Educação financeira é caminho para autonomia de mulheres, dizem especialistas
Fabiana Holtz/Viva
São Paulo, 02/03/2026 - No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher a bolsa brasileira, B3, celebrou a equidade de gênero no mercado financeiro nesta segunda-feira com um painel sobre a educação financeira como potencializadora desse equilíbrio.
O evento reuniu Ana Fontes, CEO e fundadora da Rede Mulher Empreendedora, Gabriela Prioli, advogada e comentarista, e Paulo Corre, CEO da C&A. O trio também participou da 10ª edição do toque de campainha pela equidade de gênero, ação global realizada em parceria com a World Federation of Exchanges (WFE) e a International Finance Corporation (IFC) que reúne as principais bolsas do mundo.
A abertura do painel contou ainda com as presenças do presidente da B3, Gilson Finkelsztain, e da oficial sênior da IFC, Luciana Galan.
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Ao abrir o evento, Finkelsztain afirmou que a diversidade de gênero é o tema que mais tem avançado na agenda ESG.
Acreditamos que ambientes diversos são mais inovadores. Não é possível falar em inclusão justa sem falar em independência financeira", afirmou.
Desenvolvimento de habilidades
Segundo Ana Fontes, além da educação financeira é preciso trabalhar outras habilidades com as mulheres, como negociar e falar em público. Um dos caminhos para se quebrar esse ciclo de desigualdades, aponta Fontes, é buscar qualificação, capacitação e redes de relacionamento de negócios.
Para nós mulheres é importante olhar para a educação financeira não como algo que está distante, mas trazendo isso para o seu dia-a-dia. A autonomia financeira é fundamental para que as mulheres se libertarem de situações de opressão."
Fontes conta que, por experiência na Rede Mulher Empreendedora, 80% das mulheres que passam por algum tipo de treinamento saem mais confiantes e 60% registram um aumento no faturamento do seu negócio. E mais: a mulher empreendedora investe primeiro na educação dos filhos, na melhoria da situação da família e na comunidade, além de ajudar outras mulheres. "Esse é o impacto social da educação financeira", afirma.
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Infelizmente, acrescenta ela, o acesso a crédito ainda é um desafio para mulheres. "Há caminho gigante para chegar a um acesso mais justo de capital para as mulheres. Tem muito para evoluir nessa frente", diz.
Desigualdade salarial
Segundo Luciana Galan, da IFC no Brasil, dados do ano passado mostram que o Brasil ainda não tem um cenário muito interessante em relação a equidade de gênero e um dos motivos desse atraso é econômico.
A desigualdade salarial entre homens e mulheres que exercem a mesma função ainda é um grande entrave, bem como a dificuldade de acesso ao crédito para o público feminino, afirma.
A executiva ressalta que o acesso pleno das mulheres ao mercado de trabalho proporcionaria um crescimento do PIB em torno de 11%.
Com o respaldo de dados recentes, Galan destacou que não é possível ignorar que quase 30% das mulheres brasileiras já sofreram alguma violência doméstica e o Brasil hoje é o quinto país com mais feminicídios no mundo. "As mulheres hoje são mais qualificadas, mas ainda tem menos oportunidades e a questão é estrutural".
A suposição da falta de disponibilidade de tempo da mulher, por conta dos filhos, é o que ainda tem pesado contra as mulheres ao tentar construir a sua independência financeira. E isso incluiu a sua busca por uma promoção no trabalho, aponta Priori.
"Uma mulher que negocia um salário mais alto não é vista da mesma forma que o homem que negocia um salário mais alto. Mulher em uma posição de poder gera incômodo", diz a advogada Gabriela Priori.
No âmbito da gestão de patrimônio, ela observa que esse é um tema ainda muito recente para as mulheres e repleto de preconceitos.
É mais fácil culpar a mulher e dizer que ela não sabe fazer do que mexer na estrutura. Essa inferiorização da mulher que nos marcou por séculos, com uma justificativa de pseudociência de que somos mentalmente mais frágeis, precisa ser quebrada."
Priori defende um diálogo mais aberto para que as mulheres possam ocupar todos os espaços. "O dinheiro precisa ser um assunto normalizado dentro de casa. Se a escolha da mulher é ficar em casa, por exemplo, que o dinheiro seja discutido e ela tenha a possibilidade de ir embora quando quiser". Ao declarar ser defensora de uma estratégia mais subversiva, Priori aponta desigualdades ainda polêmicas como as diferenças entre a licença maternidade e paternidade.
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