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Dia das Mães: uma reflexão sobre os presentes de ontem e o significado atual

Divulgação

Estante de batedeiras antigas - Divulgação
Estante de batedeiras antigas
Por Alessandra Taraborelli

10/05/2026 | 08h24

São Paulo - Mais do que enaltecer a função das mulheres como mães, donas de casa e esposa, o Dia das Mães foi instituído no Brasil como parte das políticas do governo de Getúlio Vargas, em 1932. Havia um interesse para que as mulheres se dedicassem à casa, e isso vinha de um sistema capitalista que estava se formando de maneira mais intensa no País, principalmente nas grandes cidades como São Paulo, desde o fim do século XIX. A avaliação é de Viviane Aguiar, pós-doutoranda no Museu do Ipiranga.

Antes, essa sociedade produzia tudo para si mesma, era a produção de subsistência. Com a industrialização e fim do século XIX, começa a surgir uma sociedade de consumo. Isso faz com que o ambiente doméstico esteja muito mais ligado ao espaço público e dependente do que vinha de fora, como dos mercados e empórios. E, neste movimento, a mulher se torna um grande público porque é a responsável pelo trabalho doméstico e pela casa.

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"Isso tudo é uma justificava a não remuneração, a ausência de remuneração do trabalho doméstico, porque se considerava que trabalhar com a casa, limpar, cozinhar, eram dons naturais da essência feminina. Tudo isso se justificava justamente pelo corpo feminino capaz de gestar, de alimentar e nutrir os filhos. Se usava essa característica biológica anatômica das mulheres como um motivo para o papel social delas", explica.

Para Viviane, que também é pesquisadora associada à exposição Casas e Coisas, que tem curadoria de Vânia Carvalho (docente do Museu Paulista da USP), a intenção era manter as mulheres nesse papel social feminino. No entanto, ela ressalta que muitas mulheres se apropriaram justamente dessas funções, que eram atribuídas a elas para reivindicar direitos.

A gente vê o Dia das Mães sendo instituído de maneira muito complexa. É uma conjunção de forças, de poderes diferentes, que vem também das mulheres, numa intenção de valorizar essa que seria a função social das mães. Então, se nós somos responsáveis pelo futuro da nação, nós também temos que votar, nós também temos que ter participação ativa na sociedade. A ideia era mais ou menos essa, do feminismo da época.”

Indústria incentiva “dona do lar”

A indústria, que também está se desenvolvendo ao mesmo tempo, vai usar todos esses discursos para vender seus produtos. Viviane ressalta que, independentemente, da data, os anúncios como o de fogão a gás, por exemplo, que foi o primeiro grande utensílio culinário considerado moderno, começa a ser vendido no Brasil já no início do século XX, e tem com público alvo a mulher.

“A gente vê que desde os primeiros anúncios, até de refrigeradores importados, todos eles têm a figura da mulher dona de casa como alvo. Os objetos começam a ser divulgados de uma forma a serem aliados das mulheres nesse trabalho que é designado a elas dentro da domesticidade”, explica.

Conforme a indústria se estabelece, esse movimento vai se intensificando, e o auge acontece nos anos 50, quando a indústria brasileira ganha, de fato, suporte para se desenvolver com as políticas desenvolvimentistas, do governo Juscelino Kubitschek.

A gente tem um crescimento da indústria nacional de objetos de eletrodomésticos, objetos culinários... Vemos marcas importantes brasileiras surgindo, como Walita Arno...e, essa indústria continua usando o discurso de que são aliadas das mulheres e, que são inclusive feministas.”

Batedeira antiga
Estante de ferros de passar roupa
Estante de batedeiras
Presentes diversos
Porta condimentos
Kit para o Dia das Mães
Chocolates para o Dia das Mães
Cesta de Café da manhã para o Dia das Mães
Saia Midi Marrom

*Presentes antigos e atuais

Quando chega os Dias das Mães, os homens se apropriam dessa ideia feminista, o que, segundo Viviane, é contraditório, porque eles davam os equipamentos domésticos para elas, para ajuda-las e, ao mesmo tempo, isso os eximia de qualquer ajuda efetiva no trabalho doméstico.

Evolução dos presentes

A professora do curso de Comunicação e Publicidade da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Karine Karam, concorda que o presente do Dia das Mães reflete o papel que a mulher desempenha na sociedade. Ela avalia ainda que o que mudou nas últimas décadas não foi apenas o objeto que embrulhamos em papel de presente, mas o próprio significado de ser mãe.

Ela cita como exemplo a década de 70, quando os presentes eram funcionais, com o objetivo de ajudar as donas de casa. A mãe, tinha um papel doméstico, e o presente era uma forma de ajudar essa mãe atarefada.

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Como que eu reduzo o tempo e o esforço dessa mãe que está no lar? Eu vou dar um liquidificador, um fogão novo com um forno melhor, utensílios... Até tinha roupa. É negligente falar que não tinha roupa, mas aquela roupa básica, para valorizar a mulher no seu papel de ser uma esposa bonita e apresentável”
Professora da ESPM, Karine Karam
Professora do curso de Comunicação e Publicidade da ESPM,  Karine Karam - Divulgação

Karen classifica três fases distintas, que revelam como saímos da utilidade doméstica para a busca pela identidade individual, e também a mudança na publicidade para acompanhar esse movimento.

Anos 70: Senhora do lar

Nas décadas de 60 e 70, o presente ideal era aquele que facilitava a exaustiva rotina doméstica. O foco era o produto e sua utilidade para a casa.

Presentes: Liquidificadores, batedeiras, ferros de passar e fogões.

Significado: O presente era uma ferramenta para reduzir o esforço de uma mãe cujo papel social era quase exclusivamente cuidar dos filhos, do marido e da comida.

O elogio da época era dizer que a mulher era a super-heroína, aquela que conseguia manter a casa impecável e ainda estar apresentável para a igreja no domingo.”

Anos 90/2000: Arquétipo Único

Com a chegada dos anos 90, a publicidade mudou o foco do motor do liquidificador para o coração da mãe. Foi o auge do consumo, onde as marcas passaram a vender afeto, mas ainda sob um modelo de mãe universal.

Presentes: Perfumes genéricos, cestas de café da manhã, flores e joias tradicionais (como a clássica aliança com um brilhante).

Significado: Criou-se a ideia de que toda mãe é igual. Era o momento da mãe como figura central e sagrada, mas sem grandes diferenciações individuais.

A professora brinca que nessa época trabalhava como analista em uma empresa e todas as gerentes tinham uma aliança e uma anel de brilhante no dedo.

Eu falava, se eu olhar só a mão, não sei quem é quem. Os presentes eram genéricos: eu mostro meu afeto, traduzo o meu amor, mas sem me esforçar na identidade do presente. Era como dona Hermínia (personagem do filme Minha Mãe é uma Peça) dizia: mãe é tudo igual, todas falam as mesmas coisas e usam as mesmas coisas. ”

Pós-Pandemia: Mãe exclusiva

Para Karem, o grande divisor de águas foi a pandemia, porque ela acelerou a digitalização e flexibilizou as fronteiras entre o "ser mãe" e o "ser mulher com hobbies e desejos próprios". Hoje, dar um presente genérico é o maior erro que se pode cometer.

Presentes: Artigos de alta performance (tênis de corrida, roupas de beach tennis), tecnologia de ponta (smartwatches, fones de ouvido), experiências (spas, viagens, jantares gastronômicos) e itens de autocuidado.

Significado: A mãe deixa de ser um arquétipo único para revelar suas múltiplas facetas: a triatleta, a profissional, a fã de tecnologia. O presente agora deve mostrar que o filho realmente conhece aquela mulher.

E o futuro?

Ao olhar para o horizonte, Karine aponta para uma hiper-personalização. Mais do que objetos, o presente ideal para a mãe contemporânea — que acumula jornadas e lida com a culpa constante da equilibrista — é a justiça estrutural. O presente que realmente brilha hoje é aquele que proporciona "desafogamento": filhos autônomos que ajudam na rotina e parceiros que dividem tarefas de forma justa.

O maior luxo para a mãe moderna é o tempo ocioso e a permissão para ser quem ela é, para além da maternidade. Hoje, o sucesso de um presente é mostrar que você decifrou a identidade da sua mãe", conclui Karine.

Propaganda de liquidificador
Propaganda de ferro de passar roupa
Propaganda de máquina de lavar roupa
Propaganda aspirador de pó
Propaganda de diversos produtos
Propaganda liquidificador
Propaganda atual

*Anúncios antigos e atual

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