Como aproveitar o Desenrola 2.0 sem cair em novas dívidas
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São Paulo - Nesta segunda-feira (31) termina o prazo para adesão ao Desenrola 2.0, programa do governo federal criado para ajudar pessoas físicas e pequenas empresas a renegociarem dívidas em atraso em condições especiais. O programa oferece descontos de até 90%, taxa máxima de juros de 1,99% ao mês e prazo de até 48 meses. Foi liberado inclusive o uso de parte do FGTS para essa renegociação.
Em um País onde o endividamento com o sistema financeiro já atinge 49,8% das famílias, de acordo com dados do mês de junho divulgados pelo Banco Central, saber aproveitar de forma inteligente essa oportunidade é essencial para não acabar se enrolando em novas dívidas.
Afinal, é preciso reavaliar sua realidade financeira para evitar um novo ciclo de endividamento, alerta o presidente da Associação Brasileiro de Profissionais de Educação Financeira (Abefin), Reinaldo Domingos. Segundo ele, o Desenrola 2.0 pode ser uma ferramenta importante para reorganizar dívidas, mas não deve ser visto como uma solução isolada. "Renegociar não significa que o problema está resolvido. O sintoma pode até diminuir, mas a causa permanece”, afirma Domingos.
Faça um diagnóstico financeiro
Dito isso, a primeira recomendação antes de entrar na negociação de débitos é fazer um diagnóstico claro e completo da sua situação financeira. Ter registrado em uma planilha ou em um caderno o quanto ganha, despesas fixas e eventuais é o primeiro passo para saber o tamanho da parcela mensal que poderá se assumida sem comprometer seu orçamento novamente.

Nunca comece as negociações pela proposta do banco, recomenda o professor de Administração da ESPM, Jorge Ferreira dos Santos Filho.
Antes de entrar no Desenrola, faça uma espécie de inventário financeiro mesmo. Separe cada dívida por credor, saldo atualizado, juros por dias de atraso", afirma.
Em paralelo, como parte da estratégia para saneamento das contas, os especialistas recomendam a adoção de hábitos de consumo saudáveis que permitam poupar. Uma 'faxina' geral na fatura do cartão de crédito dos últimos três meses, por exemplo, identificando pequenos gastos constantes que passam imperceptíveis ao longo do mês pode trazer economias inesperadas.
De acordo com o educador financeiro Carlos Akira Sato, cofundador do Syscapital, ter organizadas as entradas e saídas de recursos do mês é fundamental para se eleger prioridades na hora da negociação. "Sem essa análise, qualquer decisão será tomada com base na urgência, e não na consciência", explica o especialista.
Esse controle é importante principalmente, acrescenta ele, para que a pessoa evite atrasos nos pagamentos e retorne à situação de inadimplência.
Resolva as dívidas mais caras primeiro
Outro ponto fundamental é avaliar a taxa de juros aplicada. Pois são os juros que tornam uma dívida 'cara', e o desconto oferecido pelo credor/banco. "Essa análise é fundamental para identificar propostas que realmente ajudam a resolver o problemas de endividamento", observa Carlos Sato. A recomendação dele é priorizar as dívidas passadas com taxas de juros mais altas na hora da renegociação e aproveitar os maiores descontos.
"É fundamental que os consumidores tenham os contratos que originaram as dívidas para que possam avaliar se, efetivamente, estão sendo concedidos descontos e taxas de juros menores", recomenda Sato.
Além disso, a troca por uma condição melhor não significa que a pessoa se livrou das dívidas. Como diz Reinaldo Domingos, mesmo a taxa de 1,99% ao mês não é baixa. "No longo prazo, esse custo continua sendo elevado, especialmente para quem já está em situação de fragilidade financeira”, alerta.
Cuidado com o valor da parcela
Na hora de negociar é importante não levar em conta somente o valor da parcela, se ela cabe no bolso, ensina Domingos. Ele pondera que uma prestação que cabe aparentemente no orçamento pode esconder um compromisso financeiro longo ou representar um custo total grande para o seu orçamento.
Não use como critério para escolher o melhor acordo a menor parcela, concorda Santos Filho, da ESPM. "Isso pode representar um alívio no curto prazo, mas também o comprometimento da renda por mais tempo".
Ou seja, o valor da parcela dessa renegociação precisa caber na renda disponível, já considerando todos os gastos essenciais da família.
Para não cair nessa armadilha, considere antes de assinar qualquer acordo os seguintes pontos:
- saldo da dívida,
- o desconto concedido,
- a taxa de juros,
- o número de parcelas
- e, principalmente, quanto efetivamente pagará ao final do acordo.
No caso dos trabalhadores autônomos e informais, que têm fonte de renda mais instável que os de carteira assinada, a recomendação é ser mais conservador no planejamento, diz Santos Filho. "Um erro é calcular a prestação com base na renda média, porque esse número é ilusório".
Vale a pena aqui, diz ele, renegociar uma prestação que seja significativamente inferior ao excedente disponível e reservar uma parte. Isso porque como a renda é sazonal, dessa maneira é possível criar uma reserva, um 'colchão de liquidez'.
Vale recorrer ao FGTS?
A necessidade ou não de utilizar parte do FGTS para quitar as dívidas é outro ponto de atenção levantado pelos especialistas. Domingos recomenda que a medida seja avaliada com cuidado, já que o Fundo é a principal, e muitas vezes única, reserva financeira do trabalhador brasileiro.
O movimento pode se mostrar arriscado principalmente se não vier acompanhado de mudanças no comportamento do endividado. “Se o trabalhador utilizar o FGTS sem mudar seu comportamento, pode até sair da dívida agora, mas ficará mais vulnerável no futuro. E o mais grave: poderá voltar ao endividamento sem a reserva que tinha antes”, afirma Domingos.
Como romper o ciclo de endividamento?
A verdade é que o ciclo de endividamento tende a seguir se repetindo se não vier acompanhado de disciplina financeira. Domingos observa que muitas famílias acabam equivocadamente por necessidade (não porque querem) usando o crédito como extensão da renda. Para romper essa circuito é preciso descobrir o que levou ao endividamento.
O caminho para deixar de ser um eterno endividado, apontam os especialistas, está na revisão de gastos, identificação de desperdícios e estabelecimento de prioridades e objetivos financeiros. A renegociação precisa ser vista apenas o início de uma transformação.
Cuidado com golpes:
- Sempre consulte apenas os canais oficiais do governo e dos bancos;
- Desconfie de propostas que exigem pagamento antes da assinatura do contrato de renegociação;
- Leia com atenção o contrato para ter certeza que está sendo assinado com o banco credor;
- Verifique com atenção os dados de destino dos pagamentos: titular da conta, beneficiário do boleto;
- Ninguém é obrigado a aderir ao Desenrola. Em caso de dúvida, entre em contato com o banco;
- Não existe renegociação em domicílio;
- O Ministério da Fazenda não envia links, mensagens digitais ou SMS para oferecer renegociação.
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