O que o álbum da Copa pode ensinar sobre dinheiro para crianças
Foto: Reprodução Instagram
São Paulo - O início da Copa do Mundo de futebol está próximo e com ela chega uma mania que toma conta de milhões de torcedores: o álbum de figurinhas. A brincadeira este ano está um pouco mais cara, é verdade, mas esse momento pode se tornar um importante aliado dos pais na introdução de conceitos básicos para as crianças sobre como lidar com o dinheiro.
Um pacotinho de figurinhas custando R$ 7 e a expansão do número de seleções de 32 para 48. Assim, completar o álbum pode custar cerca de R$ 1 mil, o que representa cerca de 70% de um salário mínimo.
"Essa atividade é quase um laboratório perfeito de educação financeira", aponta Thiago Godoy, cofundador da Bem Educação, empresa que presta serviços para escolas, e fundador da Papai Financeiro, empresa de educação financeira.
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O pacotinho representa o desejo imediato, aquela vontade de abrir agora, sentir a emoção. Já completar o álbum é um objetivo de longo prazo. Quando a criança entende que não dá pra comprar todos os pacotes de uma vez, ela começa a perceber que precisa fazer escolhas. E aí entra um aprendizado poderoso".
Prática da negociação
Ao longo do processo de preenchimento do álbum é possível mostrar também a diferença entre desejo imediato de um objetivo de longo prazo, controlando a ansiedade e mostrando que o planejamento e as escolhas são necessárias. "Ensinar a esperar não é frustrar, é preparar para decisões melhores no futuro", diz Godoy.
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Exercitar as habilidades sociais é o segundo ponto básico que pode ser trabalhado nessa atividade. As figurinhas repetidas incentivam a formação de grupos de troca, fator que vai além do planejamento financeiro.
Quando começam a surgir muitas figurinhas repetidas, fica claro que continuar comprando pode não ser a melhor estratégia, afirma Godoy.
Além de uma oportunidade de fazer novas amizades, a participação em grupos de troca ajuda a desenvolver habilidades de negociação, empatia e comunicação, apontam os educadores financeiros.
Planejamento e consciência dos gastos
Cilene Ribeiro Cardoso, professora de finanças da Universidade São Judas e embaixadora de educação financeira da B3, concorda que o álbum pode ser uma poderosa ferramenta para ensinar planejamento e letramento financeiro, bem como habilidades sociais, para crianças e adolescentes.
Ensinar a negociar e ter consciência de gasto, segundo Cardoso, é um dos importantes pilares da educação financeira a ser trabalhado.
É fundamental negociar com as crianças sobre o gasto total e o valor real de cada pacote de figurinhas", explica Cardoso.
Também é um excelente momento para aprofundar a conversa sobre consumo consciente, pois passa a envolver a criança nas decisões, observa a economista Olívia Resende, fundadora da Germinar Educação, PhD em administração e pedagoga com especializações em finanças, economia comportamental e neuroeducação. "Aqui, a criança passa a compreender, na prática, que o dinheiro precisa ser distribuído entre diferentes prioridades e escolhas."
Os pais podem ensinar como é possível evitar gastos adicionais, bem como o valor de buscar alternativas antes de comprar mais. "As escolas também poderiam incentivar esses encontros para promover a socialização e reduzir o tempo de tela", sugere Cardoso.
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A renda da família
O terceiro ponto essencial ensinado através das figurinhas é aprender a lidar com a realidade financeira e a frustração. É crucial ter uma conversa transparente sobre a capacidade financeira da família. "Se completar o álbum for comprometer necessidades básicas, deve-se explicar a impossibilidade", afirma Cilene Cardoso.
Ao perceber que nem sempre é possível ter tudo, a criança vai aprendendo a lidar com as limitações financeiras sem que isso seja visto como uma frustração, mas uma realidade.
Quando a criança participa desde o início da construção do próprio dinheiro, seja vendendo desenhos, criando pequenos produtos ou realizando tarefas combinadas, ela passa a perceber que cada pacotinho não é apenas uma compra impulsiva, mas o resultado concreto do seu esforço, criatividade e dedicação, diz Olívia Resende.
"Esse é o primeiro passo para fortalecer a autoestima e o senso de capacidade".
Segundo ela, os pais podem iniciar com uma etapa de empoderamento, convidando a criança a gerar seu próprio dinheiro por meio de atividades simples e criativas, como fazer desenhos, livrinhos artesanais, pulseiras ou oferecer pequenas ajudas que vão além de suas responsabilidades diárias.
Estabeleça um orçamento para o álbum
Uma das recomendações para organizar melhor a atividade e conter impulsos consumistas é estabelecer um orçamento específico, seja semanal ou mensal, para a compra de figurinhas. Se for R$ 50 por semana, que esse teto seja respeitado.
Ter um orçamento não é sobre cortar diversão. É sobre dar direção ao dinheiro. Mais do que isso, a criança passa a tomar decisões: 'compro tudo hoje ou guardo um pouco para depois?'. Esse tipo de escolha constrói consciência", diz Godoy.
O especialista destaca que quando a criança tem um valor definido para o álbum ela aprende que o dinheiro é limitado e isso é uma das primeiras grandes lições financeiras.
Resende concorda e completa que ao envolver a criança na definição desse objetivo cria-se um ambiente em que ela não apenas obedece a regras, mas faz escolhas conscientes. "Isso é fundamental para o desenvolvimento da autonomia", diz a economista.
Criar um "planner" - ou quadro de atividades - é uma ferramenta útil para a criança visualizar seu progresso na busca por preencher o álbum. Através dele, fica clara a relação entre esforço e ganho, sempre dentro da capacidade financeira da família.
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Pode ser algo bem simples e visual, ensina Godoy. A ideia é ir anotando tudo: quanto gastou, quantos pacotes comprou e quantas figurinhas novas vieram. Isso transforma a experiência em um jogo de acompanhamento. "Quando a criança enxerga os números, ela começa a entender o impacto das decisões. E isso é educação financeira na prática."
A criança pode usar uma tabelinha feita à mão, um caderno ou até um “diário das figurinhas”. Olívia Resende sugere símbolos, adesivos ou cores para tornar divertido - por exemplo, ela propõe um desenho de moeda para gasto e carinhas para as figurinhas repetidas.
Mais do que controlar, esse acompanhamento do orçamento desenvolve a educadora financeira e a autonomia. "A criança entende que não se trata de não poder mas de escolher como usar o que tem disponível. Ela passa a se reconhecer como alguém capaz de planejar e respeitar seus próprios combinados".
Negociar, conversar, propor trocas justas e avaliar o valor de cada figurinha são experiências que ensinam, na prática, que alcançar um objetivo muitas vezes depende da capacidade de dialogar e encontrar soluções com outras pessoas. "Esse processo reforça a ideia de que existem caminhos mais inteligentes e estratégicos para conquistar o que se quer", diz a economista.
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