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Sobre a coluna

Empreendedor social, fellow Ashooka, líder do Movimento LABoo de inovações pela longevidade, e realizador do Fórum e Festival Longevidade


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Longevidade como vetor de inovação e desenvolvimento, não um fardo

Foto: Envato Elements

Se o futuro é multigeracional, também precisamos revisar os símbolos de uma sociedade “jovem-cêntrica” - Foto: Envato Elements
Se o futuro é multigeracional, também precisamos revisar os símbolos de uma sociedade “jovem-cêntrica”

São Paulo - Historicamente, as sociedades foram organizadas de modo linear e estratificadas por faixas etárias, como se houvesse uma correlação natural entre a idade cronológica e as atividades permitidas ou esperadas para cada indivíduo.

A escola acontecia na infância e na adolescência; a educação superior marcaria a transição para a vida adulta; e esta seria definida pelo trabalho e pela formação de patrimônio. À velhice caberia usufruir os benefícios acumulados durante a vida adulta, com a aposentadoria e alguma vida social.

Porém, dois fatores, em sentidos aparentemente opostos, alteraram profundamente esse desenho. De um lado, ganhamos tempo, com o aumento da expectativa de vida e da capacidade de nos mantermos mais saudáveis. De outro, a transformação acelerada das cadeias produtivas, os ciclos tecnológicos cada vez mais curtos e a rápida obsolescência das profissões provocaram uma mudança de era. Essa combinação rompe a linearidade da vida e a associação automática entre idade e tais fases descritas.

A idade já não é um indicador suficiente para definir o que uma pessoa pode ou não fazer."

Novos ciclos de estudo

Diante dos avanços da IA e das novas tecnologias, precisamos nos reinventar e ingressar em novos ciclos de estudo, independentemente da faixa etária. Podemos começar uma nova carreira ou um novo ciclo profissional em qualquer momento. Isso representa uma oportunidade para cada indivíduo repensar a própria identidade, mas também um desafio coletivo, uma vez que o mundo que deixou de ser linear.

E estamos vivenciando uma época de profundas transformações econômicas, sociais e tecnológicas. As estatísticas mostram que o Brasil envelhece seis vezes mais rapidamente do que os países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Em poucas décadas, alcançaremos uma distribuição etária semelhante à de países como Espanha e Itália, onde cerca de metade da população já tem mais de 50 anos.

Carreiras com 'life skills'

Nunca tivemos à disposição tantos profissionais maduros e experientes. Temos hoje o maior repositório de habilidades socioemocionais — as chamadas “soft skills” — e de competências construídas ao longo da vida, as “life skills”.

Se colocarmos esse repertório em contato com o dos mais jovens, para que trabalhem em conjunto, criaremos um ambiente especialmente fértil para a inovação."

O primeiro passo talvez seja romper esse isolamento e pavimentar um caminho para a fertilização cruzada de repertórios. Esse potencial não surge por acaso. Ao longo de trajetórias que, em uma geração, ganharam mais de 30 anos no Brasil, as pessoas acumulam múltiplos papéis: profissionais, pais, filhos, cidadãos e cuidadores.

Essa jornada polivalente resulta no desenvolvimento de valiosas competências socioemocionais e de vida. Essas habilidades são ouro para um mundo com desafios cada vez mais complexos.

Para destravar esse potencial inovador, as regras que regem os setores produtivo, educacional e social precisam ser revistas. O modelo corporativo tradicional, fundamentado em longas jornadas diárias e semanais, foi baseado em um perfil juvenil de força de trabalho, que já não responde à realidade atual.

A inovação no mercado de trabalho requer modelos flexíveis, com adaptação de cargos, tempo de dedicação e foco na entrega contínua de valor para dar conta da diversidade e potencial de cada idade.

Da mesma forma, o sistema educacional precisa migrar de uma formação pontual, concebida como transição para a vida adulta, para uma aprendizagem ao longo de toda a trajetória — uma trajetória que se transforma continuamente. O “lifelong learning”, ou aprendizado ao longo da vida, não pode ser apenas uma expressão associada à tecnologia e ao mercado. Ele precisa se tornar um princípio de organização da vida contemporânea.

Se o futuro é multigeracional, também precisamos revisar os símbolos de uma sociedade “jovem-cêntrica”. Mas, para que a longevidade se consolide como um dos principais vetores globais de inovação, muitas barreiras culturais e institucionais ainda precisam ser derrubadas.

O caso inovador da 'Biza Chair'

No Movimento LABoo, no qual buscamos fomentar integração de pessoas de todas as idades, exemplos se acumulam da potência da inovação intergeracional. Um exemplo disso foi o desenvolvimento da “Biza Chair”. Em 2016, provocamos estudantes do Centro Universitário Newton Paiva, de Belo Horizonte (MG), a colaborar com a redes de pessoas de diferentes segmentos e instituições de longa permanência para idosos (ILPIs).

A ideia era desenvolver um projeto e inscrevê-lo em uma competição internacional promovida pela prestigiada Universidade Stanford, na Califórnia.

Os estudantes tinham apenas uma semana para escolher um tema e desenvolver o material. Foi nesse intervalo curto, sob pressão de prazo, que surgiu o projeto de uma cadeira de baixo custo e destinada a pessoas idosas com mobilidade reduzida. O projeto conquistou um prêmio especial de design na competição global promovida por Stanford entre alunos de todo o mundo. O resultado, alcançado em apenas uma semana, só foi possível graças às trocas entre gerações, conhecimentos distintos e experiências complementares.

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