Moda sustentável: maioria das donas de brechós são mulheres e negras
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São Paulo - O rosto da moda sustentável no Brasil é feminino, negro e movido por propósito ambiental, mas ainda enfrenta desafios estruturais de renda e formalização. É o que aponta a pesquisa nacional 'Retrato dos Brechós e Bazares no Brasil 2025', lançada hoje pela Aliança Empreendedora, em parceria com a Renata Abranchs Branding.
O estudo ouviu 143 empreendedoras em diferentes Estados com o objetivo de traçar um diagnóstico do setor e orientar futuras ações de capacitação. A amostra, embora pequena, é uma das primeiras a traçar um perfil desses profissionais, as características dos negócios e os principais desafios e oportunidades do setor.
De acordo com pesquisa anterior feita pelo Sebrae-SP em 2025, a partir do DataSebrae, existem apenas em São Paulo 7.348 negócios no comércio varejista de produtos usados, sendo que 5.211 (71%) são do tipo Microempreendedor Individual (MEI).
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"Esses dados confirmam uma hipótese com a qual já trabalhávamos: os brechós são ferramentas poderosas de inclusão produtiva. Entretanto, essas mulheres ainda empreendem de forma muito solitária e com pouco acesso a crédito e gestão especializada", afirma Cristina Chiarastello, líder de projetos do programa Moda Justa e Sustentável, da Aliança Empreendedora.
"Nosso objetivo é apoiar essas empreendedoras no desenvolvimento de negócios sustentáveis e que acessem o mercado de forma digna, garantindo que a moda circular gere, além de impacto ambiental, autonomia financeira real para essas famílias", completa.
Maioria é de jovens adultas
A pesquisa mostra que a maior parte das empreendedoras está na faixa dos 21 aos 48 anos, representando 56% dos respondentes, enquanto apenas 28% têm mais de 49 anos. O perfil é majoritariamente feminino, com 98% das pessoas entrevistadas se identificando como mulheres.
Também há forte presença de mulheres negras: 65% das proprietárias se autodeclaram pretas ou pardas, sendo 23% pretas e 42% pardas. Em seguida, aparecem as mulheres brancas, com 32%. Pessoas indígenas e asiáticas representam 1% cada.
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O levantamento ainda aponta um nível de escolaridade relativamente elevado: 45% possuem ensino superior ou pós-graduação completos, enquanto 18% concluíram o ensino médio.
Regionalmente, a maior concentração está no Sudeste, com destaque para São Paulo (27%), Rio de Janeiro (12%) e Minas Gerais (10%). A Bahia também se sobressai, com 10% dos participantes.
Negócios em fase inicial
Do total de respondentes, 74% trabalham exclusivamente com esse formato, enquanto 10% atuam com bazares e 8% combinam os dois. A maioria (54%) está nos primeiros três anos de atividade, indicando negócios ainda em fase de estruturação.
Por outro lado, 20% afirmam atuar há mais de sete anos, o que demonstra resiliência em um setor impulsionado por sustentabilidade, geração de renda e busca por maior flexibilidade no trabalho.
Entre as principais motivações para empreender, a sustentabilidade ambiental lidera, citada por 72% dos respondentes. Em seguida aparecem a necessidade de gerar renda (66%) e a possibilidade de conciliar trabalho e vida pessoal (64%). A falta de alternativas foi mencionada por apenas 27%, sugerindo que a escolha pelo setor é, na maioria dos casos, intencional.
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Reconhecimento
A percepção sobre o próprio trabalho é, em geral, positiva. A maioria (69%) afirma se sentir reconhecida e valorizada, o que fortalece o engajamento com o negócio. Ainda assim, 31% dizem não perceber esse reconhecimento, apontando para a necessidade de ampliar a visibilidade do impacto gerado pelo setor.
Outro dado relevante é que 72% operam o negócio em casa, estratégia que ajuda a reduzir custos, mas pode limitar a expansão e dificultar a separação entre vida pessoal e profissional. A autoimagem empreendedora também chama atenção: em uma escala de 1 a 10, a média foi de 8,62, com 88% se considerando bastante ou totalmente empreendedoras.
Renda ainda é desafio, mas digital impulsiona vendas
Apesar do forte senso de propósito, a renda ainda é um obstáculo. Cerca de 53% das empreendedoras ganham até um salário mínimo com o negócio, sendo que 33% recebem até R$ 759 por mês. Apenas 10% reportam ganhos superiores a R$ 4.554.
A dificuldade de viver exclusivamente da atividade é evidente: só 15% afirmam conseguir se sustentar bem com a renda do brechó. Metade dos respondentes não consegue se manter com o que o negócio gera, enquanto 41% dizem conseguir parcialmente, muitas vezes cobrindo apenas despesas básicas.
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As vendas acontecem principalmente por canais digitais, combinados ou não com loja física e participação em feiras, modelo que representa 64% das respostas. O boca a boca também tem peso relevante, com 16%.
O PIX aparece como principal forma de pagamento (21%), seguido por dinheiro (20%), cartão de crédito (16%) e débito (15%). Ferramentas como QR Code e link de pagamento também ganham espaço.
O baixo volume de vendas, a falta de capital para investimento, a escassez de bons fornecedores e a dificuldade na divulgação e presença online são alguns dos principais obstáculos, assim como espaço físico limitado e falta de tempo para se dedicar ao negócio, aponta o levantamento.
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