Dirlene Silva
Colunista VIVA
07/10/2026 | 15h12
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Economista, LinkedIn Top Voices e autora do livro “Do lixo a Paris: minha jornada de filha da Lixeira a referência em Educação Financeira”.
Dia das Crianças: a longevidade financeira começa ainda na infância
A educadora financeira fala da relação das crianças com dinheiro. Se o acesso começa cedo, é preciso também aprender sobre economia
Envato
A longevidade financeira deve ser abordada desde a infância, pois a relação com o dinheiro se forma nas primeiras experiências e ensinamentos familiares, impactando as escolhas futuras dos indivíduos.
Uma pesquisa da Serasa revelou que 53% dos pais já falam sobre finanças com os filhos antes dos 8 anos, evidenciando uma mudança cultural em relação à educação financeira nas famílias brasileiras.
Para promover uma relação saudável com o dinheiro, é essencial que os pais ensinem conceitos financeiros práticos e permitam que as crianças aprendam com suas próprias escolhas, preparando-as para um futuro financeiro mais consciente.
Porto Alegre - Quando falamos em longevidade, é comum imaginarmos uma conversa sobre o futuro distante. Sobre envelhecer, preparar a vida para os 60, 70 ou 80 anos. Mas defendo que a longevidade financeira não começa quando envelhecemos. Começa muito antes, no início da vida.
Como citei no artigo “A sua vida financeira começou muito antes de seu primeiro salário”, nossa relação com o dinheiro começa ainda na infância, nas conversas que ouvimos em casa, nas preocupações que percebemos, nos exemplos que observamos e até nos silêncios.
Posteriormente, essa relação se revela nas escolhas, na forma de consumir, esperar, renunciar, planejar e compreender o valor das coisas.
Por isso, eu defendo que longevidade financeira deve ser pensada ainda na juventude. O futuro se constrói agora"
Uma geração que começa a falar sobre dinheiro
Durante muito tempo, dinheiro foi assunto proibido dentro de muitas famílias brasileiras, mas felizmente isso está mudando!
Pesquisa recente da Serasa, realizada em parceria com o Instituto Opinion Box, mostrou que 53% dos pais já começaram a falar sobre finanças com os filhos antes dos 8 anos. Outros 41% acreditam que a educação financeira deve começar nos primeiros anos do ensino fundamental. Outro dado que chama atenção é que 73% das crianças tiveram acesso ao primeiro cartão ou conta antes dos 15 anos.
Esses números mostram que crianças e adolescentes estão tendo contato cada vez mais cedo com instrumentos financeiros, e se o acesso começa cedo, a educação também precisa começar.
Uma distinção importante: acesso financeiro não é sinônimo de educação financeira. Ter uma conta, um cartão ou fazer um Pix, infelizmente não significa compreender orçamento, juros, consumo, planejamento, riscos ou consequências das próprias escolhas. Economia é, sobretudo, pessoas.
Falar sobre dinheiro com crianças não deve ser uma antecipação de preocupações da vida adulta, e sim, oferecer ferramentas para que elas possam construir, ao longo da vida, uma relação mais saudável com o dinheiro.
É a partir dessa visão que me defino como a economista de pessoas. Além dos números e das planilhas, existem comportamentos, histórias, sonhos, medos, escolhas e diferentes realidades.
Longevidade financeira também se aprende
O “não” também ensina, e ensina muito. Eu venho de uma realidade econômico-financeira bastante difícil. Por isso, seria natural querer dar à minha filha tudo aquilo a que eu não tive acesso. Mas a maturidade me fez compreender que esse “tudo” não se referia apenas a coisas materiais.
Eu não tive educação financeira nem na escola e nem na família. Aprendi sobre economia e construí uma boa relação com o dinheiro de maneira intuitiva, a partir das experiências, das escolhas e das limitações que fizeram parte da minha vida.
Por isso, entendi que dizer “não” também poderia ser uma forma de educar. Obviamente, o “não” com explicação, ensinando que não podemos ter tudo, o tempo todo e imediatamente. Isso é ensinar a diferença entre o querer e o poder, o que na vida real, se traduz em escolhas.
Educação financeira no cotidiano
Eu não acredito em receita pronta, tampouco em verdades absolutas. Mas algumas atitudes simples podem transformar situações do cotidiano em oportunidades de educação financeira.
Cinco atitudes simples que podem ajudar a construir uma boa relação com o dinheiro desde cedo
1. Ensine que dinheiro é meio, não fim
Dinheiro não deve ser apresentado como algo ruim, doloroso ou como sinônimo de felicidade. É importante ensinar que ele é uma ferramenta para fazer escolhas, realizar objetivos e construir possibilidades. Eu costumo dizer que o dinheiro é ponte. Quanto antes uma criança compreender que o dinheiro deve nos servir, e não o contrário, mais saudável poderá ser sua relação com ele.
2. Fale sobre preço, valor e escolhas
Ao invés de simplesmente responder “está muito caro” quando a criança pede alguma coisa, aproveite para conversar... Cabe no orçamento? Precisamos disso agora? Existe outra prioridade? Convide-a para fazer a lista de compras do mês, por exemplo. É através da percepção de que os recursos são limitados que começa a compreensão de prioridades e que escolher também significa renunciar.
3. Mostre que o dinheiro continua existindo, mesmo sem vê-lo
Minha filha cresceu vendo pagamentos por Pix, aproximação, cartão ou celular. Certa vez, ela pediu algo e eu respondi: - Não tenho dinheiro. Instintivamente ela disse: - Passa o cartão! Esta foi a oportunidade para lhe explicar que pagar com o cartão crédito, Pix ou celular continua significando gastar dinheiro, mesmo sem enxergar uma nota saindo da carteira.
4. Transforme a mesada ou semanada em um laboratório de escolhas
Muitos pais me perguntam qual é a idade certa para começar a dar mesada ou semanada. Eu não acredito que exista uma idade ideal. Cada criança tem seu tempo, e cada família, sua realidade.
Com minha filha, fui testando. Introduzi a semanada quando ela completou 7 anos. Naquela época, ela gastava todo dinheiro em balas e picolés para as amigas. E estava tudo bem. Permitir erros, conversar sobre eles e ajudar a criança a pensar no que poderia fazer diferente é a educação financeira acontecendo na vida real.
5. Além do dinheiro: conhecimento também é patrimônio
Sempre que pensamos no futuro financeiro, o primeiro pensamento é o patrimônio que conseguiremos deixar. Entretanto, às vezes, esquecemos que conhecimento também é patrimônio"
Ao escrever meu livro "Do lixo a Paris: minha jornada de filha da Lixeira a referência em Educação Financeira", revisitei também minha própria relação com o dinheiro e percebi ainda mais o quanto aquilo que aprendemos desde cedo pode nos acompanhar pela vida. Nossa origem influencia nossa história, mas não é destino.
Falar sobre consumo, planejamento, trabalho, sonhos, limites e escolhas são aprendizados que representam uma forma de cuidar do futuro de quem amamos. Por isso, ratifico: a infância e a longevidade devem andar juntas! São as escolhas de hoje que constroem o amanhã.
Até o próximo artigo!
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