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Venda clandestina de canetas emagrecedoras chega até a salões de beleza

Polícia Federal/Divulgação

Em grupos de aplicativos de mensagens e redes sociais, ofertas de canetas emagrecedoras são frequentes - Polícia Federal/Divulgação
Em grupos de aplicativos de mensagens e redes sociais, ofertas de canetas emagrecedoras são frequentes
Por Emanuele Almeida e Marcel Naves

22/08/2026 | 10h02

São Paulo - O que começou como um avanço revolucionário no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade crônica transformou-se em uma corrida estética desmedida. Com a popularidade dos resultados, as chamadas canetas emagrecedoras deixaram os consultórios e balcões de farmácia e agora estão até em salões de beleza.

Atualmente a compra desses fármacos exige pouco mais do que uma busca rápida em redes sociais ou em grupos de aplicativo de mensagens. Apesar da necessidade de acompanhamento profissional, o cenário real reflete a banalização do acesso, onde o comércio ilegal se espalha em diferentes frentes.

Redes sociais e mensageiros

Em grupos privados de WhatsApp, a oferta geralmente ocorre por intermédio de alguém que teve acesso ao produto por meio ilegal (em geral, contrabando). A abordagem sempre tem como atrativo o preço baixo.

A reportagem do VIVA teve acesso a um áudio, onde um professor do ensino médio de uma escola pública do ABC Paulista, oferece as canetas a uma colega de trabalho e alerta para que se tenha cuidado, pois os medicamentos oferecidos ainda não foram autorizadas pela Anvisa.

Nas mensagens as canetas oferecidas tinham como procedência o Paraguai. Em outra gravação, por exemplo, a manicure de um salão de beleza da grande São Paulo explica que quer compra os produtos de farmácias de procedência e que o transporte é feito com todo o cuidado.

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Mercado perigoso e sem controle

O diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Clayton Macedo, reconhece que o avanço dos medicamentos para obesidade e diabetes impulsionou um mercado paralelo de versões clandestinas e contrabandeadas do Paraguai.

Por esta razão, o especialista defende o acesso democrático ao tratamento, que, segundo ele, deve ser conquistado por meio da redução de preços e da sua inclusão no SUS, não pela exposição da população a produtos irregulares.

A gente não pode preconizar uma equidade ilusória, onde a gente dá acesso a algo que não é confiável. O que nós queremos é acesso ao tratamento adequado."

Dados do contrabando

Dados da Receita Federal mostram que há um aumento considerável  de apreensões de canetas, seringas e frascos com semaglutida e tirzepatida na fronteira do Brasil com o Paraguai, em Foz do Iguaçu, no Paraná.

De acordo com o órgão, as apreensões no primeiro semestre de 2026 chegaram a 76.112 canetas, com um valor estimado de R$ 19.532.406,07. O recorde ocorreu em junho, com 25.828 apreensões, avaliadas em R$ 4.296.662,15.

Os riscos para quem compra

O advogado criminalista e sócio da Advocacia Pimentel, André Fini Terçarolli,  afirma que a compra de uma pequena quantidade de canetas emagrecedoras , mesmo que introduzidas ilegalmente no País e desde que sejam para o consumo próprio, não configura crime.

O consumidor final que não participou da importação e não pretende revender, distribuir ou aplicar o produto em terceiros encontra-se, em princípio, fora das condutas previstas na lei."

No entanto o especialista alerta que se o comprador participar da entrada clandestina do produto, pode se enquadrar no artigo 273 , que diz respeito  ao  crime de falsificação ou alteração de produtos medicinais, com penas que vão de 10 a 15 anos, além de multa.

A garantia para quem compra

Para o especialista em Direito do Consumidor e da Saúde Stéfano Ribeiro Ferri, se  houver danos à saúde em razão do uso de uma caneta emagrecedora de origem contrabandeada, é possível buscar judicialmente a reparação dos prejuízos.

Segundo o especialista, mesmo quando não se saiba a origem do produto "ilegal", a responsabilização é possivel, embora neste caso seja preciso o auxílio de um profissional.

Ainda assim, a ausência de regularidade do produto não elimina, por si só, o direito do consumidor de buscar reparação”.

O advogado orienta que é fundamental preservar a embalagem, o lote, a nota fiscal ou comprovante de compra, além das mensagens trocadas com quem se fez a negociação.

Polícia Federal tenta combater

A Polícia Federal, em ação conjunta com a Receita Federal e a Anvisa, intensificou as operações para combater o contrabando, a falsificação e a comercialização clandestina de canetas emagrecedoras irregulares no País.

O cerco policial abrange desde o rastreamento de ofertas ilegais a fiscalização rigorosa nos corredores de fronteira com o Paraguai, onde os medicamentos são frequentemente transportados sem qualquer controle de refrigeração.

O balanço das ações evidencia a escalada da repressão, com as apreensões dessas substâncias saltando de 609 unidades em 2024 para mais de 60 mil em 2025, além de ultrapassar 54 mil retenções nos primeiros meses de 2026.

No total acumulado, as interceptações de frascos e canetas em fronteiras estratégicas como Foz do Iguaçu (PR) e Ponta Porã (MS) já causaram um impacto financeiro superior a R$ 51 milhões às organizações criminosas, incluindo a apreensão de insumos brutos capazes de gerar mais de 1 milhão de doses clandestinas.

O balanço da Anvisa

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), reforça que é proibido o ingresso, venda e uso de canetas emagrecedoras que não possuem registro sanitário no Brasil.

A medida visa combater o aumento do comércio ilegal e alertar para os riscos causados à saúde, ausência de garantias de eficácia, risco de falsificação, armazenamento inadequado e erros de dosagem causados por bulas em idiomas estrangeiros.

O órgão reforça que os medicamentos liberados dessa classe exigem receita médica com retenção, e que a entrada de versões não registradas no País só é permitida em exceções para uso pessoal, desde que devidamente justificadas por prescrição médica.

Riscos à saúde

O médico endocrinologista do hospital Edmundo Vasconcelos (SP), Fellipe Vidal Barsotti ressalta que procedência e rastreabilidade não são detalhes, mas parte da segurança de um tratamento. O especialista alerta para as consequências de se consumir um medicamento sem procedência.

Uma perda de peso mal conduzida pode ser acompanhada de perda de massa muscular, principalmente quando não existe uma estratégia nutricional adequada. Também podem ocorrer efeitos gastrointestinais graves e outras situações clínicas que precisam ser avaliadas".

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