Proibir bets é suficiente para reduzir endividamento? Economistas debatem
Superendividamento está mais atrelado ao baixo orçamento das famílias, crédito fácil e falta de educação financeira, diz Alexandre Bertoncello
Por Fabiana Holtz e Pedro Marques
14/10/2026 | 12h23Adobe Stock
A proibição das apostas esportivas pelo governo pode liberar até R$ 40 bilhões anuais no orçamento das famílias brasileiras, mas especialistas alertam que isso não deve impactar significativamente o endividamento da população.
O superendividamento está mais relacionado a fatores macroeconômicos, como juros altos e falta de educação financeira, do que diretamente com as apostas, que movimentaram R$ 220,6 bilhões em 2025.
Os bancos têm até hoje para devolver recursos de apostadores, e a proposta de um questionário prévio para avaliar o perfil dos apostadores está sendo defendida como uma medida para evitar excessos no setor.
São Paulo - Com a proibição das bets no País anunciada em setembro os bancos têm até esta quarta-feira (14) para providenciar a devolução de recursos de apostadores que estavam disponíveis nas plataformas. Mas o que as famílias farão com esse dinheiro?
Projeções baseadas em dados do Ministério da Fazenda estimam que o fim das bets pode liberar em torno de R$ 40 bilhões por ano no orçamento das famílias brasileiras. Essa projeção da Secretaria de Prêmios e Apostas da Fazenda leva em conta o dinheiro perdido pelos apostadores entre janeiro e junho deste ano, que rendeu ao mercado regulado de aposta uma receita bruta de R$ 20,2 bilhões. Importante ressaltar que o cálculo não considera a potencial migração para sites ilegais de apostas.
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Embora esses recursos possam ser revertidos em consumo e poupança, a medida não deve ter tanto impacto sobre o endividamento recorde da população, na avaliação do economista Alexandre Bertoncello, consultor financeiro.
Divulgação
Segundo Bertoncello, o superendividamento das famílias tem uma relação muito mais próxima com os juros altos. A atual situação, segundo ele, está mais ligada ao orçamento apertado do brasileiro médio (principalmente das classes C e D), facilitação de crédito e a falta de educação financeira. "Temos aqui uma armadilha perfeita".
Estudo recente realizado pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar) em parceria com a FIA, chamado "Bets, Juros e Crédito", indica que as bets são o principal fator de endividamento das famílias brasileiras, bem à frente da taxa de juros e da oferta de crédito.
Segundo o professor da FIA e presidente da Ibevar, Cláudio Felisoni, a medida de encerrar as bets será eficaz e seus efeitos serão sentidos no médio prazo, apesar do risco de os jogadores migrarem para bets ilegais ou outros jogos.
"Em uma balança imaginária, o peso das bets seria de 22 kg, enquanto o da taxa de juros pesaria 7 kg e a oferta de crédito chegaria a 4 kg", explica Felisoni.
Armadilha do crédito mais caro
Para o presidente da Comissão de Direito de Jogos e Apostas da OAB/DF, Fabiano Jantalia, a proibição das bets da forma como foi colocada é uma solução baseada em um diagnóstico errado. Ele concorda que há uma correlação maior do endividamento com outros fatores macroeconômicos do que propriamente com as bets.
No cenário atual de endividamento do País, Jantalia avalia que seja qual for o motivo que gerou o descontrole financeiro, as pessoas tendem a ser empurradas para as linhas de crédito mais caras.
Do ponto de vista do endividamento, Bertoncello não vê as bets como uma causa direta de novas dívidas e sim uma consequência.
Vi muitos relatos de pessoas que inclusive tentavam sair de dívidas apostando. O que é um grande contrassenso.
Alexandre Bertoncello, consultor financeiro
Além da falta de planejamento e educação financeira de boa parte da população, de fato a ludopatia, transtorno do jogo compulsivo - que já é uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) - vem comprometendo seriamente a renda de muitos brasileiros.
25,2 milhões de CPFs
É inegável que o setor de bets movimenta cifras bilionárias. Em 2025, o valor movimentado por casas de apostas autorizadas no Brasil somou R$ 220,6 bilhões, conforme dados do Ministério da Fazenda. A soma é equivalente a 1,7% do PIB brasileiro. Considerando que são cerca de 25,2 milhões de CPFs cadastrados nas bases dessas plataformas de bets é possível estimar um gasto por pessoa de R$ 1.470 por ano.
A questão é que do total arrecadado, descontando R$ 183 bilhões que foram devolvidos em forma de prêmios, ainda resta uma gorda receita de R$ 37 bilhões para essas empresas. Bertoncello avalia que as propagandas deveriam ser muito mais claras sobre os riscos e concorda que a proibição pode empurrar os apostadores para os sites clandestinos.
Sobre a fiscalização das plataformas, Fabiano Jantalia diz considerar que o governo nunca criou uma estrutura verdadeiramente eficaz para fiscalizar o setor. "A atividade de apostas não deveria ser fiscalizada pelo Ministério da Fazenda, mas por uma agência reguladora vinculada ao Ministério da Justiça", avalia.
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