Roubada e sumida: os mistérios da taça Jules Rimet, a primeira da Copa
Divulgação - VIVA
São Paulo - Não é exagero dizer que a imagem mais reconhecível da Copa do Mundo é a do famoso troféu dourado erguida pelos campeões, com duas figuras humanas sustentando o planeta Terra. Mas antes dele existiu outra relíquia: a Taça Jules Rimet, primeiro troféu da história do Mundial e protagonista de uma trajetória cheia de curiosidades, controvérsias e mistérios.
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Levantada pelos campeões entre a Copa do Mundo de 1930 e a edição de 1970, a Jules Rimet foi entregue definitivamente ao Brasil após o tricampeonato mundial. No entanto, sua história não terminou em glória. Anos depois, o troféu seria roubado no Rio de Janeiro e desapareceria para sempre.
Como surgiu a Taça Jules Rimet?
A criação da taça em 1930 está diretamente ligada ao francês Jules Rimet, presidente da Fifa na época e um dos principais responsáveis pela realização da primeira Copa do Mundo.
Originalmente chamada de Victory (Vitória, em inglês), a peça foi desenhada pelo escultor francês Abel Lafleur e confeccionada em ouro. Em 1946, após o fim da Segunda Guerra Mundial, a Fifa decidiu renomeá-la para homenagear seu idealizador.
A escultura representava Nice, a deusa grega da vitória, com asas estilizadas e uma copa octogonal erguida acima da cabeça. O troféu media cerca de 30 centímetros de altura, possuía quase quatro quilos e era considerado extremamente valioso para a época.
Jules Rimet determinou que o país que conquistasse três Copas do Mundo teria posse vitalícia da taça. Após os títulos conquistados em 1958, 1962 e 1970 pela Seleção Brasileira, a Fifa se viu obrigada a criar um novo troféu, o modelo utilizado até hoje, desta vez sem entrega definitiva.
A taça que sobreviveu à Segunda Guerra Mundial
Muito antes dos roubos que a tornaram famosa, a Jules Rimet já havia passado por um episódio digno de filme.
Em 1939, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, havia o temor de que as tropas nazistas confiscassem a taça. Para evitar isso, o então vice-presidente da Fifa, o italiano Ottorino Barassi, retirou o troféu secretamente do banco onde estava guardado em Roma e o escondeu dentro de uma simples caixa de sapatos, guardada sob sua cama.
A estratégia funcionou e o troféu permaneceu protegido durante todo o conflito. A Copa do Mundo ficou suspensa durante a guerra e só retornou em 1950, quando a taça voltou a ser disputada.
O primeiro roubo e o cachorro que virou herói
A primeira vez que a Jules Rimet desapareceu foi em 1966. O troféu estava em exposição em Londres, na Inglaterra, que sediou a Copa do Mundo naquele ano, quando foi roubado, mesmo sob forte esquema de segurança. O caso ganhou repercussão internacional e mobilizou a polícia britânica.
Após dias sem pistas concretas, a taça foi encontrada de maneira inesperada. Um cachorro chamado Pickles, durante um passeio com seu dono, David Corbett, farejou um arbusto em um bairro do sul de Londres e encontrou o troféu embrulhado em jornais.
A descoberta transformou Pickles em celebridade nacional. Graças ao improvável herói, a Inglaterra conseguiu exibir a Jules Rimet durante a Copa daquele ano, na qual conquistou seu único título mundial.
Como o Brasil ganhou (e perdeu) a Jules Rimet
O capítulo mais conhecido da história da taça envolve diretamente o Brasil.
A Jules Rimet passou a ficar exposta na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro, depois do tricampeonato de 1970. Mas, em 20 de dezembro de 1983 ela desapareceu novamente.
Dois criminosos invadiram o prédio da entidade, renderam o vigia e retiraram a taça de uma vitrine protegida por vidro à prova de balas. A ironia era que uma réplica permanecia guardada em um cofre, enquanto a original ficava exposta ao público.
O mandante do roubo foi Sérgio Peralta, representante do Atlético-MG na CBF. Segundo a investigação na época, o troféu teria sido derretido poucos dias depois por um comerciante de ouro - o que não chegou a ser comprovado. Quatro envolvidos acabaram condenados em 1988, mas a peça original jamais foi recuperada. Até hoje, o paradeiro da verdadeira Jules Rimet permanece um dos maiores mistérios da história do futebol.
(Por Enrico Souto, especial para o VIVA)
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