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Motoristas de caminhão vão envelhecendo no Brasil sem reposição por jovens

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O motorista de caminhão profissional brasileiro tem em média 54 anos, mais velho que a média de 47 anos em 2011 - Adobe Stock
O motorista de caminhão profissional brasileiro tem em média 54 anos, mais velho que a média de 47 anos em 2011
Por Alexandre Barreto

28/07/2026 | 08h24 ● Atualizado | 08h35

São Paulo - O setor de transporte de carga rodoviária passa por uma mudança estrutural: os caminhoneiros estão mais velhos e há menos entrada de jovens na profissão. O rumo dessa história é a escassez de mão de obra, com consequente impacto econômico.

O número de motoristas habilitados para dirigir caminhões no Brasil, com Carteira Nacional de Habilitação (CNH) nas categorias C, D e E, caiu de 5,6 milhões em 2015 para 4,4 milhões em 2026, uma redução de 21%. O levantamento foi realizado pela consultoria de logística Ilos a pedido do VIVA, com base em dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), órgão federal responsável pela gestão do trânsito no País.

A queda no número total de motoristas vem acompanhada de uma transformação no perfil etário da categoria. Em 2026, 60% dos condutores profissionais têm mais de 51 anos, contra 48% registrados em 2015. No outro extremo, a faixa de 18 a 30 anos, que representava apenas 6% do total há dez anos, caiu para 4% atualmente. A faixa intermediária, de 31 a 40 anos, também recuou, de 16% para 13%.

O reflexo direto desse movimento aparece na idade média da categoria. Em 2011, segundo o levantamento, o motorista profissional brasileiro tinha em média 47,6 anos. Em 2026, essa média subiu para 54,7 anos. Os números indicam que a reposição de motoristas mais jovens não acompanha o ritmo de saída dos mais velhos por aposentadoria ou mudança de profissão.

Segundo a Ilos, a redução no número de condutores disponíveis tende a afetar diretamente a oferta de serviços de transporte rodoviário de cargas, tanto da quantidade de veículos quanto da disponibilidade de motoristas para operá-los. "Para as indústrias, a restrição na oferta de transportes pode resultar no aumento dos preços dos fretes e impactar a eficiência da cadeia logística", diz o estudo.

Os desafios da profissão de caminhoneiro

De fato, a falta de profissionais qualificados consolidou-se como um dos principais entraves para o Transporte Rodoviário de Cargas. O problema foi citado por 28,1% das empresas, ficando atrás apenas da retração do mercado interno, mencionada por 40,7% dos entrevistados em levantamento da NTC&Logística. Nesse setor, a contratação de motoristas e transportadores agregados é o maior desafio, com  88% das repostas.

A redução de motoristas já é percebida no departamento de Recursos Humanos, de acordo com Vivian Nunes, gerente de RH do Instituto Setcepar de Educação no Transporte (Iset). Os caminhões atuais contam com tecnologia embarcada que traz mais conforto e atratividade, mas essa transformação ainda não é percebida pelo público jovem, que associa a profissão a rotinas rígidas e pouca liberdade.

Ela cita três fatores que afastam candidatos da profissão: o custo elevado para obter a CNH nas categorias exigidas, o tempo prolongado longe da família e a percepção de que a rotina de estrada é exaustiva.

O desconhecimento sobre o setor pesa contra a categoria, assim como a percepção de que a profissão não oferece qualidade de vida", diz a gestora de RH.

Segundo ela, a concorrência por motoristas mais experientes tem crescido junto com a escassez de mão de obra, o que amplia a margem de negociação salarial e de benefícios para esse público. Afinal, o perfil de habilidades exigido do motorista mudou. Além da direção defensiva e do conhecimento da legislação de trânsito, incluindo regras do Mercosul, o profissional hoje precisa lidar com tecnologia embarcada, telemetria e atendimento ao cliente, já que representa a marca da transportadora nas estradas.

Estratégias de retenção profissional

Em relação às estratégias de retenção, a executiva cita programas de qualidade de vida, ação inicialmente adotada por transportadoras maiores e hoje replicada por operadores menores. São iniciativas como o planejamento antecipado de datas importantes para que o motorista possa estar em casa e ações voltadas à aproximação da família com a empresa.

Também projetos ergonômicos já fazem parte dos documentos oficiais de segurança do trabalho das transportadoras, com reforço recente em ações de conscientização sobre paradas obrigatórias, alongamento e alimentação adequada.

Há investimentos que vão além dos exames ocupacionais tradicionais, com avaliações voltadas às necessidades específicas dos caminhoneiros. Ou seja, essa preparação já acontece para além das exigências previstas em lei", destaca.
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Sobre políticas públicas, ela defende que a desburocratização da CNH profissional seja acompanhada de incentivo a mais horas de aula, para garantir segurança no trânsito, e de apoio financeiro que reduza o custo de entrada na profissão.

Caso o País não consiga renovar a categoria nos próximos anos, a executiva prevê atrasos na cadeia de entregas e impactos econômicos que se estendem a outros setores dependentes do transporte rodoviário.

Remuneração e uso do celular

A retenção passa também pela questão do valor do frete e do conhecimento de tecnologia, como explica o CEO da Motz, André Pimenta. Segundo o líder da empresa de tecnologia para o setor de transporte, a fidelização depende principalmente da oferta constante de fretes atrativos, que garantam ao motorista rodar o maior tempo possível e, com isso, aumentar sua remuneração.

Pimenta descreve a digitalização como um dos principais desafios do setor. Para ele, praticamente todos os motoristas já usam smartphones no dia a dia, mas a adoção de ferramentas digitais como instrumento de trabalho ainda está em curso, especialmente entre um público majoritariamente acima de 50 anos, que não cresceu em contato com esse tipo de tecnologia. Por outro lado, avanços na conectividade, como o 5G, vêm ampliando o acesso à informação em regiões antes isoladas.

O especialista afirma que a tecnologia pode ajudar o setor a se adaptar à redução da oferta de mão de obra, tornando as operações mais eficientes, mas não resolve o problema sozinha. 

Pimenta defende que a retomada da atratividade da profissão passa por um reequilíbrio entre oferta e demanda, que deve se refletir em melhores condições de remuneração, segurança nas estradas e infraestrutura de apoio. Ele cita iniciativas de clientes da Motz, como a Votorantim Cimentos, que mantêm casas de apoio ao motorista em suas plantas industriais, com espaço para descanso, banheiro e alimentação.

Para o CEO, iniciativas como essa, somadas a investimentos em tecnologia que agilizem o recebimento de pagamentos e o acesso a cargas, podem ajudar a atrair uma nova geração de motoristas para o setor.

O grande desafio é tornar a profissão de caminhoneiro novamente atrativa para os jovens. Isso passa por remuneração, melhores condições de trabalho, infraestrutura e mais segurança nas estradas. Quando esses fatores evoluem, a profissão volta a ser mais atraente, tanto do ponto de vista financeiro quanto da qualidade de vida".

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