Mary Del Priore: 'Mulheres têm responsabilidade em educar sobre feminicídio'
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São Paulo, - Mulheres têm grande responsabilidade na formação das famílias, de homens e de mulheres. A historiadora, professora e escritora Mary Del Priore, defende que o feminícidio sempre existiu, assim como também sempre existiu violência contra os homens, e que hoje o avanço dos meios digitais têm tornado o tema mais popular, o que permite usar essa ferramenta de comunicação para educar.
A historiadora pondera que as mulheres são mais frágeis fisicamente, no entanto, não se pode esquecer que as mulheres sempre tiveram seus valores e seus mecanismos de luta, e que é importante não fazer da mulher uma “eterna vítima”.
O protagonismo da mulher é algo que tem que ser extraordinariamente valorizado, não só nos grandes feitos, como ter ido para a guerra, ou participado da independência com um sabre na mão. Não basta isso, é na luta pela sobrevivência que a mulher se mostra muito forte e criativa.”
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Mary del Priore é autora de vários livros, o mais recente deles "Uma História da Velhice no Brasil", lançado em 2025 pela Editora Vestígio. Conta com mais de 20 prêmios literários nacionais e internacionais, como três Jabutis.
Mary reforça que a mulher acaba sendo o elo mais fraco, porque ela se sente responsável pela família e, isso, faz com que ela acabe ficando em relações abusivas, ao invés de enfrentar sozinha as consequências de uma separação. Ela ressalta, no entanto, que esses são todos subtemas que alimentam o feminicídio.
Porque nós esquecemos, e as feministas não gostam que eu fale disso, mas a verdade é essa: nós temos muitas mães extraordinariamente machistas, que educam seus filhos com valores de força, de coragem, de vingança de honra. Então, nós temos, sim, uma responsabilidade na formação das nossas famílias.”
A boa notícia, segundo ela, é que a Justiça no Brasil está atenta a essa questão e a jurisprudência está do lado da mulher.
"Eu acho que eles estão dando um passo, que eu sempre fui muito a favor, que é interrogar esses homens para tentar entender de onde vem a violência."
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Causas identitárias
A professora, que lecionou História do Brasil Colonial nos Departamentos de História da USP e da PUC/RJ, cita as redes sociais e a internet como aliadas na vigilância e como canal de denúncia. Por outro lado, "as redes isolaram as pessoas em seus nichos, o que acabou substituindo a bandeira da igualdade pela bandeira da identidade".
Ela avalia que a partir dos anos 2000, as lutas feministas como a igualdade salarial e condições de emprego, entre outras, foram substituídas pela luta por identidades.
"As mulheres pararam de se unir um prol de uma questão comum.Há uma quantidade enorme de meninas que engravidam muito cedo e abandonam imediatamente a escola. Em vez de haver uma carta nesse sentido, unindo as mulheres, nós estamos valorizando as lutas pelas diferentes identidades", afirma.
Dentro do próprio movimento feminista, segundo Priore, há cisões como o grupo anticapitalista, o grupo negro, o grupo evangélico, "fora a interseccionalidade, que estilhaça mais ainda as propostas”, observa.
Influencers e o papel da mulher
Ela lembra que a pílula anticoncepcional, que chegou ao Brasil em 1962, causou uma grande virada na vida das mulheres, que passaram a ter mais liberdade sexual, decidir sobre querer ou não ter filhos e quantos filhos ter, trabalhar fora, entre outros avanços.
No entanto, ela critica o fato dessa emancipação estar sendo substituída pela propagação de “conselhos fúteis”.
“Quando vejo as influencers convidando as mulheres a investirem exclusivamente na sua beleza, na sua sexualidade, isso tudo é desvirtuar a riqueza de papel que as mulheres têm numa família, numa sociedade."
Todas nós podemos ser representantes de alguma coisa. Temos que começar a agir e temos que estar em conjunto com outras pessoas, de uma maneira assertiva, lembrando que o papel da mulher é múltiplo, não é ficar entre a santa e a prostituta. Nós temos milhares de coisas para fazer, e isso é uma força que temos que usar”.
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Educação
Para a historiadora, investir em educação é essencial para que as mulheres tenham condições de fazer suas escolhas e enfrentar as dificuldades. As mais desfavorecidas precisam investir em educação, se formar em alguma coisa. Há muitas jovens que não querem mais ser mães. E está tudo bem.
Hoje, as mulheres querem mais independência e menos filhos. Mas elas precisam se preparar com educação. No entanto, o excesso de informação, principalmente via redes sociais, como o Tik Tok, está ‘matando’ o professor e a escola.”
Outro ponto de atenção, é avanço da inteligência artificial que vai roubar milhares de empregos, então é necessário fazer boas escolhas profissionais.
“Se nós quisermos ter um protagonismo consciente, nós temos que trabalhar no melhor sentido para dar às mulheres o máximo de educação, o máximo de informação para que se sintam fortes e enfrentarem qualquer dificuldade no mundo do trabalho, da conjugalidade ou dentro da família”.
Ela cita estudos sociológicos para contar que "na periferia, meninas com baixíssima educação acham que engravidar do chefe da milícia ou do chefe do tráfico vai dar a elas um status. Ali, a maternidade acaba sendo o único papel que elas podem exercer sem quebrar a cabeça, sem fazer curso superior, sem competir, sem entrar nesse mundo esmagador do neoliberalismo”.
Preparação para o envelhecimento
Além da educação e do trabalho, envelhecer é o terceiro desafio das mulheres atualmente na sociedade brasileira.
O melhor é fazer uma poupança, ser independente e saber que não vai dar trabalho e nem precisar de ninguém".
Daqui alguns anos, o Brasil terá mais idosos do que jovens. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2030 a população 60+ será maior que o número de crianças nesta década, em razão da taxa de natalidade. Em 2034, os 60+ representarão 15% da população.
Assim, segundo ela, a mulher tem que se preparar para envelhecer, principalmente as mais pobres, que recebem aposentadoria e, em alguns casos, se tornam vítimas da família, sofrendo violência dentro da própria casa por familiares que querem “colocar a mão no dinheiro da aposentadoria”.
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