Facebook Viva Youtube Viva Instagram Viva Linkedin Viva

Mulheres encontram na educação financeira caminhos para um novo começo

Envato

Com autonomia financeira o leque de opções para as mulheres se amplia - Envato
Com autonomia financeira o leque de opções para as mulheres se amplia
Por Fabiana Holtz

05/03/2026 | 08h00

São Paulo, 05/03/2026 - A conexão entre educação financeira e liberdade é muito clara no universo das finanças pessoais, mas para as mulheres esse vínculo vai um pouco mais além. Em muitos lares ela pode representar a quebra de um ciclo de violência e a oportunidade de construir um novo começo.

No caso dos lares de famílias de baixa renda, a falta de acesso à informação combinado a ausência de políticas públicas de suporte para essas mulheres tornam o caminho ainda mais difícil.

Izabel Rocha, educadora financeira com graduação em economia e mestrado em Finanças Comportamentais, afirma que, por questões estruturais e sociais, as mulheres estão mais preparadas que os homens para organizar o orçamento familiar.

Rocha usa a própria história familiar como exemplo ainda comum em muitas periferias brasileiras e que felizmente teve um bom desdobramento.

Leia também: Número de vítimas de feminicídio em janeiro é recorde em SP

"Minha avó mandou meu avô embora de casa quando ele decidiu parar de trabalhar e disse que ela deveria sustentar a casa. Quando se viu sozinha e com duas filhas foi trabalhar como doméstica em casa de família", recorda.

Anos depois, minha mãe veio para a capital trabalhar como babá em casa de família. Mesmo sem rede de apoio, as duas juntas conseguiram guardar dinheiro e comprar terreno para construir sua casa."

Para Rocha, a consciência do próprio potencial para sustentar financeiramente sua família e de acreditar em si mesma foi fator essencial para que sua avó tomasse a decisão que tomou. 

"Em um país onde mais da metade das famílias e chefiada por mulheres, muitas que são mães solo, saber lidar com dinheiro se torna uma questão de sobrevivência", diz.

E elas sabem que o dinheiro representa em muitos aspectos segurança e liberdade para deixar uma rotina de agressões e abusos. Mas faltam políticas públicas que ofereçam o suporte necessário para que consigam se estruturar."

Proteção

Ana Leoni
Autonomia financeira tem potencial transformador, diz a especialista em educação financeira Ana Leoni

Ensinar as mulheres sobre a importância do dinheiro desde a infância é também uma estratégia de proteção, concorda Ana Leoni, especialista em educação financeira e cofundadora da Bem Educação. "Autonomia financeira amplia escolhas. Uma mulher que entende de dinheiro tem mais condições de decidir sobre a própria vida", ressalta.

E o impacto é coletivo, acrescenta Leoni. "Mulheres financeiramente preparadas tendem a influenciar positivamente suas famílias, comunidades e outras mulheres, criando ciclos mais sustentáveis de educação, planejamento e proteção", destaca.

Na avaliação da especialista, a falta de conhecimentos básicos de finanças pode, sim, perpetuar desigualdades.

Se as meninas não aprendem desde cedo como o dinheiro funciona, elas entram na vida adulta tomando decisões financeiras sem preparo. Isso amplia riscos e limita oportunidades.”

Leia também: Educação financeira é caminho para autonomia de mulheres, dizem especialistas

Ferramentas

Incluir a educação financeira desde cedo na vida das mulheres apresenta as ferramentas necessárias para que elas consigam planejar sua vida financeira, afirma Rocha. Já Leoni destaca que essa mulheres provavelmente serão futuras chefes de família, empreendedoras, profissionais e investidoras.

A violência doméstica ainda se mostra o principal entrave para a evolução financeira dessas mulheres. Em 2025, 3,7 milhões de brasileiras relataram ter sofrido algum tipo de violência doméstica ou familiar, de acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto de Pesquisa DataSenado. A dependência financeira é um fator que pode dificultar o rompimento de relações abusivas.

Leia também: Saiba como aderir ao programa de microcrédito do governo para empreendedores

Por falta de conhecimento ou de autoestima, muitas mulheres acabam delegando sua vida financeira ao homem mais próximo: pai, marido ou irmão. "Neste processo, deixam de lado a oportunidade de aprender a cuidar do próprio dinheiro e podem acabar ‘presas’ em relações tóxicas por medo de perder o padrão de vida ou de não conseguir sustentar os filhos”, conta Leoni.

[Colocar ALT]
Izabel Rocha conta que a ausência de políticas públicas ainda limita as possibilidades das mulheres da periferia
Foto: Arquivo pessoal

Para Izabel Rocha, é necessário mais investimentos em políticas públicas para romper com esse ciclo e orientar e oferecer suporte para que essas mulheres saiam desses espaços de violência.

Ela se refere a programas de qualificação profissional voltados a vítimas de violência e políticas de incentivo à inserção no mercado de trabalho, como cotas para vagas de emprego tanto em empresas públicas quanto privadas.

Outro obstáculo apontado pelas especialistas em finanças é a falta de acesso à informação e ao planejamento, principalmente entre as mulheres de baixa renda. Leoni recorda que educação financeira não é só ter dinheiro na conta e aprender a economizar.

Leia também: Brasileiros 50+ da periferia trabalham por sobrevivência, mostra estudo

Nesse contexto, a inclusão da educação financeira no currículo escolar representa um avanço importante. O aprendizado, no entanto, precisa ser contínuo e complementado em casa, com ações simples no cotidiano, afirma Leoni.

Ter conversas corriqueiras sobre orçamento familiar, ensinar conceitos básicos como poupança, consumo consciente e planejamento, além de incentivar metas financeiras de curto e longo prazo já são um bom começo.

Comentários

Política de comentários

Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.

Gostou? Compartilhe

Últimas Notícias