Contra barreiras invisíveis, mulheres seguem avançando no mercado financeiro
Envato
São Paulo, 08/03/2026 - Em um universo predominantemente masculino, a participação de mulheres no mercado financeiro tem sido ampliada de forma gradual e constante nas últimas duas décadas. Muitos obstáculos já foram superados, explica Ana Toledo, fundadora e CEO da Hyperion Asset, porém ainda existem algumas barreiras 'invisíveis' no caminho.
Pesquisa recente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) sobre diversidade e inclusão no mercado de capitais aponta que, entre as equipes que trabalham nas instituições financeiras, 64,4% são homens contra 35,4% de mulheres. Outro dado marcante desse levantamento: 80,9% desse público é formado por pessoas brancas.
Fonte: Anbima
As vozes femininas que ressoam dentro desse setor, visto como elitista por sua linguagem complexa, jargões técnicos e acesso restrito, consideram que foi criada uma barreira emocional para sua entrada, mas que aos poucos vem sendo quebrada.
No comparativo entre Bancos, Assets e Corretoras e Distribuidoras, a pesquisa revela que o maior desequilíbrio entre gêneros está na primeiro grupo.

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Ana Toledo, que é especializada em Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e investimentos alternativos, considera que a presença feminina no mercado financeiro deu um salto a partir da pandemia, em 2020. No entanto, ressalva ela, ainda falta representatividade.
Se as mulheres soubessem que com R$ 30 elas podem começar a investir, com certeza teríamos mais mulheres investidoras."
A executiva, que tem certificações da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e da Anbima para atuar no mercado e mais de 15 anos de experiência neste ambiente, trabalha com mais de R$ 30 bilhões em ativos sob gestão. Ela fundou no final do ano passado, ao lado de Kelly Gusmão e Liana Selles, a Ella Wealth, gestora de patrimônio criada por mulheres e para mulheres. O trabalho da companhia idealizada pelo trio é baseado no tripé investimento, educação financeira e networking. O plano, afirmam elas, é trazer a mulher como protagonista.

Liana, Ana e Kelly, fundadoras da Ella, consideram que a mulher ainda precisa de mais representatividade
Em paralelo, Ana e Kelly também lançaram o Ladies Royale, um clube de poker exclusivo para mulheres. O Ladies Royale realiza diversos encontros por ano, além de um evento de Gala, anual, na suíte presidencial do hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo. O ingresso custa em média R$ 2 mil.
Desigualdade ainda é relevante
Embora se observe alguns avanços na busca por equidade de gênero, a desigualdade ainda é nítida tanto na distribuição de cargos quanto na remuneração. Pesquisa recente da Organização Internacional do Trabalho (OIT) revela que em 2025 as mulheres ocupavam apenas 30% dos cargos de liderança no mundo. No Brasil, em particular, mulheres ainda recebem, em média, 21,2% menos que homens no setor privado, de acordo com dados do Ministério do Trabalho e Emprego.
Para o trio de executivas, no cotidiano como gestoras a desigualdade estrutural de gênero ainda é visível, com barreiras culturais, ausência de incentivos à educação financeira feminina e modelos carregados de conflitos de interesse. Para ampliar a representatividade das mulheres a Ella tem organizado eventos e mentorias instigando um senso de comunidade. Nesses encontros as participantes são estimuladas a se conectar para realizar negócios entre si.
Historicamente nós não fomos ensinadas a fazer negócios, isso é relativamente novo para as mulheres, ressalta Ana.
Nesse contexto, todos os fornecedores de eventos da Ella obrigatoriamente são mulheres.
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"Não estamos em uma guerra dos sexos. Não falamos em nós contra eles", comenta Ana Toledo. A questão nesse debate, observa, é a ideia que não é preciso ser excludente, mas ao mesmo tempo é preciso fortalecer a sua 'armadura' para continuar.
"Precisamos criar nichos para ampliar o hall de pessoas que tenham acesso a essa bagagem cultural", aponta Kelly. Queremos uma reparação história com o nosso trabalho, acrescenta.
Mentalidade do mercado
Ela, que iniciou sua trajetória em Wall Street, em Nova York, sentiu na pele o impacto de entrar em um ambiente dominado por homens.
No início da carreira, em Nova York, um colega perguntou qual era o meu preço? Afirmou que se eu não desse um valor jamais seria bem sucedida lá. Fiquei chocada e de início não entendi a pergunta. Na época essa era a mentalidade de um mercado que foi feito por homens e para homens.
Cofundadora da Warren Investimentos, eleita pela revista Forbes como uma das mulheres mais influentes do mercado financeiro brasileiro, Kelly Gusmão ainda é pioneira em iniciativas de equidade no segmento.
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Filha única, Kelly viu ainda adolescente a mãe, que dependia financeiramente do pai, ficar completamente sem recursos de uma hora para outra ao se separar. "Meu pai faliu e não tinha dinheiro para pagar a pensão. Minha mãe teve de se virar para nos manter e virou empreendedora."
Formada pela Harvard Business School, Liana Selles é a terceira integrante da trupe. Com 15 anos de experiência em liderança e gestão de negócios, ao longo de sua carreira acumulou passagens pela Stone Co., Loggi e Falconi, e esteve à frente de transformações estratégicas em diferentes setores.
Liana avalia que a maior representatividade feminina também transforma a forma de atender e gerir o patrimônio das clientes, reduzindo vieses de gênero e criando relações mais próximas. "Assim, mais mulheres se aproximam dos investimentos e assumem o controle do próprio dinheiro. E dinheiro é poder de decisão e liberdade de escolha", conclui.
Redefinindo a relação com o dinheiro
Na visão de Ana Toledo, juntas as mulheres estão redefinindo a sua relação com o dinheiro. "Nos últimos anos surgiram muitas influenciadoras falando de educação financeira. O assunto está chegando aonde elas estão. Na década de 60 e 70 a mulher precisava de uma autorização masculina para tomar um crédito", ressalta ela, apontando que hoje as mulheres já representam 26% dos investidores da B3, a bolsa brasileira..
Desde 2021, o número de mulheres que investem em produtos de renda variável cresceu 41%.Somente em 2025, a presença de investidoras cresceu 4% na B3, com a entrada de 55 mil mulheres.
Entre os caminhos possíveis para as que estão interessadas em aprender mais sobre o mercado financeiro, as três executivas destacam que a Anbima e a B3 têm oferecido diversos conteúdos e cursos gratuitos. Na B3 é possível fazer o curso "Começando a investir do zero", com carga horária de 5 horas e emissão de certificado.
Na Anbima é possível ter acesso a conteúdos como 'Entenda o Mercado financeiro' e 'Partiu investir: renda variável', além de cursos como o 'Mercado financeiro de A a Z'. Com carga horária de 6h10, esse conteúdo explica didaticamente a estrutura do Sistema Financeiro Nacional (SFN), quem são os principais players do mercado, órgão fiscalizadores e reguladores, entre outros pontos básicos.
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