possível. O Brasil precisa reconhecer isso.
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O que mais me surpreendeu em Veranópolis não foi, propriamente, a forma como eles envelhecem, mas a afinidade profunda entre o que eles valorizam e aquilo que ouvimos nas entrevistas das Blue Zones. Essa convergência é impressionante.
Quando os idosos de Veranópolis falam sobre propósito, vínculos, pertencimento, disciplina, fé, rotina, leveza — eles estão, na prática, enunciando os mesmos princípios que ouvimos em Okinawa, Ikaria, Sardenha, Nicoya ou Loma Linda. Esse paralelismo me marcou porque desmonta a ideia de que a longevidade é um fenômeno restrito a territórios “místicos” ou culturalmente exóticos.
Mostra que não é necessário morar em uma Blue Zone para viver os achados que sustentam uma vida longa. Veranópolis me ensinou que as “verdades” da longevidade são universais, e que o Brasil já as encarna, mesmo sem a chancela do rótulo Blue Zone. A surpresa não foi descobrir algo diferente, mas perceber a profunda semelhança. E isso, para mim, é ainda mais revelador.
Veranópolis ensina que uma vida longa não se constrói com segredos inacessíveis, mas com práticas possíveis, e que o tecido social tem mais influência sobre a saúde do que muitas vezes estamos dispostos a admitir. É uma cidade que devolve ao tema da longevidade seu verdadeiro lugar: não somos indivíduos isolados, mas na vida que se compartilha.
Uma das grandes surpresas dessa jornada foi perceber o quanto os idosos foram receptivos desde o primeiro contato. Nas Blue Zones, estávamos sempre em uma equipe muito enxuta — apenas eu, a jornalista Lilian Liang e um produtor local. Essa simplicidade fez toda a diferença.
Com apenas uma câmera pequena e mínima interferência técnica, a conversa acontecia quase como em uma roda de amigos. O foco não era o equipamento, mas o encontro. E isso facilitou profundamente a construção de confiança. Esse ambiente íntimo, sem ruídos, sem pressa e sem a sensação de espetáculo, permitiu que as conversas ganhassem uma delicadeza muito rara.
Havia profundidade emocional, vulnerabilidade, humor, sabedoria, silêncio. Era uma troca humana real, não uma entrevista formal.
Essa experiência, inclusive, inspirou o título do filme. “Conversas nas Zonas Azuis” surgiu justamente porque o que encontramos ali foi isso: conversas verdadeiras, quase como se fôssemos velhos conhecidos daqueles idosos.
Nosso ponto de partida foram as próprias conversas nas Blue Zones. Depois de traduzir e legendar todas as entrevistas, iniciamos um processo intenso de seleção: mais de 34 horas de material que precisaram ser assistidas, decupadas e organizadas ao longo de seis meses. Essa etapa foi, sem exagero, uma das mais exigentes do projeto. Mas foi justamente esse esforço que tornou possível integrar ciência e emoção de forma tão fluida.
Em vez de escrever um roteiro e tentar encaixar as falas dentro dele — o que produziria uma narrativa artificial, rígida — fizemos o movimento inverso. Deixamos que as falas, os silêncios, as memórias e as nuances dos entrevistados moldassem o roteiro.
O resultado é que o filme se constrói a partir da verdade das pessoas, não de uma tese prévia. A cientificidade aparece como pano de fundo, sustentada pelas falas, e não impositiva. A emoção emerge porque a narrativa é, essencialmente, um mosaico de vidas, não uma aula. Esse processo permitiu que um tema demográfico e complexo ganhasse leveza, densidade humana e acessibilidade — sem perder rigor.
A entrevista com a americana Esther foi um desses encontros que permanecem. Ao falar sobre solidão, ela descreveu algo profundamente doloroso: viver em um residencial repleto de pessoas e, ainda assim, sentir-se só. Não por falta de cuidado ou estrutura, mas por ausência de proximidade real, de vínculos afetivos que sustentem o cotidiano. A frase que ela disse — e a maneira como disse — sintetizou uma verdade universal sobre envelhecer: a presença física não substitui a presença emocional. Foi uma revelação simples, mas carregada de sentido.
Espero que o filme desperte uma atenção maior ao cotidiano. Que a pessoa saia da sessão com vontade de olhar com mais cuidado para a própria rotina, para os vínculos que cultiva, para o ambiente em que vive e para a forma como organiza o próprio tempo. Que ela perceba que longevidade não está nas regiões distantes do mundo, está, também, no gesto diário, no encontro, na conversa, naquilo que damos e recebemos das pessoas ao nosso redor.
Tenho alguns projetos previstos para 2026, mas sempre trabalho com a consciência de que nem tudo depende apenas de mim. No Brasil, a luta por patrocínio para documentários é constante, muitas vezes, projetos acabam não acontecendo simplesmente porque não encontram parceiros. O que sei é que desejo continuar falando sobre envelhecimento.
“Quero reafirmar, por meio de diferentes formatos audiovisuais, que o Brasil está no “jogo do envelhecimento” tanto quanto as Blue Zones. Temos ciência, experiência, histórias, pesquisadores e comunidades inteiras vivendo práticas que dialogam diretamente com o debate global e isso precisa ganhar visibilidade.”
Quando: De 27/11 a 03/12 (5ª feira a domingo às 14 horas) e (2ª a 4ª feira às 18 horas)
Onde: Cine Marquise - Sala 3 - Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073
Ingressos: no Sympla
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