Rejeição divide eleitores e embaralha a transferência de votos no 2º turno
Para especialistas, o fenômeno mostra um eleitorado menos fiel à orientação de seus candidatos no segundo turno e guiado por rejeições
Por Broadcast
23/10/2026 | 14h15Tânia Rêgo/Agência Brasil
Eleitores da terceira via estão se dividindo em suas escolhas para o segundo turno, com uma significativa parte optando por candidatos opostos às orientações de seus líderes, refletindo um eleitorado mais autônomo e guiado por rejeições do que por lealdades partidárias.
A pesquisa Quaest revela que 48% dos eleitores de Augusto Cury pretendem votar em Lula, enquanto 51% dos apoiadores de Renan Santos, que se declarou neutro, devem optar por Flávio Bolsonaro, evidenciando a complexidade das transferências de votos.
Especialistas alertam que a transferência de votos da terceira via será crucial para o resultado da eleição, com a necessidade de ambos os candidatos, Lula e Flávio, conquistarem esses eleitores para garantir suas vitórias no segundo turno.
São Paulo - Eleitores da terceira via divergem da orientação de seus candidatos no segundo turno e abrem um "racha" que pode ser decisivo em meio a uma disputa acirrada. Para especialistas, o fenômeno mostra um eleitorado mais autônomo e guiado por rejeições do que por líderes.
O movimento está presente no caso do candidato mais votado da terceira via, Augusto Cury (Avante), que ficou em terceiro lugar no primeiro turno, com 3.448.569 votos (2,89% dos votos válidos). A pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, 21, aponta que 48% dos eleitores de Cury devem votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno, e 33% em Flávio Bolsonaro (PL).
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No caso do candidato que ficou em quarto lugar no primeiro turno, Renan Santos (Missão), com 2,24% dos votos (2.675.887), o fenômeno aparece de forma inversa. O presidente do Movimento Brasil Livre (MBL) optou pela neutralidade no segundo turno e faz críticas recorrentes ao candidato bolsonarista, mas seus eleitores tendem a migrar para Flávio: a última Quaest mostra que 51% indicam voto no candidato do PL no segundo turno e 25% em Lula.
Além da divergência entre a posição indicada pelo candidato e a transferência de votos, há divisão no próprio eleitorado. A última Quaest indica que, entre os eleitores de Ronaldo Caiado (PSD), que declarou apoio a Flávio, 57% dizem apoiar o candidato do PL no segundo turno. No entanto, 21% afirmam votar em Lula. O ex-governador de Goiás ficou em quinto lugar nas urnas no último dia 4, obtendo 2,18% dos votos (2.605.148).
Marco Antonio Teixeira, pesquisador e professor do Departamento de Gestão Pública da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), explica que “é muito provável que parte desses eleitores seja independente, aqueles que estavam atrás de uma terceira via e não de uma opção à esquerda ou à direita”. Isso, para ele, ajuda a explicar o movimento do eleitorado em sentido contrário ao do candidato escolhido no primeiro turno.
“Há uma desconexão entre a liderança e os liderados”, avalia Teixeira. No caso do Caiado, ele entende que há uma maior transferência para Flávio em razão de sua identidade ideológica mais clara, diferentemente de Cury, que é novo na política e acabou puxando votos de “indecisos e sem compromisso ideológico”. No caso de Renan Santos, porém, esse movimento se dá em razão de os “eleitores serem mais ideológicos do que ele e serem eleitores mais antipetistas do que anti bolsonaristas”, diz.
Para o cientista político Gustavo Loureiro, pesquisador no Núcleo de Estudos Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), “estamos vendo o resultado de uma eleição em que os dois candidatos mais populares são extremamente rejeitados”.
Para ele, a maior rejeição definirá a transferência de voto no segundo turno. A última Quaest mostra o senador rejeitado por 52% dos eleitores e o presidente da República, por 47%. Na comparação com a pesquisa da semana anterior, divulgada em 14 de outubro, a rejeição ao atual presidente caiu seis pontos porcentuais - era de 53%. O cenário mostra que o País se divide entre rejeições. O Datafolha desta quinta-feira, 22, mostra o presidente com 45% de rejeição, e o senador com 46%.
Loureiro explica que o fenômeno também pode ser entendido porque as figuras políticas de Cury e de Caiado não possuem uma base sólida capaz de seguir integralmente a posição deles. “Eles não construíram essa fidelidade, por exemplo, que existe tanto dentro do petismo quanto do bolsonarismo”, diz.
No caso de Renan Santos, para ele, é o contrário, uma vez que sua figura política foi construída por meio do antipetismo. Ele pontua, porém, que chama atenção a quantidade de votos que migram para o Lula. “Ainda assim, existe uma barreira entre o eleitorado do Renan e a figura do Flávio Bolsonaro, muito por conta da rejeição”, avalia.
Marco Antonio Teixeira explica, ainda, que o resultado da eleição depende da transferência de votos dos candidatos da terceira via e que essa é uma estratégia que não pode ser ignorada pelos candidatos neste segundo turno, uma vez que “sem a terceira via, ninguém ganha hoje”. “A conta só fecharia para o Flávio se a terceira via migrasse majoritariamente com ele, e a conta do Lula só fecha se ele conseguir, além de parcela dos votos da terceira via, reduzir a abstenção”, avalia.
Ele explica que são poucos os candidatos que possuem capacidade de transferência. “Eu só conheci um até hoje, o Leonel Brizola, que, ao apoiar o Lula em 1989, conseguiu transferir praticamente todos os eleitores dele para o próprio Lula. Agora, hoje, o que eu vejo é um apoio mais declaratório”, diz o professor.
Ele avalia que o único que tem feito uma espécie de campanha contra o Flávio é o Renan Santos, que não declarou apoio a nenhum dos dois candidatos no segundo turno, mas tem lançado críticas fortes ao bolsonarismo e a Flávio. Apesar disso, as pesquisas indicam que seu eleitorado deve migrar para Flávio. Para Teixeira, “isso mostra um eleitor mais autônomo”.
(Por Mariana Ribas)
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