Podcast 'Escute as Mais Velhas' lança nova temporada com feministas 60+
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São Paulo - É possível que, em algum momento, você já tenha se deparado com o conselho "escute as mais velhas", o que têm razão de ser. Afinal, estamos falando de pessoas cujas vivências lhes permitem falar com propriedade sobre diversos temas que estruturam e movem a sociedade.
Essa é a premissa do podcast 'Escute as Mais Velhas', apresentado pela socióloga Maria Alice 'Neca' Setubal e pela historiadora Sueli Carneiro, e que chegou na última semana a sua segunda temporada, com episódios semanais.
Em entrevista ao VIVA, Setubal contou que o projeto nasceu de uma inquietação sua e da amiga de destacar histórias de mulheres que atuaram no espaço público a partir da constituinte e da constituição de 1988. Segundo Neca, o foco não é o envelhecimento das mulheres em si, mas a trajetória de quem desbravou caminhos no debate público.
"Foram mulheres que abriram o caminho, que foram pioneiras, enfrentaram muitas agressividades, enfrentaram muitos obstáculos e continuaram, que não desistiram".
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Ela explica que, desde aquele momento histórico até hoje, essas mulheres, algumas com mais de 70 ou 80 anos de vida, seguem atuantes na política, em organizações da sociedade civil ou em espaços como a Academia Brasileira de Letras, caso de Rosiska Darcy, que é a entrevistada do primeiro episódio.
E pontua que o objetivo central do projeto tem caráter pedagógico:
"A gente queria que as mais novas ouvissem as mais velhas para entender que toda essa luta do feminismo não começou agora, que tem uma história e elas estão aqui hoje, as mais novas, porque essa história possibilitou e pavimentou esse caminho".
O sucesso da primeira temporada, que inclusive passou a integrar a bibliografia de diversos cursos universitários, impulsionou esta nova fase, que mantém a linha editorial, mas propõe um encerramento simbólico com a "entrega do bastão" para mulheres mais jovens.
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Segundo Neca, as entrevistadas veteranas trazem um resgate histórico que não se limita à nostalgia. "Elas ainda estão atuando, se renovando, atualizando a pauta de outra forma, é muito atualizado".
Diferente da atuação de décadas passadas, exemplificada por Rosiska Darcy, figura embemática do feminismo no País, que "viajava o Brasil inteiro e não tinha rede social, chegava lá e conversava com as mulheres", ela pontua que a nova geração de mulheres lida com a instantaneidade digital, embora ambas defendam pautas históricas, como o direito ao aborto, a oferta de creches e a igualdade salarial.
Violência no foco
Durante a conversa com a reportagem do VIVA, a filantropa, que é da família que controla o banco Itaú entre outras empresas, aprofundou reflexões sobre a violência de gênero, associando o aumento do feminicídio à reação masculina diante da crescente autonomia das mulheres.
Ela argumenta que, em seu ponto de vista, "isso vem aumentando porque as mulheres não se submetem mais, são protagonistas, mais autônomas, mais independentes", o que gera um embate direto com quem ainda as vê como objeto.
Para ela, esse cenário é agravado por um descompasso educacional, onde meninas vem sendo cada vez mais incentivadas a ter protagonismo, enquanto alguns setores na internet e sociedade 'educam' meninos sob a ótica de masculinidades tóxicas. Nessa linha, ela diz que o tempo nem sempre garante avanços e que isso reflete um Congresso Nacional atual "tão conservador que hoje dificultaria a aprovação de conquistas obtidas em 1988".
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Olhar social
Apesar do sucesso recente do podcast, Setubal menciona que o tema do protagonismo feminino já a acompanhava muito antes e foi reforçada com a experiência acumulada na Fundação Tide Setubal, organização do terceito setor criada por ela no início dos anos 2000 para ajudar moradoes de São Miguel Paulista e outras comunidades periféricas.
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Nesse sentido, ela resgatou exemplos como as Guardiãs do Bairro, um grupo de mulheres do Jardim Lapena que nasceu na pandemia apoioado pela ong e que trouxe com força o protagonismo feminino na região em relação à segurança, saúde e acesso a direitos básicos.
Para ela, essas mulheres, muitas das quais vivem cenários de extrema pobreza, são as verdadeiras "protagonistas da própria história", exercendo autonomia sobre o território em áreas que abrangem desde a segurança até a saúde e a economia solidária, forçando até mesmo grandes empresas a apoiarem seus trabalhos, como ocorreu em hortas comunitárias combatidas no início e que foram mantidas graças a atuação do grupo.
No campo da educação, Neca Setubal reconhece os avanços brasileiros em universalizar o acesso à escola, mas ressalta que a qualidade permanece ligada à formação docente. Ela critica a predominância de cursos à distância na formação inicial de professores, defendendo que o docente precisa de atualização constante, pois muitas vezes "não sabe lidar com as questões hoje, como rede social, violência, todos os problemas que a gente está vendo no mundo".
O podcast explora como a educação foi o motor de ascensão para as pioneiras, muitas vezes impulsionada por mães que incentivavam a independência das filhas, para que "não dependessem de homens" para a existência econômica e social.
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Ao contrastar as gerações, Setubal observa que mulheres que atualmente estão na faixa dos 30 a 40 anos, e que também foram ouvidas para a nova temporada, já iniciaram em outro patamar social. E reforça que a essência do 'Escute as Mais Velhas' reside na preservação da memória para orientar as lutas do futuro.
A gente trouxe essa história e agora contem vocês, mais jovens, suas histórias do feminismo atualmente".
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