CONFIRA

Sobre a coluna

Historiadora e doutora pela FFLCH/USP, pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, é autora de mais de 50 livros de História do Brasil, premiada no Brasil e exterior.


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Ariana, beleza e saúde: a magreza na agenda do corpo feminino

É da falta de saúde que jorra uma evidência: nossas vidas são precárias. Precisamos nos questionar sobre ideais de beleza, diz a historiadora

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A cantora e atriz Ariana Grande é um retrato do modelo de magreza como beleza - Reprodução/rembeauty.com
A cantora e atriz Ariana Grande é um retrato do modelo de magreza como beleza
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A crescente pressão social sobre a magreza e a estética feminina é evidenciada por notícias sobre celebridades e o uso de medicamentos como o Mounjaro, que transformaram a percepção de saúde e beleza. Essa busca por um corpo ideal reflete uma longa história de padrões de beleza que evoluíram ao longo dos séculos, muitas vezes associando magreza a saúde e sucesso.

A reflexão sobre a verdadeira saúde destaca a fragilidade do corpo humano e a necessidade de uma nova perspectiva sobre beleza, que vai além das medidas físicas. A recuperação da saúde deve ser vista como um retorno à vida plena, onde o valor do corpo reside na capacidade de viver e fazer planos, não apenas na conformidade com padrões estéticos.

Resumo gerado por IA

Teresópolis (RJ) - Durante semanas, leio nos jornais que Ariana Grande emagreceu e está só pele e osso. Depois, que o Mounjaro inundou as farmácias e mudou a vida nas academias. Mais recentemente, anuncia-se o fim da tolerância com o tamanho GG.

Magreza e moda sempre estiveram na agenda do corpo feminino. Os tratados de beleza da Idade Média já insistiam na importância da “cintura estreita”. Sem falar no espartilho, que esmagava as carnes até sangrar, ou no antigo hábito de ingerir limão e vinagre para “secar” a gordura.

Até o século XIX, médicos acreditavam que o corpo era constituído por “humores”, essencialmente líquidos. O dos homens era o sangue, associado à energia, à força e ao vigor. O das mulheres, a fleugma, ligada à lentidão e à moleza. Elas seriam mais cheinhas porque a tal fleugma descia e se concentrava na barriga, no bumbum e nas coxas. Já estavam condenadas a ter cintura estreita, logo, a ser magras, mas também a exibir certas partes “arredondadas”. Tinham que ser falsas-magras.

Magreza excessiva, por sua vez, era sinal de doença, de tuberculose ou tísica. Rosto cavado? Nem pensar.

O vocabulário não era exatamente esse, mas dá para entender. No século XX, o desaparecimento do espartilho, a difusão dos esportes e a entrada das mulheres em novas atividades profissionais deram outra forma ao ideal feminino. A fragilidade e a lentidão foram engolidas pela imagem de um corpo tonificado por exercícios e ginástica que, aliás, também prometiam curar histéricas e melancólicas.

Com a fotografia nasceu uma nova representação da beleza. Revistas femininas começaram a falar em “peso ideal”. As lojas de roupas prontas passaram a trabalhar com numeração. Nos consultórios, novas técnicas de medir e pesar acompanharam as mudanças.

Nos anos 1970 e 1980, o Índice de Massa Corporal virou assunto. Saúde e magreza começaram a rimar. Médicos chegaram a associar normas corporais à psicologia: as magras viveriam mais e melhor. Magreza passou a significar não apenas saúde física, mas mental. Quem conta essa história é o historiador Georges Vigarello.

Lendo tantas notícias sobre magreza, Mounjaro e positividade corporal, penso no significado da saúde. E naquele da doença. Daquela verdadeira. Que chega sem avisar. Que é imprevisível. Que quando se declara é sempre uma surpresa. Uma catástrofe que nos deixa mudos.

É da falta de saúde que jorra uma evidência: nossas vidas são precárias"

Na doença, não nos reconhecemos mais. Fazemos a experiência de uma vida cheia de buracos, despossuída de capacidades, na qual já não somos os mesmos.

O estranhamento físico é uma realidade. É como se existisse um outro eu doente, fantasma do que fomos. A pessoa já não consegue se projetar no futuro. Vê a vida descosturada. Vive o instante, não as verdades eternas.

A experiência da doença fragiliza e traz a pergunta inevitável: “Por que eu?”. As únicas dores aceitas em nossa sociedade parecem ser aquelas que nos valorizam: a dor do esportista, por exemplo. E a única intensidade admitida é a do prazer. Multiplicamos dispositivos analgésicos, mesmo entre pessoas saudáveis. Cultivamos uma imagem mecânica, higienista e tranquilizadora do corpo tratado pela medicina.

Esquecemos que o corpo não é uma joia tecnológica, mas carne vulnerável, capaz de sofrer. A experiência da doença nos obriga a voltar ao corpo real e a medir até que ponto o abandonamos"

Talvez nunca tenha sido tão grande a distância entre os corpos que temos e os corpos que sonhamos ter. E talvez a doença nos ensine alguma coisa que a obsessão pela
aparência acabou escondendo.

Recuperar-se não é necessariamente voltar a caber numa roupa, recuperar músculos ou reencontrar no espelho a imagem de antes. É voltar a desejar, caminhar, trabalhar, cantar, fazer planos. É recuperar, pouco a pouco, a possibilidade de futuro. E então percebemos que saúde e beleza podem, sim, rimar — mas de outra maneira. Belo é o corpo que volta à vida.

Não sei se Ariana está apenas magra ou se está doente. Desejo-lhe somente saúde"

Que se cuide, que se recupere, se for preciso, e que volte a nos encantar com sua voz. Afinal, diante de um corpo que sofre, a beleza deixa de ser uma questão de medidas. Beleza é estar vivo!

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